«O tema do livro não é institucional. Segundo as instituições, o Algarve é algo mourisco com boas praias e sol. As instituições vendem essa imagem. Não tenho nada contra isso, o turismo é um negócio. Mas o Algarve é outra coisa, sobretudo no final dos anos 1920, em que era a província mais rica do país», introduz Jacinto Palma Dias.
No seu novo ensaio, o autor retoma a «florescência económica» da região, então baseada no sucesso das conservas de peixe, e no facto de a pasta de figo ser a sobremesa de inverno predileta do norte da Europa». A relativa pequena dimensão da propriedade agrícola privada e escoamento de frescos e legumes para a capital, via caminho-de-ferro, contribuíram para um contexto fértil ao germinar da criação cultural, desde a erudita à popular.
«Muito rapidamente apareceu um grupo de jovens recetivo à novidade e adotou-a. Tem a ver com o João Lúcio, o poeta de Olhão, com o Francisco Fernandes Lopes, e Faro funcionou como o ponto de deflagração da movida modernista» que teve a cumplicidade das vanguardas artísticas de Lisboa.
«O modernismo é o corte com todas as artes anteriores e tem como antecedente o impressionismo. O Algarve sempre se definiu, subjetiva ou objetivamente impressionista», explica. Aliás, teorias que já motivaram a publicação de um artigo bipartido no «barlavento» (parte 1 e parte 2).
«Há uma diferença entre as expetativas de vida nos anos 1920. Hoje, o mundo está feito, está acessível, desde o frigorífico, o rádio e o BMW. Na altura, havendo meios, o que é que as pessoas faziam? Expunham-se na sua própria produção artística. Consistia ou na ilustração da casa, e aí aparece a platibanda, ou nas formas musicais que no Algarve, ao contrário do resto do país, eram eletrizantes, com um instrumento novo, o acordeão. Aparece no final do século XIX sendo de imediato adotado no corridinho e baile mandado».
«Portanto, há aqui uma situação incrível. A movida modernista é contemporânea das platibandas, sendo estas uma produção de arte popular de gente que se sente bem, que faz o que quer, não tem nenhum padre, nem nenhum latifundiário que venha dizer não faça isso que é feio. A partir daí, temos um museu a céu aberto de Art Deco», defende.
Contudo, o crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, e a consequente falência dos grandes importadores das principais produções algarvias, a que se seguiu a guerra civil espanhola, mergulhou o Algarve num colapso irreversível. «É uma fronteira. A partir daí, as platibandas deixam de existir e o modernismo que lhe é co-existente, também deixa de funcionar, a não ser a nível estatal pela via de Duarte Pacheco».
Mas a ideia do Algarve ser um museu a céu aberto, não se esgota aqui. Um dos capítulos do novo livro destaca o trabalho pioneiro de Estácio da Veiga (1828-1891), a quem se deve a primeira carta Arqueológica do Algarve, de 1878, e a criação do Museu Arqueológico do Algarve, o primeiro em Portugal, em 1880, cujo acervo, por falta de instalações adequadas, seria transladado para Lisboa, onde ainda hoje está.
Veiga considerava o material do Algarve indispensável para fundar «o mais rico museu arqueológico do país», pois, «para além de fiel depositário dos sucessivos estratos de todas as culturas do Mediterrâneo, (…) não falando dos autóctones (…), teve nos romanos aqueles que mais material cultural deixaram depositado».
«Não quero ser paranóico, mas penso que o espólio foi desviado» para a capital «no sentido de indicar que aqui só existe sol e praia. Está em caixas, no Museu Nacional de Arqueologia, em Belém», lamenta o autor.
«O concelho de Vila do Bispo tem 144 menires – algo que só há na Bretanha francesa – que estão desprovidos de qualquer atratividade. Só os arqueólogos é que os conhecem. As autarquias locais veem isso como uma espécie de parvoíce. Mas para um turismo cultural é muito importante», acrescenta.
«Esses autarcas não têm a mínima consideração pela mina que têm ali ao lado dos pés, que é algo que não existe em mais lado nenhum. Nem sequer reparam».
«No Alentejo, Almodôvar tem o Museu da Escrita do Sudoeste. No Algarve pensa-se que isto é algo trivial. Trata-se da primeira escrita ibérica e muito possivelmente antes dela só existiu a grega e a etrusca».
«Estéticas e Inestéticas do Algarve Contemporâneo» está à venda nas lojas Fnac da Guia (Albufeira) e Faro, e no Café Calcinha, em Loulé. «Em Moncarapacho, vende-se numa ervanária e num restaurante. Em Tavira, numa mercearia e numa casa de produtos biológico. Corresponde a uma certa desclassificação do que é corrente na venda dos livros».
«Em geral, mostrei ao longo desta obra que o Algarve tem sido sistematicamente lesado pelos diferentes poderes que se sucederam da monarquia até hoje», conclui.
Jacinto Palma Dias licenciou-se na Universidade Paris VIII. É autor dos livros «Algarve Revisitado» (1994); «A metáfora da água…» (1999) e «Algarve 3D» (2012). É fundador da Quinta da Fornalha (Castro Marim) e agricultor biológico há 20 anos.
Casamentos por rapto e uma cultura imaterial em extinção
No livro «A metáfora da água, da terra e da luz na mitologia do Algarve arcaico», Jacinto Palma Dias foca as produções espirituais e imateriais. «Descobri uma situação que era frequente no Algarve que era o casamento por rapto. A estrutura das lendas das mouras encantadas assenta toda na legitimação do casamento por rapto. Descobri isto com dados inclusive. Penso que é um estudo estruturado e estrutural. O pretendente vai buscar a noiva a casa do pais, que não querem o casamento, por fingimento ou por convicção. O tema é fugir com a moça. Depois do rapto ficar afamado, ela volta a casa e ele vem pedi-la aos sogros. É uma história muito bonita», revela.
O antropólogo, professor e filósofo francês Claude Lévi-Strauss «diz que isso funcionava sobretudo em sociedades com poucos meios». «Voltando à serra algarvia, onde isso se passava, era uma situação que estava organizada. Segundo a Cristina Bastos disse que andou a estudar o nordeste algarvio, funcionava no ciclo do pão e do porco. Funcionava até há 50 anos. O 25 de Abril trouxe uma ilusão de óptica. As sociedades arcaicas, mesmo que fossem analfabetas tinham a sua forma de existir. E a sua forma de construir a sua própria mitologia, os seus acertos. Com o corte do 25 de Abril, dado que estas sociedades arcaicas são consideradas em perdição, o ensino vai substituir esse saber arcaico, por outro saber importante que o substituísse. Infelizmente, isso não aconteceu. Conheci pessoas analfabetas que eram muito mais sábias do que acontece quando falo com muitas pessoas com cursos superiores nos dias de hoje. Não tenho nenhum procedimento político, mas apercebo-me que foi um logro», compara. «Portanto, o Algarve regrediu à escala, face ao 25 de Abril. Não estou aqui a defender o Estado Novo, mas a cultura tradicional existia como tal. A rotura trouxe um vazio. Isso é desastroso».