O assédio de Fernando Pessoa a Francisco Fernandes Lopes, em 1919, com vista à fundação de uma revista, repete o episódio de Carlos Porfírio, em 1917, quando este avançou para a responsabilidade editorial da revista «Portugal Futurista», por em Lisboa ninguém arriscar tal feito.
Isso significava que o território intelectual de conforto dos modernistas, nessas vésperas dos anos 1920, estava situado no Algarve. Mais propriamente no paralelo Faro-Olhão-Tavira.
Francisco Fernandes Lopes frequentava João Lúcio, embora fossem politicamente opostos. Era médico municipal, literato e, lateralmente, professor de português no Liceu de Faro. Mas esta sua tanto amplitude, como abertura intelectual, ficou registada sobremaneira na sua atividade como musicólogo.
Foi aqui que sobressaiu tanto intelectual, como internacionalmente. Porventura, ninguém em Portugal escrevia em revistas estrangeiras da especialidade.
Francisco Fernandes Lopes fê-lo, visto que colaborou com frequência na parisiense «Revue Musicale» dos anos 1920. Foi o movimento gerado em torno desta singular personalidade olhanense que os mandantes da cultura portuguesa silenciaram.
Esta omissão, involuntária seja ela, embora intolerável, permitiu evitar que o pecado do provincianismo fosse atribuído à capital de Portugal.
Ora Francisco Fernandes Lopes traduzia por inteiro o meio cultural de Olhão nesses princípios do século XX, ou seja, à estratificação social da vila não correspondia uma nítida estratificação cultural, como ocorria em outros centros urbanos.
Olhão era de constituição recente. Raul Brandão observou em 1922 o trato «igualitário» entre as pessoas no seu livro «Os pescadores»: «mano» para aqui, «mano» para ali.
E até quando, cem anos antes, foram no caíque «Bom Sucesso» anunciar ao rei que os franceses estavam em retirada, desconheciam o protocolo. E trataram D. João VI por «mano»!
Este traço de carácter abriu os olhanenses para as novidades com mais facilidade do que aconteceu em outras povoações, não só do Algarve, como também do resto de Portugal.
Assim não custa acreditar que Silva Nobre, também ele médico, não cobrasse honorários na sua função de presidente da Câmara nos anos 1920.
A novidade não está aí, mas na decisão da edilidade olhanense se decidir pela construção de um bairro social para os mais carenciados, o «bairro municipal» hoje conhecido por bairro do Siroco.
Tudo era possível no âmbito de uma «natural» naturalidade. E foi assim que a escolha do arquiteto recaiu no modernista Carlos Chambers Ramos.
Este muito jovem arquiteto constituiu juntamente com Cottineli Telmo, Pardal Monteiro, Jorge Segurado e Cristino da Silva, o dream team da arquitetura modernista. Todos eles licenciados pela Escola de Belas Artes de Lisboa no ano de 1920.
Aquele último distinguiu-se com uma magnífica composição modernista no Algarve – o casino de Monte Gordo – entretanto demolido nas vésperas do 25 de abril. E a gare ferroviária de Vila Real de Santo António, foi assinada por Cottineli Telmo.
O bairro do Siroco, em Olhão, foi uma das primeiras obras de Carlos Ramos e a respetiva maqueta apresentada no primeiro Salão dos Independentes, em Lisboa, no ano de 1930 (revista Monumentos, nº 33).
O modernismo alastra e, ainda em Olhão, atinge o design das litografias das latas de conserva como foi o caso da marca «janete» com tampo em art nouveau produzida pelas conservas Belo Monte Lda. (in Luciano Cativo, «Ainda Olhão e a indústria de conservas…», Olhão, 2005).
Em Tavira, a linha modernista atinge também a arquitetura popular, devido ao losango ocular das platibandas passar a ser formatado pelo design art deco.
Por exemplo, como aconteceu no edifício João Campos, na rua poeta Emiliano da Costa, margem esquerda, e em outros exemplos limítrofes.
Neste caso de Tavira são os costumes que aderem ao modernismo, enquanto no exemplo do Siroco, em Olhão, é o modernismo que adere aos costumes.
Um duplo movimento que não se repetiu no restante Portugal. No caso de Olhão, as lindas arcadas ovaladas, tão ao gosto do moderno, escondem nos seus vãos as portas de entrada dos ardores do calor, tanto como do olhar dos intrusos. Isto tão ao gosto dos costumes locais.
Mas um caso há em que os costumes dão entrada nos locais de diversão mais in de Lisboa. Trata-se do night club Maxim. E também do Bristol Bar. Este último era publicitado pelos cartazes do nosso já referido Jorge Barradas.
Mas o Maxim’s, residindo no palácio Foz e considerado o mais chique de Lisboa (Manuel Domingos Teixeira, «Mundanismo, transgressão e boémia» Lx, 2012), apresenta cartazes assinados pelo modernista Stuart de Carvalhais em que a «cabeça de cartaz» é o corridinho do Algarve, já em 1921.
Os modernistas nas suas ilustrações já tinham retirado o espartilho às mulheres. E também as tinham desenhado a fumar e a beber copos.
Por isso, também descobriram no corridinho aquilo que mais o singularizava face às restantes coreografias da dança popular portuguesa. E que residia no facto de o corridinho do Algarve ser, na altura, a única dança que acontecia corpo-a-corpo, e não com os bracinhos no ar, como no restante Portugal.
E, simultaneamente, era a única em que a moça dançava com o lenço solto – o que permitia – no seu rodopiar, soltar e fazer esvoaçar não só o lenço, mas também os cabelos. Algo que lhe oferecia uma graciosidade a descair para o sensual, ultrapassando a fronteira do que na época se considerava como aceitável.
Claro que, tanto os modernistas, como os algarvios não viam aí nenhum inaceitável. Era uma dança de transgressão para os restantes. Por isso mesmo, se afirmou nos mais afamados night clubs de Lisboa, que os modernistas decoraram e publicitavam.
Surpreendentemente, para nós, o Algarve estava na moda nos mais loucos anos do XX. E sem turismo! Mas tudo se transtornou na quinta-feira negra da bolsa de Nova Iorque no fatídico dia 24 de outubro de 1929.
Como todo o Algarve era exportador, sendo essa sua economia enquadrada pela tríade pescas/conservas de peixe/passa de figo/cortiça, a região espalhou-se na totalidade. Porquê?
Porque a crise devastou as economias nossas compradoras. Faliram elas e faliu o Algarve, numa época em que não havia nem fundo de desemprego, nem Segurança Social.
A crise prolongou-se para além de 1929 e, logo em 1936, teve início a guerra civil de Espanha, a qual nos fechou as portas à exportação para os nossos vizinhos. Um desastre!
A instalação política do Estado Novo, em 1933, em nada beneficiou, mas a desgraça já começara bem antes. Mostram-se duas sequências.
A primeira, que é a empresarial: falência-suicídio-emigração. A segunda, que é a do trabalho: desemprego/miséria e também emigração.
Com a primeira apaga-se o modernismo. Com a segunda desaparecem as platibandas. Ora esse colapso ainda é atual…
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Jacinto Palma Dias licenciou-se na Universidade Paris VIII. É autor dos livros «Algarve Revisitado» (1994); «A metáfora da água…» (1999) e «Algarve 3D» (2012). É fundador da Quinta da Fornalha (Castro Marim) e agricultor biológico durante 20 anos
Fotografia: © Filipe da Palma | [email protected]