Um Tempo Suspenso

Assistimos à difusão generalizada da ideia de que os tempos hoje são de fragmentação e divisão, de desunião europeia e afirmação de derivas populistas e nacionalistas encabeçadas por perigosos demagogos. Um tempo suspenso sobre o abismo do amanhã. E é verdade. Apesar de no nosso doce e meigo Algarve esse mundo nos parecer tão distante.

Vivemos no limbo de uma transição onde não percepcionamos muito bem para onde estamos a ser conduzidos. Espécie de territórios do efémero, mundo de violências onde triunfa o mais forte e fanático. Aqui somos um distante sul de uma Europa refém de uma ameaça real e cada vez mais ameaçadora. Mas o sol brilha para todos e temos as tréguas da praia e das esplanadas à beira mar ou da ria.

É como se tudo nos passasse ao lado na miscelânea informativa, entre o manter à tona da vida a morte de Mário Soares, as imagens da destruição de Alepo, mais um triunfo de Cristiano Ronaldo, o drama dos refugiados, a eterna dívida e os bancos endividados, o crime de última hora, mais uma mulher assassinada e a pequena política comentada como um jogo de futebol, entre o está ou não está fora de jogo (como evitar o inevitável Marques Mendes…). E nós fora de campo. Parecemos perdidos na imensidão do espaço digital e no excesso de informação, servida e fugazmente digerida na televisão à hora do jantar ou rapidamente visionada no telemóvel ou no computador numa pausa do trabalho.

Mas que fazer?… Como mudar esta maquinação do presente, este mundo cada vez mais povoado de mostrengos e aventesmas?…

Ah, sim?… Nós por cá todos bem.

Quem sabe, podemos vir a ter um amanhã redentor, melhor e mais grato do que este mal-agradecido tempo em que vivemos.

Entretanto, homens e mulheres não param, as vidas produzem. As coisas fazem-se. O banal e o vulgar é irmão de sangue do grande e do belo. Essencial é aprofundar o que está acontecer.
A História é, nela tudo acontece, não vale a pena chorar.

Algum pensamento contemporâneo, apressado, certa História, revendo-se nas glórias do passado, alguma comunicação social, perdida na espuma frenética dos dias, enfim toda uma ideologia dominante e não assumida tem vindo a trabalhar e a modelar a informação limitando-se a fazer leituras do que é mais visível, da muita agitação à superfície. A realidade é dada, acomodada.

Se é certo que essas interpretações vêm ao encontro de uma espécie de pensamento de massa, do homem número, validado a likes no facebook; e, assim, legitimado apenas na multiplicação e não na fundamentação. Por outro lado, é um pensamento extremamente redutor, que se deleita com facilidades.

Não generalizemos!

É imensa a diversidade do sentir e do pensar. No fundo de nós maré cheia se espraia, derrama clara e procura outra praia. Façamos por cruzar apaixonadamente as nossas pequenas histórias individuais numa História maior plena de nobres sentimentos e devotas entregas criativas. A luta por um planeta saudável. Por existências profundas. Podemos, também, basta desejar com muita força, como fazíamos em crianças, criar alguns deuses: da lucidez e da lentidão. Por que as pressas prejudicam, tornam as coisas feias (pessoas e paisagens) e a lucidez é a luz a coalhar os seres, a transparência de nos sentirmos humanos. Crescemos sempre. Amadurecemos em todas as épocas.

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