Portugal dos Pequenitos

«SAGRES. Por aí andaram homens de civilizações várias, sagrando um promontório com os seus deuses no fim do Mundo. Dos Romanos que o chamaram de Sacro pela natureza propícia a consílios de divindades longe dos homens que as criaram. Pelos Cristãos que o ocuparam de cultos e de eremitas, pelos Muçulmanos que conheceram a fortuna de uma passagem e um abrigo contra a força das ondas». [1]

Socorro-me destas letras de quem nos deixou há pouco para, em sua homenagem ainda e sempre, me permitir sugerir que a Terras do Infante – Associação de Municípios de Aljezur, Vila do Bispo e Lagos, se proponham erigir réplica deste nosso promontório, local da preferência de visita cimeiro da procura turística nacional, noutro lugar da pedagogia dos monumentos acessível a mais quase 300 mil miúdos e graúdos – na cidade do conhecimento, em Coimbra – o Portugal dos Pequenitos.

Agora que parece que na nossa antiga capital do império se vai edificar mais um museu, o das descobertas, que bom seria, se pudéssemos ajudar, fazendo lembrar a terra verdadeira e as nossas gentes de carne e osso, que da experiência das pescarias ajudaram a capitanear as caravelas feitas do madeirame de Monchique para dar substância à Expansão.

Todo o país esteve, depois, envolvido. Por isso Coimbra e no Portugal dos Pequenitos, como primeiro parque temático nacional, central no continente e já com a representação de outras regiões, seria merecedor deste nosso esforço para se colocar o cabo de Sagres pelo que acrescentou de Mundo.

Lisboa e o seu museu, basta-se a si própria. Agora que alguns querem reescrever a História como tendo sido o ponto de partida da gesta descobridora. Receberam já as relíquias do mártir São Vicente que foram daquele mesmo lugar, com seus corvos e embarcação, que lhes serve de brasão e padroeiro.

Socorro-me outra vez do escrito de Joaquim Romero Magalhães, Coordenador da, então, Candidatura de Sagres à Unesco, com Cláudio Torres, Mário Varela Gomes, António Borges, J.C. Vilhena Mesquita e o nosso outro louletano Luis Guerreiro, entre outros (numa ideia de Carlos Albino), – Enseadas escondidas pelas altas arribas serviam para fugir das tempestades e esperar a mudança dos ventos. As embarcações nelas encontravam abrigo provisório para a continuação das viagens, para as mudanças de rotas. E por isso, por essas paragens estanciou o Infante Dom Henrique, símbolo da determinação e da ousadia dos nautas portugueses de Quatrocentos que partiam em busca de mais Mundo. [1]

Portugal dos Pequenitos é só o nome da exposição (agora com 80 anos), não a vontade dos portugueses, que dizem pequena. Portanto, motivemo-nos com Fernando Pessoa e um trecho da sua Mensagem:

«E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português».

(1) MAGALHÃES, Joaquim Romero, in. Introdução da Candidatura de Sagres à Lista Indicativa a Património da Humanidade pela UNESCO, RTA, Novembro 2002.

Paulo Neves | Presidente do Circulo Teixeira Gomes – Associação pelo Algarve

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