Largo de São Pedro, requalificação ou confusão?

Em 2008 o arquiteto Miguel Caetano elaborou uma proposta no sentido de transformar em zona pedonal todo o Largo de São Pedro (até ao café Mactostas) e a área à frente da Igreja do Carmo. Este projeto, se tivesse sido efetivado, teria feito o milagre de transformar uma área que é uma estranha miscelânea urbana de casas, prédios, igrejas, jardins e parques de estacionamento, tudo ao molho, numa das zonas mais agradáveis de Faro.

Evidentemente que as ideias visionárias não têm eco numa cidade cujo único compromisso é dar vazão à especulação imobiliária. Desse projeto de grande fôlego o máximo que se conseguiu fazer foi uma miniaturazinha que se traduziu na requalificação de uma parcela do Largo de São Pedro, cujas obras terminaram há dias, às quais se seguiu a inauguração celebrada com pompa e circunstância. A pedonalização de uma área constitui sempre um benefício urbano com mais-valias várias, a nível do espaço libertado da presença agressiva e poluidora do automóvel, tornando-a numa área aprazível e de desfrute. Infelizmente, a libertação do tráfego automóvel neste caso não foi total, tendo-se, contudo, condicionado e minorado a sua circulação.

Na pavimentação utilizou-se a calçada portuguesa com o empedrado originário (nas zonas de circulação dos carros), mantendo os dois pavimentos ao mesmo nível. A solução está bem conseguida. O conjunto é visualmente agradável, se nos conseguíssemos abstrair do resto…, e o resto, tem uma presença tão marcante que não há abstração que nos valha: uma floresta de pilaretes, uns candeeiros estilo ET e uma enorme rampa que rasgando a alva fachada da igreja acaba abocanhando a escadaria do adro.

Soluções que se adequariam a uma zona moderna ou à entrada de uma repartição de finanças, mas nunca num dos poucos largos históricos que restam em Faro. A contenção do estacionamento abusivo, a redução da fatura energética e a aposta numa cidade inclusiva não justificam uma via aberta para o vale-tudo sobre o património.

O valor intrínseco deste assenta, entre outros aspetos, em fatores artísticos e harmónicos que, dada a sua essência, são de uma fragilidade enorme e suscetíveis de serem facilmente afetados por fatores exógenos dissonantes. Quando isto acontece, ocorre um esvaziamento identitário e simbólico do património perdendo-se o élan que sustenta a magia da sua presença.

Começando pelos pilaretes, não posso deixar de referir a Meca dos ditos-cujos: Querença, onde à roda da igreja, e não só, se plantou uma amazónia de pilaretes, e que, pelos vistos, impressionou de tal forma os outros autarcas algarvios, que agora, não há largo nem igrejinha que não os solicite. Os pilaretes, objetos inusitados, funcionam como jaulas que fragmentam e enclausuram o espaço criando rigidez e obstaculização.

Havendo necessidade aponto as seguintes alternativas: esferas, canteiros com plantas, arbustos e árvores. Já os candeeiros contemporâneos high tech são a maior afronta ao espírito deste lugar. É inconcebível tentar compatibilizar tal design com tal igreja, tal luz esmaecida e cadavérica à noite com tal ambiência histórica. E há uma regra básica que não foi seguida e que revela bem a ignorância e insensibilidade de quem optou por tais excrescências: os candeeiros urbanos só são assentes em postes se estiverem afastados das paredes das casas. Caso contrário são colocados sem poste e assentes nas próprias paredes.

Pergunto, por fim, porque simplesmente não se mantiveram os candeeiros antigos presentes em todo o centro histórico?

Quanto à lamentável rampa, existem vários sistemas específicos para monumentos, precisamente para não interferirem com a sua integridade. No caso da Igreja de São Pedro existem também duas portas laterais mais adequadas para esse fim. É que com bom senso e sensibilidade, o património pode conviver pacificamente com o século XXI.

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