As consequências de interferir com a natureza

Nos países ditos desenvolvidos vive-se hoje um inédito período de consciencialização ambiental. Não deixa de ser, portanto, surpreendente que, neste contexto, se continuem a executar intervenções e construções que, pela sua (anti)natureza, põem em causa o ambiente e os ecossistemas. Um dos exemplos mais antigos e igualmente mais recente é o do assoreamento das barras da Ria Formosa. São as barras que permitem o acesso ao mar e sem elas não poderá haver atividade piscatória na costa, transporte de mercadorias pelo mar ou atividades como turismo, desportos ou náutica de recreio.

São, portanto, de extrema importância para as diversas atividades económicas. Com isto pretendo sublinhar que é perfeitamente compreensível a decisão de se proceder às dragagens. No entanto, tudo tem o seu reverso…

Existem documentos históricos com vários séculos, alguns datando da alta Idade Média, que nos revelam que as barras da Ria Formosa foram mudando de sítio ao longo da história. Durante pelo menos 600 anos, abriram, fecharam e deslocaram-se para nascente ou poente.

Foi precisamente devido a estes movimentos que os portos de Olhão e Portimão se tornaram nos dominantes da região algarvia durante o século XVIII, pois os principais até então, em Faro e Tavira, tinham menor acessibilidade (para uma explicação mais detalhada deste processo histórico recomendo a obra do geógrafo Patrick O’Flanagan, Port Cities of Atlantic Iberia, c. 1500-1900, publicado em 2008 pela editora Ashgate).

A única solução que os pescadores e mercadores tinham na altura era procurarem outros portos na Ria Formosa. Não era conveniente, mas era o possível. Mas o ser humano, com a sua capacidade de radicalmente modificar o meio onde vive, desenvolveu tecnologias que permitiram contornar esta tendência natural da ria. As dragagens, barras artificiais, pontões, paredões, quebra-mares e molhos foram apenas alguns dos meios para resolver o problema que o assoreamento das barras representava.

As dragagens não são necessariamente algo negativo, ainda que tenham conhecidos impactos ambientais, não só nas zonas dragadas, como nas zonas onde o material dragado é depositado.
Neste último caso, os materiais dragados podem ser poluentes e altamente destrutivos para várias espécies, uma vez que contaminam habitats com materiais externos.

O depósito de sólidos nas zonas de descarga é um outro problema, sobretudo quando as dragagens são efetuadas na foz de rios que passam por localidades e tendem a recolher décadas de lixo humano, que é acumulada nos leitos dos rios (ver a obra de Carlos Coelho et al. Dragagens: fundamentos, técnicas e impactos, publicado em 2011 pela Universidade de Aveiro).

Há alguns dias atrás começaram a surgir vídeos e fotografias do impacto que as dragagens podem ter. Em causa, o areal da praia deserta a nascente da barra da Ilha de Tavira, que parece irreconhecível, debaixo de um interminável manto de lixo que o mar tão poeticamente trouxe de volta com o levante. Estes detritos vieram recordar-nos que tudo tem consequências e que o acesso ao mar, apesar de necessário, não pode ser feito à custa da destruição de habitats nem da poluição dos ecossistemas.

Mas um outro assunto tende a passar despercebido quando se fala do assoreamento das barras. Como referi acima, o assoreamento é tema antigo nestas paragens. Mas nem tudo se mantém igual. De facto, algo mudou drasticamente ao longo do último século.

Os assoreamentos são atualmente muito mais comuns que há algumas décadas, as ilhas-barreira têm hoje uma área e volume de areia infimamente inferior ao que tinham apenas há duas ou três décadas e a necessidade de reforçar os cordões dunares tornou-se anual. Mas porquê? Voltamos à ideia inicial: a ação humana sobre o meio ambiente. E três grandes erros foram cometidos nas últimas décadas, erros esses que agora pagamos com interesse redobrado.

O primeiro erro foi a construção de diversas barragens nas ribeiras algarvias. A necessidade de abastecimento de água sempre foi um problema na região e as barragens foram a solução mais fácil. Mas estas têm, porém, um custo oculto: as barragens retêm os sedimentos que os cursos de água trazem, sedimentos esses que ao entrar no mar, dispersam-se pela orla costeira através do complexo sistema de reposição de areias. A palavra-chave aqui é precisamente sistema. Estas barragens interferem com o bom funcionamento deste sistema de reposição de areias e isso, por seu turno, significa que há menos areias para reforçar as praias e ilhas, não conseguindo repor os sedimentos levados pelas correntes e intempéries (ver artigo de Georgios Sylaios et al. Restoration of a seashore eroded due to dam operation through beach nourishment publicado em 2012 na revista Ecohydrology & Hydrobiology).

O segundo erro foi a criação de quebra-mares, pontões, molhes e paredões pela região fora. Estas construções, de indubitável conveniência para a atividade marítima, têm também elas, um custo oculto para o meio-ambiente.

Ao interferirem com as correntes marítimas, estão a interferir com a livre circulação de sedimentos, levando, à semelhança das barragens, a problemas de reposição de areias.
E estas construções tornam-se mais problemáticas por serem frequentemente apontadas e encaradas como soluções para o assoreamento, sendo, na realidade, também elas, em parte, causadoras desses assoreamentos e da perda de areias nas praias e ilhas.

O terceiro erro foi a criação de barras artificiais. Em alguns casos, aumentaram-se as barras já existentes. Noutros, fecharam-se algumas e criaram-se outras em locais mais convenientes. Independentemente do caso, certo é que esta criação de barras tem custos e consequências.

Um dos melhores exemplos da região algarvia é o da barra da Fuzeta. O lado nascente da ilha da Armona, mais comumente designado de ilha da Fuzeta, foi dividido ao meio em 2010, quando a deterioração do cordão dunar que a ilha tinha sofrido ao longo dos anos provou-se incapaz de conter o mar durante um período de forte vendaval.

A deterioração do cordão dunar deveu-se não só aos fatores anteriormente referidos, mas também à existência de casas nas dunas, o que as enfraqueceu. Esta situação foi identificada e alertada por investigadores desde o final dos anos 1990, mas esses alertas não surtiram efeito algum, como podemos hoje constatar.

Este temporal dividiu a ilha ao meio, abrindo uma nova barra natural na Fuzeta, o que foi considerado inaceitável e prontamente se procedeu ao seu encerramento e à criação de uma barra artificial numa posição mais conveniente.

Desde então, a barra da Fuzeta existe perpetuamente assoreada, ao mesmo tempo que a ilha encolhe a olhos vistos, tendo ambas sido alvo de diversas intervenções.

Mais recentemente, a barra da Fuzeta, desassoreada no final de 2018, voltou a assorear no início deste ano, algumas semanas depois e em tempo recorde. Prontamente houve quem associasse o reforço da ilha (decorrido durante o verão) ao assoreamento.

Talvez assim seja, mas escuso-me de fazer julgamentos apriorísticos. Sublinho, sobretudo, a inutilidade dos diversos milhões de euros que foram literalmente jogados ao mar desde 2010 devido à barra da Fuzeta, à inflexibilidade de se reconhecer que esta solução simplesmente não funciona e à insistência em apontar-se o dedo a tudo menos à origem dos problemas: a intervenção humana no meio ambiente.

A criação de barras artificiais raramente funciona e mesmo quando funciona tem consequências para o habitat.

O exemplo da Fuzeta é paradigmático, até porque estes riscos eram conhecidos. Ainda assim, foram ignorados e alguns meses depois, tudo permanece igual, à exceção do dinheiro desperdiçado. Talvez a barra da Fuzeta não volte a ser navegável nas próximas décadas. Talvez outras ilhas necessitem de reforço. E talvez outras barras sofram o mesmo destino. Não sabemos. Sabemos, isso sim, que desde a primeira barragem e da primeira barra artificial, que os assoreamentos são mais comuns e que as ilhas e praias têm vindo a encolher.

Talvez seja altura de pensar nos custos ocultos destas obras, assim como nas suas consequências. E talvez, só talvez, seja altura de alguém admitir que foram cometidos erros e que insistir nesta política de destruição ambiental é um tremendo erro.

J. André Guerreiro é escritor e investigador social

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