Jovem arquiteta de Messines brilha na ilustração de livros infantis

Marta Jacinto, mais conhecida entre os seus amigos e no mundo da ilustração como Martolita, nasceu e vive em São Bartolomeu de Messines. É arquiteta de formação e ilustradora por vocação, um talento que revela desde tenra idade. Considera-se uma pessoa igual a tantas outras, com uma pequena diferença: «dentro de mim, habitam uma série de bichos e coisas que são naturais e que gosto de passar ao papel». Não vê qualquer dificuldade em conjugar
a arquitetura com a ilustração, porque «o processo criativo é semelhante».

barlavento – Como e quando surgiram as ilustrações?
Marta Jacinto – Sempre desenhei muito, em toda a parte e a toda a hora, desde pequena. Até nos documentos importantes da minha mãe, se me caíssem nas mãos. Mais tarde, comecei a desenvolver personagens, entre as quais o «doutor Tiradores». Foi, aliás, a personagem que motivou uma amiga a escrever uma história que terminou no meu primeiro livro publicado.

A Marta tem formação académica na área da ilustração?
Não tive e, no início, foi difícil, porque não sabia como as coisas funcionavam. Fui obrigada a pesquisar muito e a usar o método da tentativa e erro para desenvolver as minhas capacidades.

Ilustra principalmente livros infantis?
Embora não faça exclusivamente livros infantis, estes são a minha praia.

E já fez parceria com vários escritores?
Sim. Comecei com uma autora desconhecida, um trabalho que me deu muito gozo, porque havia uma grande cumplicidade. Como ela me conhecia muito bem, soube aproveitar os meus pontos fortes e a história resultou muito bem. Os personagens são muito cómicos e os desenhos apelativos. Não sou muito apologista da arte digital. Adoro experimentar os materiais, mexer nas tintas e nos pincéis. Todo o meu processo é tradicional, manual. Gosto de texturas, de recortar, fazer colagens, pintar.

A Marta é, no fundo, uma artista plástica?
Sim. Muito antes da ilustração infantil, já fazia exposições na área da pintura. Estreei-me na Casa-museu João de Deus, em Messines, com uma exposição de pintura.

Trocou definitivamente a pintura pela ilustração?
Continuo a fazer de tudo um pouco, pintura, modelação, mas o tempo não é muito, porque a arquitetura ocupa-me a maior parte.

Quantos livros já tem publicados?
Já tenho seis livros editados, incluindo um manual de leitura da Porto Editora, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. A Abelha Zarelha, A Barata Patarata e o Escaravelho Trolaró, que fazem parte de uma coleção de dez livros, para meninos mais pequenitos, em parceria com a escritora Raquel Patriarca. São animais diferentes, cada um com a sua voz, porque me divirto a imaginar o modo como falariam, enquanto desenho.

Dá para viver dos livros?
Não, não dá. Poderia dar, se não tivesse receio de arriscar e não tivesse a profissão de arquiteta, que me dá segurança. Gostaria de me dedicar só aos livros, mas, infelizmente, ainda não dá.

Mas os livros infantis vendem bem?
Sim. Mas dão muito trabalho a fazer. E como o meu processo é todo manual, levo muito tempo. Por vezes, esqueço-me do tempo e sou capaz de passar 10 ou 12 horas seguidas a desenhar, durante os fins de semana.

Qual o método seguido para a cooperação entre autores?
Habitualmente, existe uma parceria com o autor e também com a editora. Outras vezes, o texto chega-me já pronto, mas não aceito todos os trabalhos; apenas aqueles com os quais me identifico. Gosto mais de livros do tipo cómico. Acabam por ser mais dinâmicos. Como gosto muito de ir às escolas e de interagir com as crianças, estes são mais divertidos e mostro-lhes o meu mundo.

As visitas às escolas ocupam-vos uma grande fatia de tempo?
Sim, mas acaba por ser o modo de obter o retorno pelo nosso trabalho, que é muito solitário, muitas horas a trabalhar sobre as pranchas. Nas escolas, apercebo-me do que realmente fiz, se transmiti ou não a mensagem. É muito gratificante.

Irá manter-se dentro desta linha gráfica?
O meu traço mantém-se. Tento variar um pouco nas técnicas e, com o passar do tempo e a experiência adquirida, cada trabalho acaba por ser um pouco diferente dos outros. Mas o meu registo está lá.

E o futuro, Marta? Pensa que poderá viver exclusivamente desta atividade?
O futuro é um dia de cada vez. Tenho esperança, nem que seja quando estiver reformada (risos).

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