Daniel Rato, o mais sueco dos acordeonistas algarvios

Lenda viva da Bordeira garante que jamais se reformará da música.

Encontrámo-lo no solarengo domingo de 6 de janeiro, na Bordeira, concelho de Faro, bem disposto, com a frescura e o refinado humor dos seus 70 anos. O sotaque sueco é evidente e algumas palavras do português já se vão perdendo na conversa. O que nunca lhe sairá da memória são as histórias da juventude.

«Isto nasceu comigo. Tinha quatro anos e já tocava gaita. Sabia uma dezena de músicas. O meu pai foi para a Argentina, esteve lá 18 meses e trouxe-me uma concertina. Comecei logo a tocar. Nunca tive aulas, nada, nada, nada! É tudo de ouvido. Ouvir os outros que sabem tocar é muito importante, mas isto é um dom que nasce com a pessoa. É um dom!», sublinha.

«E não tenho ninguém na minha família que já tocasse. Ninguém. É uma história muito complicada», brinca. Na sua infância, na Bordeira, «havia aqui um moço chamado Ricardino cujo avô tinha uma adega. Todos os anos faziam uma festa para provar o vinho. Certo dia, eu estava a caminho para ir cortar o cabelo. Devia ter uns 6 anos. Passei por alguém que me disse que o João Barra Bexiga estava lá. Fui logo a correr para o ver tocar. A minha paixão é a música do acordeão», diz. Acabou por ser apadrinhado pelo acordeonista.

«Quando o Bexiga acabou de tocar, pousou o instrumento e eu fui lá experimentar e dedilhar. Ele disse ao meu pai: Ò senhor Joaquim, tem de lhe comprar um acordeão. Então o moço já quer tocar! E foi assim que isto começou».

Mais tarde, nos anos 1960, o jovem Daniel Rato tocava nos hotéis do Algarve. «Tinha um conjunto chamado Delca», apelido do guitarrista. Foi assim que conheceu a esposa sueca e que viria a trocar o sol pela neve. Vendeu tudo menos um acordeão que levou na bagagem. Diz que foi amor à primeira vista. Até hoje e já passaram 40 anos.

«Quando ouvi falar sueco pensei: nunca mais vou aprender esta língua!» Foi para a escola e até nem custou muito «É uma questão de gosto por aprender», explica.

«Quando cheguei, ninguém me conhecia. Não era um paraíso. Arranjar trabalho na música, na Suécia, é difícil. A concorrência é muita», diz. Mas trazia um ofício. «Comecei a trabalhar com o meu pai aos 12 anos. Ele tinha uma casa de mármores em Faro, na Rua do Alportel. Quis que eu aprendesse uma profissão. Então, comecei a trabalhar numa oficina de granitos. Fazia bancadas para cozinhas e outras coisas. Gostaram de mim e fiquei. O engraçado é que os mármores com que eu trabalhava lá na Suécia vinham aqui de Portugal. Eu é que arranjei isso. Na altura, os canteiros portugueses estavam muito bem vistos em toda a Europa. Tinham fama de trabalhar bem a pedra. Um dia o meu patrão sueco perguntou-me se eu conhecia alguém que exportasse os mármores. Então não conhecia? Eu ia com o meu pai a Estremoz. Dei-lhe a direção, falaram em inglês. Naquele tempo não havia cá Internet e, portanto, o homem ia lá todos os anos ver a gente. E o meu patrão vinha comigo passar cá férias no verão», relembra.

Na Suécia, o acordeão é também um instrumento popular, o que ajudou o algarvio a integrar-se. Certo dia ouvi um som diferente e disse para consigo: «tenho que comprar um acordeão destes, pá!». Azul, feito à mão, custou 7 mil coroas. E até tem a bandeira portuguesa. «As músicas deles são fáceis, mas com muito bom gosto. Isso deu-me muita inspiração», admite. Em 2013 ganhou um concurso com a «Marcha da Cocheira» composta por ele, melodia que junta as influências dos dois países. Agora, nestes dias, Daniel Rato veio tocar com a sua charola «A Democrata», no dia 6 de janeiro, no festival da Sociedade Recreativa Bordeirense. Mas com os filhos e netos na Escandinávia, não pretende regressar para Portugal. Já não trabalha, mas garante que «da música, nunca me vou reformar».

Recordações de João Barra Bexiga e Eugénia Lima

Daniel Rato, nasceu a 27 de setembro de 1948 e desde cedo que começou a demonstrar talento para a música. Na juventude chegou até a gravar discos (dois singles e um LP) com várias das suas composições. «A primeira vez que encontrei a Eugénia Lima tinha eu 7 anos e tocava no Rancho Folclórico de Faro. Um dia fomos a Lisboa para participar num concurso de folclore, no antigo Pavilhão dos Desportos. Ouviu-me e no final disse-me: tens de comprar um acordeão melhor». A partir daí ficaram amigos e mais tarde a acordeonista viria a produzir um dos discos que Daniel Rato gravou.

«Ela vinha muitas vezes à Bordeira. Tocou muito aqui no Algarve» e consta que tinha um namorico com o João Barra Bexiga. «Ele gostava muito dela, e ela também gostava muito dele. Tocaram muito juntos. Mas ele era muito tímido», recorda. Aquando da homenagem ao Bexiga «fomos a um restaurante em Montenegro. Diz ele para ela: Olha, tu és boa para conduzir. És boa também para tocar. O resto não sei…» Aquilo ficou para a história. «Ele tinha aquele jeito. Um dia perguntei-lhe como vai a saúde. Respondeu-me: Não tens nada melhor para me perguntares?»

Discos perdidos e uma nova gravação

«Ares do Algarve», «O picadinho da Bordeira», «Saltando à beira-mar», «Quando o Carminho dançava», são alguns dos títulos das músicas que Daniel Rato escreveu e gravou em vinil, nos anos 1960. Três discos chegaram aos dias de hoje (não têm data). Dois mostram-no muito jovem na capa, fotografado na Praia de Faro. Mas há ainda um outro, cujo paradeiro se perdeu. «Conheci um rapaz português que trabalhava na América, numa editora.

Um dia regressou e montou uma casa em Loulé onde vendia discos e cassetes. Gravou comigo um álbum em Lisboa». Daniel Rato ainda tem uma cópia, mas está inutilizada. Durante esta breve estadia, o acordeonista esteve na manhã de terça-feira, 8 de janeiro, no estúdio de Nelson Conceição a gravar dois temas originais: a valsa «Ricardino» e a polka «Leonardo». Por agora as gravações ficarão para memória futura e cópias serão oferecidas aos respectivos amigos homenageados. Mas Daniel Rato não coloca de fora a hipótese de os integrar num futuro CD de novas composições.

Festas no Algarve e Alentejo

«Uma vez fui tocar ao Alentejo. Eu devia ter uns 15 ou 16 anos. Os meus pais moravam nas hortas de Mar e Guerra, e trabalhavam ali uns alentejanos. Disseram-me: tens de ir lá tocar aonde eu moro. E fui. Pus-me no autocarro e estavam lá eles à minha espera com um burro. Puseram-me em cima dele com o acordeão e começámos a andar. Nunca mais chegávamos. Eu perguntava: Ò amigo, isso é muito longe? É que já me dói aqui o cú! Nunca mais chegávamos lá». Mas chegaram. «Era um mastro (palco) grande. Estava muita gente. As mães iam com as filhas. Antes fomos comer à casa do rapaz que me convidou. Foi o melhor peixe que comi em toda a minha vida. Era peixe de água doce. O rapaz fritou aquilo, estava tão gostoso. O que é certo é que comecei a tocar lá para as 9 horas. Quando aquilo acabou, já de madrugada, as velhotas estavam todas a dormir. Só se ouvia o ressonar. Típico do Alentejo. Nunca mais me esqueceu isso», recorda. No Algarve, «dançava-se só ao acordeão, sem conjunto nem nada». E «essa coisa dos mastros é muito parecida lá na Suécia. Acontece quando o verão começa. Todos os anos convidam-me para tocar» até porque já é conhecido em terras suecas. «Sou, sim senhor».

Fotografia: Nuno de Santos Loureiro.

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