SOS Abandono da Universidade do Algarve já recebeu 150 pedidos

Falta de alojamento, dificuldade em pagar propinas e desmotivação levam os estudantes a recorrer à linha de emergência criada este ano letivo pela Universidade do Algarve (UAlg).
Saúl Neves de Jesus e Pedro Martins.

«Sabíamos que a situação era preocupante, mas não tanto. Os dados levaram-nos a pensar numa forma urgente de intervir», começa por explicar ao «barlavento» Saúl Neves de Jesus, vice-reitor da Universidade do Algarve (UAlg). O alarme soou durante uma reunião com a Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Maria Fernanda Rollo, em abril de 2018, em Lisboa, na qual estiveram presentes todas as instituições de ensino superior, quer universitário, quer politécnico, para conhecerem os dados oficiais relativos ao abandono escolar nas várias academias.

A Universidade do Algarve encontrava-se nos primeiros lugares, a registar uma das maiores taxas de abandono do país. «E há que ter em conta que nestes dados apenas são contabilizados os alunos que se candidataram através do Concurso Nacional de Acesso», detalha.

Nesse sentido, a equipa do Reitor Paulo Águas criou o Gabinete de Apoio à Inovação Pedagógica (GAIP), com um conselho executivo, que envolve os presidentes dos vários concelhos pedagógicos. Através desse mesmo Gabinete foram criadas uma série de ações ligadas à formação de professores e ao diálogo com os estudantes.

Foi também nesse âmbito que surge o SOS Abandono, um serviço acessível por e-mail ([email protected]) a todos os alunos, caso sintam que as dificuldades que enfrentam vão colocar em risco os estudos.

«Esta plataforma surge com caráter urgente e de intervenção. Qualquer aluno que sinta, por algum motivo, problemas de relação pedagógica, avaliações ou necessidade de preparar melhor o futuro, tem agora alguém para contactar. Tudo faremos para evitar o abandono», garante o vice-reitor.

A verdade é que assim que esta linha ficou disponível, não tardaram a surgir os pedidos de ajuda. Segundo Saúl Jesus, isto aconteceu porque os Serviços Académicos também começaram a lidar com estes casos de maneira diferente. «Se o estudante tentar anular a matrícula, é-lhe pedido que nos envie um e-mail, antes de tomar a decisão definitiva, no sentido de procuramos soluções».

Fazendo cálculos e, desde o início do ano letivo 2018/2019, o SOS Abandono já soma cerca de 150 contactos. Segundo o que o vice-reitor revelou ao «barlavento», os principais motivos têm a ver com «questões financeiras, relacionadas com o pagamento das propinas, dificuldade em encontrar alojamento, incompatibilidades com o trabalho e motivos de saúde».

Quando a questão é financeira, os Serviços de Ação Social avaliam a possibilidade de atribuir uma bolsa ao aluno, mesmo que não a tenha conseguido numa primeira fase. Em relação às incompatibilidades horárias com o emprego, há a possibilidade de o estudante poder frequentar a universidade a tempo parcial, de forma a diminuir a carga horária e os custos.

Apesar da boa vontade em encontrar respostas, a tarefa complica-se, e muito, no que toca a alojar alunos. Não admira, portanto, que o maior índice de abandono escolar ocorra por parte de estudantes internacionais, que não conseguem encontrar alojamento. «Esse é um dos grandes problemas. Estamos a senti-lo de forma gritante. Houve realmente uma crise económica que fez com que a construção estagnasse e nós, por outro lado, aumentámos muito o número de estudantes estrangeiros», admite o vice-reitor.

Pedro Martins, responsável pelo GAIP, é quem gere a linha SOS Abandono. «A grande vantagem desta linha é o facto de ser informal, ou seja, os estudantes não estão a mostrar a cara, e só vão até onde quiserem ir» na exposição dos seus problemas.

«Tentamos não ser intrusivos nas questões que fazemos para que os alunos percebam que a nossa abordagem é a de querer ajudar, tentando ultrapassar a burocracia normal. Não é passar a legalidade, mas arranjar soluções dentro daquilo que é a estrutura da Universidade, onde nós podemos intervir», explica.

Para Saúl Jesus, «o e-mail tem muito a ver com a sociedade atual. As pessoas não se sentem tão expostas. Depois, são contactadas e acabam por ficar, mas já é num sentido de acolhimento e de empatia».

No entanto, em 150 pedidos de ajuda, só 10 por cento foram, de facto, solucionados. «É difícil definir exatamente o que são casos de sucesso. Numa fase inicial, consegue-se que a intervenção tenha sucesso, mas depois não temos o seguimento. Se falarmos em cerca de 10 por cento, não estamos longe da realidade», aponta. Mas os cerca de 15 ou 20 que viram melhorias, são «motivo de orgulho» para Pedro Martins.

«Umas vezes consegue-se resolver, outras não, mas pelo menos há uma tentativa. Mesmo os estudantes que não alteraram o sentido de querer desistir da universidade, ficaram com uma atitude positiva em relação à instituição, porque verificaram que há uma preocupação. E ficam receptivos a regressar, a acreditar de novo que poderão vir a conseguir concluir o curso, o para nós um aspeto muito importante», conclui o vice-reitor.

SOS vai evoluir para novas soluções

Questionado sobre o futuro da linha SOS Estudante, Saúl Neves de Jesus, vice-reitor da Universidade do Algarve (UAlg), explica que a ideia é continuar com o e-mail, mas não só. Em cooperação com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e, após investimento da academia, estão a ser realizados estágios profissionais, no âmbito da psicologia, no Gabinete de Apoio à Inovação Pedagógica, responsável pela gestão deste serviço. Isto porque «a componente psicológica é muito particular e por isso queremos intensificar a capacidade de resposta, colocando alguém com formação a trabalhar as propostas que queremos dar aos alunos».

Além disso, um dos focos principais para o próximo ano letivo será o desenvolvimento de competências transversais dos estudantes. De acordo com o vice-reitor serão lecionadas, por exemplo, através de vídeos, na plataforma online utilizada por todos os alunos (Moodle), cursos sobre gestão do tempo, desenvolvimento de qualidades pessoais e interpessoais, entre outros temas. O plano é que estes conteúdos audiovisuais possam vir a evoluir para «uma unidade curricular de opção».

Propinas baixam em 2019/2020

Fevereiro foi o mês mais gratificante para o SOS Abandono, uma vez que todas as dificuldades financeiras que os alunos apresentaram foram candidatadas ao Fundo de Apoio Social. «Muitos dos estudantes nem sabiam desta possibilidade», explica Pedro Martins, do Gabinete de Apoio à Inovação Pedagógica, responsável pela gestão deste serviço. A boa notícia é que para o próximo ano letivo 2019/2020, os estudantes de primeiro ciclo podem contar com a descida do valor da propina, que será de 871,52 euros. Neste momento, para licenciaturas, é de 989,99 euros, valor que pode ser liquidado em oito prestações. «Nós já estávamos com uma propina mais baixa que a média. Mas para quem tem dificuldades, tudo conta», admite o vice-reitor Saúl Jesus.

Falta de alojamento em Faro é o principal problema

Os alunos portugueses fizeram o grosso dos pedidos ao SOS Abandono, mas também há procura por parte de «muitos brasileiros», que de acordo com o vice-reitor Saúl Jesus, já são «mais de 1000» a frequentar os vários ciclos da oferta formativa da Universidade do Algarve (UAlg). E estão em maioria entre a comunidade de estudantes estrangeiros. Pedro Martins, responsável pelo Gabinete de Apoio à Inovação Pedagógica que responde aos alunos, confrontou-se com o caso de «uma estudante com uma filha de três anos, que se não arranjar casa rapidamente, terá de regressar ao país de origem. Não é fácil de resolver», admite. Por outro lado, «os casos que marcam mais são aqueles que têm a ver com problemas de saúde. São poucos, mas reportam-se a doenças graves e a situações em ficamos numa posição em que a única coisa que podemos oferecer são palavras de conforto e nada mais. Situações oncológicas, ou situações relacionadas com a saúde dos filhos, são as que marcam mais pelo aspeto negativo de não podermos ajudar».

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