Alameda quer marcar a renascença da alta gastronomia farense

Regionalista assumido, o novo restaurante promete democratizar a alta cozinha no coração de Faro.

Depois de ter trabalhado nos últimos seis anos no prestigiado restaurante Ocean (duas estrelas Michelin) do Vila Vita Parc, em Lagoa, onde chegou a Sous chef, o jovem farense Rui Sequeira, 26 anos, decidiu dar o passo em frente e abrir um espaço capaz de marcar a oferta da capital algarvia.

Com o apoio da esposa, Neide Monteiro, 31 anos, uma transmontana formada em medicina dentária, abriu, no dia 22 de dezembro, o Alameda Restaurante & Rooftop, que para já, apenas serve jantares.

Sobre a abertura em plena época baixa, comportamento pouco típico na região, referem, entre risos, que são «uns destemidos», embora a culpa seja dos muitos imprevistos e atrasos que o casal teve de superar ao longo dos últimos meses. No entanto, a procura tem sido muita, o que prova que «o Algarve também vive no inverno, basta todos quererem».

Rui Sequeira e a esposa Neide Monteiro.

Segundo o casal, este «era um sonho antigo». «Sempre quis ter um restaurante em Faro, na minha cidade. Trabalhei na alta gastronomia, e sempre pensei em trazer um pouco do meu conhecimento adquirido para esta terra que tanto gosto», afirma Rui Sequeira, que conta na cozinha com a ajuda de Tiago Martins para confeccionar e idealizar os pratos do menu. Já Neide assume a pasta da comunicação e da promoção nas redes sociais.

Tudo o que põem à mesa é «o mais regionalista possível», confidencia Neide. O chef confirma: «usamos ingredientes da região desde o peixe, marisco, a carne de porco, os enchidos de Monchique, as frutas e legumes. Nos vinhos trabalhamos com a Quinta João Clara, e temos gin algarvio e ainda cerveja artesanal produzida em Faro, a Algarve Rock». Por outro lado, esta filosofia compensa.

«Conseguimos alcançar a máxima qualidade e manter preços mais baixos, apostando em pequenos produtores locais».

A questão dos preços também foi determinante neste projeto. Quando trabalhava no Ocean, Rui Sequeira servia «um casal português por semana», lamentando que o titulado restaurante «fosse completamente inacessível aos nossos amigos e à nossa família».

Agora, pretende fazer o oposto. O objetivo é tornar o Alameda Restaurante & Rooftop «um espaço para todos, onde reina a informalidade e o espírito familiar. Os pretensiosismos ficam de fora. Quem sair do trabalho e quiser vir até cá, está à vontade. Não tem de se vestir de forma diferente. O nosso objetivo é descomplicar, é fazer pessoas felizes no nosso espaço», garante Neide.

«O que nos tira o sono é a felicidade de quem nos visita e também da nossa equipa, porque isso vai contagiar os clientes. Todos são importantes e têm o seu papel», confirma Rui Sequeira.
«Faro tem muitos restaurantes, e alguns são de enorme qualidade. Mas são muito fechados a um tema, a um tipo de cozinha», compara o chef.

O brunch do Alameda tem sido um sucesso.

«Aqui temos pratos diferentes, como por exemplo as bolachas crocantes recheadas de cataplana. A nossa ideia é que as pessoas peçam vários pratos da carta para provar um pouco de tudo. E temos opções para vegetarianos, para crianças, queremos ser o mais inclusivos possível».

Um dos pratos que não podia faltar, verdadeira essência gastronómica do Algarve, é o Xarém. «O nosso é feito à base de berbigão, farinha de milho com moagem grossa, coentros, limão e toucinho – tudo ingredientes humildes, que são trabalhados de forma diferente, e em conjunto fazem um prato bem cremoso e típico».

«No Alameda queremos servir a cidade sem prazos», mas Rui Sequeira confessa que nada o deixará mais feliz que «ter o restaurante cheio de algarvios e de farenses». Tudo com uma pitada grande de amor, porque «se não houver paixão na cozinha, nada disto faz sentido».

Histórias e memórias de Faro

Tal como o nome indica, além do restaurante vai ainda existir um rooftop, «parcialmente coberto, de forma a funcionar durante todo o ano». Segundo o chef Rui Sequeira terá «uma linha diferente, com refeições muito ligeiras, fazendo também uso da nossa carta de vinhos, e de sumos naturais e smoothies saudáveis».

Entusiasmada com esta futura faceta, Neide desvenda ainda que a aposta será «na sustentabilidade e na amizade ao ambiente, abolindo ao máximo o plástico e utilizando palhinhas reutilizáveis. Teremos também uma pequena loja de zero desperdício».

Granizado de Espumante e Hibiscus.

Resta dizer que o nome da casa é uma homenagem à Alameda João de Deus, mesmo ali ao lado, local que no final do século XIX foi o centro lúdico de Faro, «um jardim de memórias, palco e testemunho de conversas, amores, confidências e outras tantas histórias passadas que marcaram a vida dos farenses», descreve Neide. Em breve, no acesso ao rooftop, no interior do edifício, será possível ver uma parte da Cerca Seiscentista da cidade. «Acreditamos que será um desafio dar o devido tributo a esta zona histórica, mas faremos por estar à altura. Que venham mais mil gargalhadas e histórias por contar à volta das nossas mesas».

Um projeto onde todos importam

Apaixonado desde cedo pela culinária e pela gastronomia, Rui Sequeira formou-se na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, tendo estagiado na Alemanha e em França. Divide as tarefas de gestão com a esposa Neide Monteiro, mas, segundo fazem questão de sublinhar, o projeto só faz sentido no coletivo. «Há o Tiago Martins, a Dona Maria, a Ana Cláudia, a Maria Bravo e o Zé Reis. São os pilares desta casa», diz Neide. «Um restaurante não se faz só do chef, mas sim de todos. Para o bem e para o mal, tudo o que colocamos neste espaço é a nossa essência. Muitas vezes, na cozinha, começamos a trabalhar às 10h00 para só sair após a meia noite», confirma o Rui Sequeira. Questionados sobre para quando o serviço de almoços, remetem o objetivo para mais tarde. «Por enquanto é humanamente impossível manter a qualidade que os clientes merecem. Quando a máquina estiver mais oleada, veremos».

No ínicio foi o supperclub

A abertura de portas estava agendada para junho, mas houve atrasos e inesperados que acabaram por adiar a inauguração para o final do ano passado. Entretanto, o casal não baixou os braços e criou um conceito inovador e único em Faro – um supperclub (uma espécie de clube social) chamado Oitavo Frente.

Trocando por bom português, a ideia conceito é servir refeições numa casa particular. E assim foi. Todos os fins de semana serviram refeições completas no seu lar, a troco de 20 euros, proporcionando uma experiência gastronómica diversa e acolhedora. O feedback foi «excelente» e a única queixa que registavam, por vezes, era «de alguma falta de mais espaço, normal por não estarmos num restaurante convencional». Este projeto permitiu ainda «testar muitas das receitas que figuram agora na carta do restaurante», revela Rui Sequeira ao «barlavento».

Bolacha Crocante com cataplana.

Neide explica que todo «o planeamento começava nos dois ou três dias antes do jantar». O sucesso foi tão grande que «inicialmente fazíamos apenas um por semana, e quando demos por nós, estávamos a fazer dois e três, sempre esgotados».

Segundo conta, o supperclub foi «uma experiência pessoal e social estrondosa. Conhecemos muitas pessoas diferentes, que, na maioria das vezes, não se conheciam entre si. Ao início começavam todos muito calados, mas após uns minutos já estavam todos a trocar histórias e experiências», uma filosofia à qual pretendem dar continuidade.

Menu de degustação para os mais aventureiros

Os mais corajosos, dispostos a colocar o ónus da escolha nas mãos do chef, têm ao dispor um menu de degustação «com cinco momentos» por 37 euros. Rui Sequeira desvenda que há iguarias como «o nosso pão caseiro, broa de milho, manteiga dos Açores e azeite algarvio, bem como uma ostra da Ria Formosa com ponzu de eucalipto».

O repasto prossegue com «uma bolinha crocante de barriga de porco e enchidos de Monchique», sendo a entrada garantida pelo xarém algarvio. Como prato principal, «é possível escolher entre o bacalhau, de sabores mais alentejanos, e o borrego com sabores do sul de África». Para o remate final, a equipa do Alameda prepara uma sobremesa composta por «um bolo de figo seco e medronho, com granizado de lúcia-lima, espuma de amarguinha e crumble de amêndoa».

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