2019 promete vir a ser o ano da náutica no Algarve

Região acolhe várias provas internacionais de alto nível ao longo dos próximos meses, e é também destino de treinos para as olimpíadas de 2020.
GC32 Lagos Cup.

Os números falam por si. Desde o início da época, a 25 de outubro e até ao final de março deste ano, terão passado pelo Centro de treinos de alto rendimento «Vilamoura Sailing» mais de 340 atletas (216 masculinos e 124 femininos) e 83 técnicos (56 masculinos e 27 femininos) de 38 países. A infraestrutura, dinamizado pela Companhia Náutica, tem em mãos, até 2012, 10 provas de nível mundial (três por ano) em 11 classes de vela, sete das quais olímpicas (laser standard, laser radial, 49er, 49erFX, Nacra17, RSX e 470).

Em termos práticos, isto representará 306 mil horas de treino de mar para os velejadores e respetivas equipas técnicas, vindos de todos os continentes.

A região sai a ganhar, contabilizando uma média de 63450 dormidas na hotelaria, e um impacto direto na economia de 7,6 milhões de euros, segundo as contas avançadas pelo diretor Nuno Reis.

«O que se está a passar aqui, a agregação de tantos atletas de nível olímpico, num espaço de tempo tão prolongado não acontece em mais lado nenhum do mundo. Neste momento, somos a referência mundial da vela» de alta competição, explica o responsável. Além disto, «até 2021 teremos aqui 10 provas de nível mundial», sendo a primeira, o Campeonato do Mundo de 420, que decorrerá nos primeiros dias de julho de 2019.

Em fevereiro (dias 13 a 17) terminará a segunda fase de uma nova prova, o «Portugal Grand Prix», disputada por mais de uma centena de embarcações das classes olímpicas Nacra 17 e 49er, as novas gerações de barcos à vela. A adesão de equipas foi tanta que surpreendeu a organização.

«As condições onde decorrerão Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, são muito similares às nossas, embora, aqui estejamos um pouco mais confortáveis durante o inverno, com temperaturas que rondam os 20º. Outra questão apontada pelos atletas que nos procuram para treinar é a proximidade da rampa que dá acesso à água. São apenas cinco minutos de distância até ao mar. Isso faz com que as equipas possam ter duas a três sessões de treino diárias».

No futuro próximo, o «Vilamoura Sailing» também tem projetos para a náutica de lazer. «Vamos trabalhar no turismo acessível, não direcionado para a atividade de competição, para pessoas com mobilidade reduzida, seja pela sua condição física que, pela idade, ou por outro tipo de limitações, possam ter connosco um contacto direto com a vela e o oceano», conclui Nuno Reis.

Barcos «voadores» rumam a Lagos

Depois de ter acolhido no verão 2018 uma das etapas da GC32 Racing Tour, Lagos receberá este ano a primeira visita a Portugal de uma competição internacional da classe Moth, barcos monocasco voadores de alto desempenho. Trata-se do Campeonato Europeu, a decorrer entre 29 de maio de 2 de junho.

Trata-se de «uma tecnologia recente que começou com a America’s Cup e que está agora a penetrar na náutica comercial. Em Lagos, temos as condições perfeitas para esse tipo de navegação.
Estamos a posicionar-nos a nível mundial como o melhor palco para eventos da classe Moth, uma das mais rápidas e tecnicamente exigentes da vela moderna. Temos ventos constantes do quadrante norte durante grande parte do ano, o que é importante. Por outro lado, como o vento é offshore, a baía de Lagos é muito protegida e não tem praticamente ondulação», explica ao «barlavento» Martinho Fortunato, administrador da Marina de Lagos. Nesta prova são esperados 110 velejadores profissionais e amadores. Em cima da mesa, está ainda um desafio.

A Marina de Lagos foi convidada a organizar o Campeonato do Mundo de GC32, no final de junho. Mas para isso, terá que criar condições para alojar as embarcações, no espaço hoje ocupado pelo porto de pesca.

Classe Moth

«O projeto está a ser trabalhado há mais de uma década. Temos uma pressão muito grande para acolher embarcações de maior dimensão, de 15 metros para cima. A nossa ideia é ampliar a capacidade para mais 100 lugares e construir um novo hotel, inovador, com um tema ligado à sustentabilidade dos oceanos, de baixa densidade e pouca volumetria».

O prazo é apertado, mas Fortunato acredita que até ao final do primeiro semestre de 2019, «vamos conseguir executar o essencial para acolher esses 16 a 17 barcos da classe GC32, mais as suas embarcações de apoio. Se não conseguirmos avançar rapidamente, vamos perder uma oportunidade de ouro» para a região.

Em relação à estadia média, «diria que há dois tipos de contratos populares. O anual e o de nove meses de inverno, de 15 de setembro a 15 de junho. São por norma pessoas reformadas que escolhem passar o inverno connosco. Todos os outros, diria que a estadia média ronda uma semana. Acolhemos mais barcos à vela (80 por cento) do que a motor. Os que passam por aqui andam em longas distâncias. Somos uma marina de verdadeiros marinheiros», reforça. «O mercado do Reino Unido é o dominante, mas temos aqui 30 nacionalidades diferentes. Isto prova que as marinas contribuem muito para a dispersão dos mercados emissores de turistas».

 

Campeonato «Algarve Sailing Cup» desafia nautas europeus

Outra novidade na região é a prova «Algarve Sailing Cup», um projeto privado organizado em parceria Ginásio Clube de Faro (GCNF), as Marinas de Lagos, Albufeira e o Porto de Recreio de Olhão e os Clubes de Vela de Tavira e Lagos, com o apoio de várias entidades e empresas, sendo provavelmente o maior circuito de regatas de cruzeiros da Europa.

As primeiras três regatas tiveram lugar no último trimestre de 2018, ao ritmo de uma por mês. Este ano, estão marcadas mais sete. As datas são dia 27 de janeiro (Regata Aniversário GCNF); dia 24 de março (Regata de Primavera); dia 25 de abril (Regata Liberdade); dia 19 de maio (Regata Heitor Batalha de Almeida); dias 27 a 30 de junho (Lagos CUP); dias 18 a 20 de julho (Volta ao Algarve); dias 20 e 22 de setembro (Classic Weekend Albufeira). Não há taxa de inscrição e podem participar todos os armadores de embarcações de cruzeiro à vela, nas classes ORC e PLATU.

«É um troféu para o qual estamos a criar todas as condições para que quem vem de fora de Portugal, da mesma forma como visita o Algarve para jogar golfe, possa vir participar uma regata. Temos capacidade para alugar um barco, arranjar hotel, fornecer o pacote completo. Assim, os marinheiros podem vir velejar connosco numa altura em que isso não é possível nos seus países de origem. Basta trazerem as suas tripulações», diz Hugo Batalha de Almeida, CEO do Trofeu.

Martinho Fortunato, administrador da Marina de Lagos, corrobora. «A Algarve Sailing CUP é uma iniciativa que apoiámos desde o início. Pensamos que existe um espaço vazio em termos de competições regulares que pode ser ocupado por estas regatas. O formato escolhido, os vários locais por onde passa, o próprio troféu e toda a mística que está a ser criada, acho que será um evento fantástico. Este ano é o primeiro, mas espero que perdure por muitos mais, a bem da vela e das pessoas que gostam de regatear», sublinhou.

Por outro lado, o Ginásio Clube Naval de Faro continua a apostar na Volta ao Algarve, que este ano vai para a sua 27º edição. «É o expoente máximo da vela que faz a ligação entre os vários concelhos vocacionados para a náutica de recreio, na qual participam uma média de 200 velejadores», contabiliza o presidente João Godinho Marques. Este ano, a prova será de 18 a 20 de julho.

RTA com novos projetos

João Fernandes, presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA) e da Associação de Turismo no Algarve (ATA), está a acompanhar a dinâmica da vela ligeira desportiva. «Basta ver a procura para estágios avançados. Em 2018 recebemos uma etapa campeonato do GC32, e este ano vamos ter uma competição europeia de Moth, um nova modalidade com soluções mais radicais. O Algarve está a acompanhar bem essas tendências», diz ao «barlavento». Portimão prepara-se para ser Capital Europeia do Desporto e na agenda estão «provas de motonáutica e de vários outros desportos aquáticos», sublinha.

No prelo, o presidente da RTA revela que esta entidade «aderiu ao projeto europeu Odyssea Blue Heritage 2020 que envolve um retrato, do ponto de vista do nauta, de toda a costa algarvia. Será possível, através de pequenos vídeos, conhecer todo o património histórico e natural», tal como é observável a bordo.

Este é um projeto aprovado e cofinanciado pelo Programa INTERREG V-A Espanha/Portugal (POCTEP) 2014-2020. Dele fazem parte, nesta fase, os municípios de Lagos, Vila do Bispo e Faro, a Região de Turismo do Algarve (parceiros portugueses) e a Diputación de Huelva e Câmara de Comercio de Sevilha (parceiros espanhóis).

Em paralelo, «vamos concluir até ao final de 2019, o primeiro guia náutico da região, que identifica quais as infraestruturas e os pontos de interesse. Por exemplo, diz aos nautas que há um produtor de vinho» próximo da marina onde atracar o barco entre outros locais que pode (e deve) visitar.

Fernandes sublinha ainda que no Algarve «temos pessoas muito exigentes com a qualidade do serviço que se presta neste sector, que são também muito conhecedoras. Por exemplo, o José Massapina, diretor da Marina de Albufeira, é vice-presidente da Classe 420 a nível mundial. E não só. No fundo, fazemos jus aquilo que é a história do Algarve com a sua relação com o mar, e no futuro queremos que haja uma oportunidade mais vasta».

Um investidor alemão na Ria Formosa

Ludwig Schlosser, 64 anos, de Munique, é o presidente da Verbos do Cais SA. Em julho de 2017, esta empresa assinou um contrato para requalificar, modernizar e explorar o porto de recreio de Olhão, por um período de 35 anos, num investimento de 3,35 milhões de euros. A funcionar há alguns anos em instalações provisórias, a firma vai expandir os atuais 299 lugares de amarração para um total de 500 junto à zona ribeirinha. Em fevereiro de 2019, «vamos começar as construir todas as facilidades para os marinheiros, desde as lojas aos balneários», revela Schlosser.

Deverá estar pronto para a inauguração no início do verão de 2020. «Olhão e a Ria Formosa já precisavam deste investimento. Vamos fazer um soft development, que respeita a natureza, com um foco muito forte na questão ambiental», garante Schlosser. Este alemão tem uma casa no concelho de Olhão, onde, nos últimos 20 anos, passa uma grande parte do seu tempo com a família. Um dos seus hobbies é jogar golfe e navegar o barco «Life’s Short». «Adoro a Ria Formosa. É realmente um diamante. Conheço muitos outros locais na Europa, e, na minha experiência, posso dizer que é um dos melhores para se navegar. Há as ilhas-barreira e muitos ancoradouros naturais onde é possível passar um dia agradável, ou até umas férias».

Schlosser reconhece que «a maioria dos velejadores e marinheiros de recreio alemães não conhecem esta zona de Portugal. Conhecem talvez melhor as Ilhas Baleares e a costa de Espanha e de Itália. Mas devemos dar-lhes conhecimento que o Algarve é um destino náutico fantástico», sublinha. Em relação ao investimento em Olhão, «o objetivo não é o lucro rápido, mas sim a sustentabilidade a longo prazo, num projeto que possa ser bom para vários players».

Marina de Lagos aposta em alojamento nos iates

Questionado sobre o futuro deste nicho, Fortunato acredita que «as novas gerações, a nível mundial, tendem a não ter posse de bens. Por causa das plataformas digitais e da informação disponível, a tendência não é propriedade, mas o usufruto, a experiência. Por isso vamos apostar no equivalente náutico ao alojamento airbnb, que neste caso se chama beds on board». Uma oferta para pessoas que alugam uma cama num barco, sem a perspetiva de sair da marina. «Estamos a trabalhar num regulamento nosso para que mais embarcações possam entrar no negócio de forma organizada. Em termos de preço, não será muito diferente da hotelaria tradicional».

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