Tallon inclui Olhão em projeto inovador contra obesidade juvenil

Aplicação digital «obesidata» quer ajudar jovens em idade escolar a perder peso. A ideia é colocar um «nutricionista no bolso de cada adolescente», disponível sempre que queiram conselhos personalizados sobre nutrição.

O conhecido médico José Maria Tallon está a lançar em cinco escolas secundárias (e uma dedicada ao ensino tecnico-profissional), de norte a sul do país, a plataforma digital «obesidata» com o objetivo de ajudar a combater a obesidade juvenil. No Algarve, participa na experiência a Escola Secundária de Olhão, Francisco Fernandes Lopes.

A iniciativa começou no início do ano letivo e conta com a colaboração e envolvimento de 100 professores, 180 turmas e 4521 alunos. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e a Universidade da Beira Interior assinam a conceção e a base científica.

«Chegou o momento em que sinto que tenho de partilhar o meu conhecimento e de retribuir à sociedade portuguesa o muito que este país me deu. Não faço mais do que a minha obrigação», referiu em entrevista ao «barlavento» o clínico que acumula 300 mil pacientes, 1 milhão e 200 mil consultas, e 31 anos de experiência a combater a obesidade.

Questionado sobre os custos desta iniciativa, responde que se trata de um projeto responsabilidade social voluntário e financiado pela Clínica Tallon. «Felizmente, temos dinheiro para pagar».

A ideia surgiu em 2006, a propósito da sua tese de mestrado, na qual concluiu que a melhor forma de estimular uma melhor alimentação junto dos jovens seria através de uma «plataforma que lhes permitisse ter acesso imediato à informação. Alguns anos depois decidi avançar e fazer uma cruzada pessoal na luta contra o excesso de peso. Para mim, essa luta começa por volta dos 15 aos 18 anos, quando já podemos perceber qual tipo de metabolismo» de cada adolescente.

Tallon acredita não vale a pena impor nada. Uma vez informados sobre a existência deste software, cabe a cada jovem decidir aceder, ou não, à ferramenta através da internet. É simples. Basta fazer um registo (os dados são confidenciais) e responder a um questionário sobre hábitos de vida e estatura física. Em troca, a aplicação sugere sugestões para ajustar a alimentação.

«Através da idade, altura e exercício físico conseguimos saber as necessidades calóricas teóricas. Por vezes encontramos miúdos que comem muito mais do que o que deviam, e são magros. E outros que comem menos do que o deveriam, e são gordos. A partir daqui vamos selecionar esses jovens mais ‘extremos’ e vamos fazer um estudo de metabolismo basal, um género de teste de esforço», explica. E exemplifica com um caso prático: «conheço um jovem com uma taxa de metabolismo basal de 40 por cento. Ninguém pensaria que alguém com 111 quilogramas e 29 anos, ingere apenas 900 calorias diárias. Isto são apenas seis maçãs. Estes metabolismos queimam muito abaixo do que deveriam, e na maior parte das vezes, até são miúdos que são estereotipados como comilões ou preguiçosos, e é um engano. São os que mais desporto praticam e menos comem! São influenciados pelos genes, mas ainda assim, temos margem para atuar. E eu quero ser a primeira pessoa no mundo a aplicar na clínica a relação entre genes, metabolismo e obesidade», sublinhou.

A Organização Mundial de Saúde prevê que na próxima década, 80 por cento da população mundial irá sofrer de sobrepeso. «Para nós é um número alarmante pelas consequências individuais, sociais e até económicas que terá para o Sistema Nacional de Saúde. Sinto que é urgente fazer algo», na prevenção de doenças como a hipertensão, diabetes, cancro do cólon, e complicações cardiovasculares.

Para já estão envolvidos no projeto estudantes do norte (Santo Tirso), centro (Tomar), região de Lisboa (Palmela), Alentejo (Portalegre) e Algarve (Olhão). «Quis fazer este projeto-piloto em escolas públicas, com diferentes classes sociais e até miúdos com algumas dificuldades porque queremos ter a noção do país real» explicou.

Do universo, os alunos de Olhão são os que registam os menores graus de obesidade, o que poderá ter a ver com o hábito «de consumir mais peixe na dieta, de o clima ser mais equilibrado e as pessoas passarem mais tempo ao ar livre ou então, de a escola ter menus mais equilibrados», sugeriu.

No final deste ano, Tallon tem a intenção de apresentar os resultados do projeto ao Ministério da Educação. E já no próximo ano, a ideia é disponibilizar esta plataforma online de forma totalmente gratuita para todas as escolas e jovens do país.

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