Menopausa e a qualidade de vida da mulher

Ana Casquilho é assistente hospitalar graduada de Ginecologia e Obstetrícia, do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), a trabalhar no polo de Faro desde o início da especialidade em 1996, e como especialista desde 1992. A médica falou com o «barlavento» a propósito do Dia Mundial da Menopausa, celebrado a 18 de outubro.

barlavento – Gostaria de perguntar, numa perspetiva pessoal, que significado atribui a esta data e se faz sentido sensibilizar para a Menopausa?
Ana Casquilho –
Desde o início da minha vida profissional, o tema da menopausa foi sempre um dos que mais me atraiu, talvez por julgar ser um dos mais abandonados, naquela altura. A medicina (e a sociedade) tinha muita preocupação pelas outras fases da vida da mulher, sobretudo, durante a fase reprodutiva, com a introdução dos meios de contraceção seguros e eficazes. Contudo, chegando a menopausa, havia uma oferta insuficiente no mercado para melhorar a qualidade de vida da mulher. Nos anos seguintes, quando os epidemiologistas começaram a alertar para o aumento da esperança média de vida da população, e ainda mais das mulheres, estas começaram a ser uma faixa etária importante e reivindicativa. Afinal, são, em média, mais de 30 anos de vida que a mulher passa nesta fase. Quando a preocupação com a qualidade de vida da mulher na menopausa começou a ganhar destaque, surgiram múltiplos tratamentos para combater os sintomas associados a esta fase, de modo a manter estas mulheres em boa forma. Os tratamentos principais foram as hormonas ditas femininas em diversos esquemas, posologias e associações, variando tanto os estrogénios como os progestativos, duas hormonas habitualmente produzidas pelos ovários em quantidades maioritárias até à menopausa, e que diminuem drasticamente com a mesma.

Que mais evoluiu?
Há pouco mais de 10 anos, a terapêutica hormonal da menopausa (THM) perdeu muita adesão, na sequência da divulgação de um estudo americano, que apresentou conclusões precipitadas e incompletas sobre os efeitos secundários da terapêutica usada nos Estados Unidos, que deferia muito do que fazíamos na Europa. Muitas mulheres suspenderam o seu tratamento e, nos anos seguintes, constatou-se que nada tinha melhorado, antes pelo contrário. Hoje, estamos, contudo, numa fase de «renascimento das cinzas», a reabilitar a Terapêutica Hormonal da Menopausa como mais uma arma, segura e eficaz, para tratar os sintomas vasomotores das mulheres na menopausa. É, por isso, importante que a população feminina ganhe novamente confiança neste tipo de tratamento.

A menopausa surge, em média, aos 51 anos de idade. Com o estilo de vida sedentário e de elevado stress em vivemos hoje, há alterações?
Embora a idade média da menopausa não tenha sofrido alterações com a melhoria da qualidade de vida, sabemos hoje que certos hábitos nefastos, como o tabagismo, antecipam a idade da menopausa em cerca de dois anos e agravam a perda de massa óssea. Por outro lado, uma atividade física moderada e um aporte cálcico adequado, diminuem a perda de massa óssea, melhorando uma das mais graves consequências da menopausa a longo prazo, que é a osteoporose.

A longevidade da mulher tem aumentado progressivamente para 82,6 anos. Na prática, como se pode ter qualidade de vida após menopausa?
A diminuição do impacto dos sintomas precoces e tardios da menopausa tem muita importância nas sociedades ocidentais porque assim se conseguem poupar muitos recursos e manter estas mulheres, ainda em fase ativa laboral, saudáveis. A realidade algarvia não é diferente do resto do país.

Pode explicar melhor o que é a Terapêutica Hormonal (TH)? E porquê os receios de efeitos secundários? Que outros tratamentos podem aliviar os sintomas da menopausa?
A Terapêutica Hormonal da Menopausa (THM) consiste na toma de medicamentos que contêm hormonas, habitualmente produzidas nos ovários, ou associações destas com outros produtos sinérgicos. Podem ser administrados nos primeiros anos, após a ultima menstruação, e a sua recomendação básica é de cinco anos. No entanto, é possível manter com segurança por mais anos.
Tal como em todos os medicamentos, há contraindicações e pode haver efeitos secundários. Na tentativa de minimizar os riscos e maximizar os efeitos positivos, têm sido desenvolvidas novas associações de fármacos de modo a adequar os tratamentos ao perfil das utilizadoras. O efeito mais temido, por exemplo, é o desenvolvimento de cancro da mama. Porém, sabemos hoje que o impacto sobre a mama não é assim tão grande como se dizia e hoje dispomos de fármacos em que não usamos progestativos (este aparentemente é o que está implicado no cancro mamário) e podemos dar o estrogénio (que é o melhor a tratar os afrontamentos) e associar outras moléculas que também protegem o osso. Existem também vários outros produtos, além das hormonas, para tratar os sintomas vasomotores (calores/fogachos, afrontamentos, suores noturnos), as alterações de humor, a perda de massa óssea, a atrofia génito-urinária, separadamente, mas com muito menor eficácia. A terapêutica hormonal tem esta vantagem: podemos tratar todos os sintomas ao mesmo tempo. As pacientes devem questionar os seus médicos assistentes sobre o que podem fazer para minimizar os efeitos da falta de estrogénios que se produz na menopausa e, assim, passar por esta fase da vida da forma mais confortável e tranquila possível.

Como é que está a saúde da Mulher no Algarve?
No Algarve há muito ainda por fazer. Eu diria até que já estivemos melhor do que agora, porque já tivemos no Hospital uma consulta de menopausa (por mim efetuada em colaboração com outra colega), que encerrou por falta de recursos humanos noutros setores. A gritante falta de médicos no sector público no Algarve dificulta que algumas áreas sejam desenvolvidas como é desejável, tal como é o caso da menopausa. Continuaremos, apesar de tudo, a bater-nos em prol da saúde da mulher na menopausa.

Categorias
Saúde


Relacionado com: