Médicos não querem trabalhar nos hospitais públicos do Algarve

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos acompanhado por Ulisses Brito.

Até final de agosto, nenhum médico se candidatou para trabalhar nos hospitais públicos do Algarve, ao abrigo do regime especial de mobilidade especial, segundo revelou aos jornalistas Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos.

O responsável visitou a unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) na manhã de terça-feira, 28 de agosto, e fez um diagnóstico desolador. «O Algarve é uma região muito importante, porque é a imagem do nosso país lá fora. É uma região que deixa uma imagem do que o nosso país tem de bom e de mau. Por isso, é uma prioridade que o governo, de facto invista mais no Algarve, e que tenha em atenção aquilo que é a capacidade de resposta que o Serviço Nacional de Saúde tem de dar».

Na perspetiva do bastonário, a fraca atratividade justifica-se pela situação de carência de meios humanos que coloca uma «pressão elevadíssima» aos médicos do CHUA. «Os internos que vêm para o Algarve, ou ficam na região a trabalhar no privado, ou ao final de um ano acabam por ir embora. Com este elevado nível de pressão é muito difícil conseguir fixar médicos na região», avisou.

Por outro lado, Guimarães pediu ao conselho de administração do CHUA para envolver mais estes profissionais «nas decisões que têm impacto na capacidade clínica». O bastonário precisou de uma cábula para enumerar as deficiências que encontrou. «No serviço de urgências, já foram gastos 3 milhões de euros, no primeiro semestre do ano em contratação de serviços externos através de empresas privadas. O bloco de partos tem deficiências que foram realçadas pelo colégio de obstétrica e ginecologia da Ordem. Faltam recursos humanos na ginecologia obstetrícia, na medicina interna, na otorrinolaringologia, na oftalmologia e na anestesiologia que condiciona de forma brutal aquilo que é o movimento cirúrgico do hospital. A pediatria tem deficiências significativas, bem como a dermatologia e a ortopedia, que obriga a transferir para Lisboa doentes que poderiam facilmente ser cá tratados».

Numa região que, ainda assim, tem tido boas taxas de natalidade em comparação com a média nacional, «a neonatologia está numa situação crítica, o que tem implicações na qualidade assistencial em contexto do bloco de partos. Temos apenas dois anatomopatologistas no Algarve, o que é urgente resolver», contabilizou. Há ainda «deficiências na hematologia e urologia. A cirurgia pediátrica é urgente para o Algarve. Não é aceitável que as crianças que precisem de ser tratadas em contexto de cirurgia de urgência ou programada tenham de fazer 300 quilómetros até Lisboa. É fundamental que o Ministério da Saúde tenha uma atenção especial em relação a esta situação». Para terminar, «tive conhecimento que não temos radiologista em presença física a partir das 21 horas. Esta é uma situação grave, porque obriga os doentes, que poderiam ser tratados durante a noite, a ter que esperar até ao dia seguinte, quando a sua situação poderia ser facilmente resolvida com uma ecografia. Um hospital como este, considerado central, com uma urgência polivalente tem de ter radiologistas em permanência. Deveríamos estar a fazer medicina de acordo com as boas práticas atuais, mas para isso são precisos meios», lamentou.

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