«Há cada vez maior sensibilidade para as doenças autoimunes»

O médico Carlos Carneiro, do grupo HPA Saúde, tem vindo a posicionar o Algarve com uma das consultas de doenças autoimunes com maior expressão no país. Em entrevista ao «barlavento» explica que estas afetam cerca de cinco por cento da população.

barlavento: O que são doenças autoimunes?
Carlos Carneiro:
Costumo dizer que só se diagnostica aquilo que se conhece. Até há uns anos para cá, pouco se falava nas doenças autoimunes. O que se sabia era diminuto. Existem mais de uma centena. Nalgumas patologias, é muito difícil perceber quais os sintomas. Muita vezes, pela sua inespecificidade não conseguimos perceber qual a origem. Se fizermos uma fratura num braço, rapidamente percebemos o que aconteceu e há um determinado tratamento para isso. Mas quando temos uma doença autoimune, e vemos, por exemplo, aftas ou simplesmente temos a boca seca ou os olhos secos, são sintomas que devem servir-nos de alerta que poderá existir algo por detrás, responsável por isso. Os doentes não ficam surpreendidos pelo diagnóstico em si, mas pelos sintomas que tinham e que de alguma forma foram sendo desvalorizados e não eram apenas do seu «imaginário».

Estas doenças têm uma grande expressão na população?
Sim. Neste momento, temos cinco por cento da população com uma doença autoimune que muitas vezes é subdiagnosticada.

Qual é a mais frequente?
A que aparece mais nas nossas consultas é a artrite reumatóide. É sem dúvida a que tem maior expressão. As outras têm menor incidência e prevalência. Não sabemos se é por serem subdiagnosticadas. E cerca de 50 por cento dos nossos doentes têm patologia osteoarticular.

Isso manifesta-se em que fases da vida?
Dependendo das patologias, têm diferentes formas de ação e de incidência. O lúpus e a artrite reumatóide acontecem mais nas mulheres que nos homens. Também temos artrites reumatóides juvenis, que têm a sua expressão e que devem ser abordadas, diagnosticadas e tratadas logo de início.

Autoimunes significa que não têm cura, certo?
Quando dizemos que são autoimunes, por definição, quer dizer que atacam o próprio organismo. Atacam-se a elas próprias. São doenças de índole crónico. Sabemos que de alguma forma não vão deixar de existir. É muito importante que as possamos monitorizar e antecipar, para que não haja agudizações. Hoje, os meios complementares de diagnóstico sao cada vez mais específicos e vieram trazer mais-valias na abordagem a estas doenças, sobretudo, no tratamento e seguimento dos doentes.

Uma das mais conhecidas é a doença celíaca, em que se deve eliminar o glúten da alimentação, certo?
É importante antes de mais que o diagnóstico seja feito não estando o indivíduo sob dieta isenta de glúten ou caso contrário vai estar a influenciar os resultados dos exames, não obtendo resultados conclusivos. Atualmente o único tratamento aceite consiste numa dieta isenta em glúten, no entanto esta deve ser rigorosa saudável e equilibrada não devendo os alimentos que contem glúten ser eliminados ma sim substituídos por alternativas pelo que é primordial o papel dos nutricionistas na elaboração das dietas. Esta dieta nem sempre é fácil, sendo geralmente dispendiosa e dificultada pela variedade reduzida de opções. Com o alcançar da ciência, novos horizontes têm sido abertos sendo que as hipóteses mais atuais serão as vacinas e os comprimidos (antagonistas dos receptores da zonulina)que permitem que o celíaco pudesse ingerir glúten sem uma resposta negativa do seu organismo. Por último, o avanço da ciência abriu novas hipóteses terapêuticas tais como a desintoxicação da gliadina e a realização de enzimas especiais que possam bloquear o local da adesão das moléculas nocivas.

E em relação à psoríase?
A psoríase é uma doença crónica da pele de natureza autoimune, é bastante comum e não contagiosa e deve ser seguida pela dermatologia, pela afeção da pele. Uma forma incapacitante da psoríase é aquela que afeta as articulações e que ocorre em cerca de 10 por cento dos doentes, provocando dor e deformação nas articulações das mãos, pés e membros sendo seguidas também por nos em conjunto com a Dermatologia devido a sua envolvências. Existem várias medidas disponíveis para o controlo da doença das quais podem ser divididas em farmacológicas e não-farmacológicas. No fundo, contribuem para a inativação da doença, com uso de anti-inflamatórios, imunospressores, ou se houver uma elevada atividade da doença ou falência terapêutica instituída podemos dar inicio à terapia biotecnológica (ver caixa).

Pode deixar um conselho aos leitores?
Sim. Existem consultas de doenças autoimunes em todo o país, em várias unidades hospitalares. Aqui no Algarve, além do HPA, temos nos hospitais de Portimão e de Faro. É muito importante dar a conhecer que existe esta resposta, tanto pública, como privada, onde as pessoas se podem dirigir. Muitas destas doenças acabam por ter uma papel hereditário e genético associado. Mas não quer dizer que se os pais têm uma artrite reumatóide, os seus filhos irão desenvolvê-la, no entanto existe uma relação de passagem. As gerações seguintes de um doente com patologia autoimune poderão vir a desenvolver alguma componente, mesmo que não seja a mesma doença. Por outro lado, é importante o papel dos cuidados de saúde primários na sinalização, pois são os nossos parceiros no diagnóstico precoce e no seguimento concomitante dos doentes. É muito importante a multidisciplinaridade no tratamento.

Terapia biotecnológica: uma nova esperança ao fim da linha

Quando os tratamentos convencionais parecem não resultar, a medicina moderna tem uma resposta que poderá ajudar no tratamento de algumas doenças autoimunes. O médico Carlos Carneiro explica o âmbito das chamadas terapias biotecnológicas.
«Digamos que, no fundo, são medidas que podemos adotar quando existe elevada atividade da doença associada a refratariedade ou falência da terapêutica médica, que por algum motivo, não resulta, ou se, por outro lado, os doentes mostram algum tipo de intolerância à terapêutica farmacológica previamente instituída».

O clínico sublinha que «não é uma primeira escolha. Estas são terapêuticas de última linha, o que pressupõe que devemos, em primeiro lugar, dar uma resposta inicial com as terapias que estão indicadas», sublinha.

Na avaliação do caso, «vamos subindo vários degraus, de acordo com os sintomas e as respostas dos doentes, que são monitorizadas por escalas parametrizadas, e que fazem parte das nossas guidelines e normas de orientação das boas práticas. Se o doente se mantém muito sintomático e se mantém a atividade da doença, nós tentamos dar o passo seguinte», explica.

A terapia biotecnológica «vai fazer com que a atividade da doença seja diminuída pela ação dos anticorpos. Temos vários, disponíveis como por exemplo os anti-TNFs, interleucinas, inibidores de jak, que são classes farmacêuticas especificas, que de acordo com a sua própria função, são usadas para determinadas patologias» autoimunes.

Estes medicamentos «devem ser extremamente monitorizados. Um doente elegível para terapêutica biotecnológica tem de fazer um screening prévio muito apertado. Neste screening destaca-se a prova de Mantoux/IGRA (pesquisa de tuberculose ativa ou latente), a pesquisa dos marcadores tumorais e das serologias. Para além disto avalia-se a função cardíaca com a realização de um ecocardiograma. Se após a realização destes exames e face ao resultado dos mesmos, o doente é informado dos possíveis efeitos adversos da doença e caso concorde e mantenha uma elevada atividade da doença esta terapêutica é iniciada», descreve Carlos Carneiro.

«O seguimento tem de ser muito consciente. Tem de haver prova de confiança entre médico e doente, assim como uma relação de disponibilidade entre ambos», até porque nalguns casos, é o doente que se administra em si próprio, os medicamentos através de uma espécie de injeção em «caneta».

«Para se ter uma ideia, quando estas terapias apareceram, numa fase inicial, eram administradas por infusão. Os doentes tinham que se deslocar ao hospital. Era quase como se recebessem um soro. Neste momento, existem canetas com as quais as pessoas se auto-administram no domicílio após realizarem os respetivos ensinos no nosso Hospital de Dia através das Enfermeiras que colaboram connosco. Tem sido uma evolução ao longo dos últimos 15 anos, estando disponíveis atualmente comprimidos desta terapêutica».

Carlos Carneiro insiste em repetir que a terapia biotecnológica é uma solução de última linha. «Estes medicamentos, por serem biotecnológicos, podem induzir, se não forem acautelados os pré-requisitos, neoplasias ou re(ativações) de tuberculose pelo que é de extrema importância uma monitorização rigorosa e cuidada» do doente.

A duração dependerá da resposta ao tratamento, mas pode durar em média entre seis meses a até um, ou dois anos.

«Na minha experiência, os doentes tem reagido muito bem a estes tratamentos encontrando-se alguns em remissão da própria doença. Isto significa que a mesma não desaparece, mas fica controlada».

No caso das artrites psoriáticas ou reumatóides, isso significa «menos dores, menos inchaços, e ajuda a aliviar os sintomas desagradáveis proporcionando uma melhoria franca na qualidade de vida.

«A minha consulta é certificada pela Direção-Geral de Saúde cumprindo todos os requisitos solicitados e os doentes são registados numa base de dados nacional denominada RIDAI. Quando estes fármacos são prescritos, os doentes só podem levantá-los em qualquer farmácia hospitalar pois são as únicas que podem os disponibilizar de forma gratuita». Apesar de serem muitíssimo caros (os mais baratos a custar centenas de euros e os mais onerosos a ultrapassar a casa dos milhares), são comparticipados pelo Estado.

«Nas doenças autoimunes, não nos podemos esquecer que as afetações existem de uma forma muito presente nas limitações físicas associadas mas também no plano psicológico dos doentes. Isto acontece pois muitas vezes, porque não foram diagnosticadas antecipadamente ou porque os doentes não tiveram disponíveis o tratamento adequado o que resulta na progressão da doença causando danos por vezes irreversíveis na lesão de órgãos estruturais. Se conseguirmos atuar no cerne da questão, podemos mudar a vida das pessoas., através de um diagnóstico mais precoce e com boas práticas, podemos mudar o prognóstico de futuro destes doentes. Não há dinheiro no mundo que pague a satisfação de mudarmos o curso da doença», conclui.

Dedos sempre gelados ou o fenómeno de Raynaud

Embora seja relativamente raro, por vezes o médico Carlos Carneiro, na sua consulta também segue doentes com o fenómeno de Raynaud. «É quando as nossas extremidades estão mais frias que o normal podendo inclusive mudar para tons violeta.. Imagine em temperaturas amenas, ter sempre as pontas dos dedos violetas», simplifica. «O fenómeno de Raynaud pode ser primário ou segundário, e além do estudo analítico completo, o diagnóstico deve ser complementado através da realização de uma capilaroscopia. É como se fosse uma ecografia que se faz no leito ungueal e portanto, vai identificar se existem fenómenos hemorrágicos nos capilares, ou não. E se de alguma forma eles estão alterados», explica. Esta situação está «associada a uma doença autoimune, a Esclerodermia ou Esclerose Sistémica (ES). Atua não só nos capilares, mas também provoca úlceras e outras manifestações».

Perdas gestacionais recorrentes podem indicar doença autoimune

Segundo o médico Carlos Carneiro, «às vezes há mulheres que se dirigem à nossa consulta, com abortos recorrentes, sem se perceber a causa, e com fenómenos trombóticos associados (AVCs prévios). Em alguns casos, diagnostica-se uma síndrome antifosfolipídico». E explica porquê. «Pode existir um processo autoimune que impede a mulher de ter uma gravidez até ao final da gestação. Contudo, existem tratamentos disponíveis tais como a anti-coagulação e os corticosteroides que de alguma forma diminuem a probabilidade da ocorrência destes fenómenos pois como facilmente se poder perceber têm um impacto muito negativo no ponto de vista pessoal, da autoestima, e a todos os níveis na vida destas pessoas».

II Encontro de Autoimunidade do Grupo HPA Saúde juntou médicos de todo o país em Alvor

O Grupo HPA Saúde tem feito uma aposta contínua na formação dos profissionais através de continuas formações nas diversas áreas. O segundo Encontro de Autoimunidade do Grupo Hospital Particular do Algarve contou com uma assistência de quase 80 participantes e vários palestrantes de todo o país. O debate abordou assuntos como a gestão da dor, a doença celíaca, a fibromialgia, a osteoartrose e a osteoartrite, o lúpus e a gravidez. A utilização da terapêutica biológica no tratamento das doenças autoimunes foi também um dos temas na mesa de trabalhos. Estiveram presentes entre outros, os representantes da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e do Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes.

«O primeiro encontro teve por lema desmistificar o complicado. Este segundo, decorreu sob o mote partilha de saberes e experiências. Este segundo encontro reuniu, primeira vez, vários colegas de renome nacional, responsáveis pelas consultas autoimunes de todo o país, de norte a sul. Estas iniciativas contribuem para uma atualização constante e são uma forma de estreitar laços entre profissionais de diversos centros», disse Carlos Carneiro ao «barlavento».

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