Quarteira celebra centenário

A 13 de abril de 1916 era publicada a Lei nº 509 que promulgava a criação uma Paróquia Civil. João Carlos Santos, investigador de história local, explica a efeméride ao «barlavento».

«É uma efeméride que não gostaria que passasse despercebida», confidencia João Carlos Santos, 29 anos, licenciado em Património Cultural, ramo de História, natural de Quarteira. «Existe muito pouca bibliografia sobre Quarteira. As fontes são muito dispersas e a baliza temporal entre elas é distante», considera este jovem investigador.

Santos lançou-se no desafio de conseguir «congregar informação» durante vários meses, ao longo dos quais dedicou-se a «ir todos os dias aos arquivos regionais ler milhares de páginas de jornais à procura de notícias sobre a cidade de Quarteira».

Foi desta forma que descobriu que em 1914, José Maria de Pádua – médico e deputado do Senado pelo Algarve – foi quem «fez dar entrada no Senado da República a proposta para a criação de uma Paróquia Civil na povoação de Quarteira», explica.

Os argumentos que fundamentam esta proposta basearam-se no facto «da aldeia ser um centro agrícola com uma alta produtividade. Mas acima de tudo por ter armações no mar que abasteciam, pelo menos, duas fábricas de conserva. Havia um sistema de carris no qual o peixe era descarregado em vagões e sendo depois direcionados para as conserveiras. Quarteira estava-se a tornar num importante polo com dinâmica industrial, e tinha já mais de 2000 habitantes», explica o investigador.

A Paróquia Civil de Quarteira viria então a ser criada com a «Lei n.º 509 de 13 de abril de 1916», no âmbito da Primeira República Portuguesa e durante «a Primeira Guerra Mundial» pelo que a participação de Portugal «poderá ter levado a um possível adiar da instalação da Junta», que teve lugar apenas no dia 21 de fevereiro de 1918.

«Era então eleito José Pires Barroso, o primeiro presidente», explica. Santos considera que a celebração do centenário é «um bom momento para unir os cidadãos quarteirenses». «É importante celebrarmos a continuidade da vida e deste marco histórico. A história local não deve ser desvalorizada».

«Faltam referências históricas em Quarteira»

Para o investigador, a «falta de referências históricas em Quarteira é lamentável». «Pegando no exemplo da estatuária, temos apenas uma em homenagem ao poeta Pardal natural de Quarteira e outra, do empresário fundador de Vilamoura Cupertino de Miranda. Todas as outras obras de arte pública personificam o coletivo, o povo, e não o sujeito individual», evidencia.

Na sua opinião, seria importante relembrar «o papel meritório de pessoas como José Maria de Pádua ou a família dos
Barretos, os primeiros senhores de Quarteira, que reconheceram a Quinta de Quarteira como uma propriedade que lhes propiciou muita riqueza mesmo em tempos de dificuldades». No entanto, a sua pesquisa sobre as fundações históricas da cidade já deu origem a duas obras: «Quarteira, o Topónimo e a Povoação (Séculos XIII – XIX)» em 2012, e «Quarteira, um pequeno centro cosmopolita (Séculos XIX e XX)», em 2013.

Homenagem aos presidentes da Junta de Freguesia

João Carlos Santos, tem ainda um outro projeto em curso – reunir as fotografias dos 19 presidentes que coordenaram a Junta de Freguesia de Quarteira ao longo dos últimos 100 anos. O objetivo final é «dar a conhecer à população os rostos que lutaram para que Quarteira se tornasse no que é hoje». «Gostava que se fizesse uma cerimónia de homenagem com o devido peso que a ocasião merece e que ficassem permanentemente expostos na Junta de Freguesia, a casa da democracia quarteirense para a qual contribuíram», conclui.

Celebração do centenário

No âmbito da celebração do centenário, o investigador irá realizar uma série de palestras pelas escolas de Quarteira, assim como no Centro Autárquico. «Vou explicar os aspectos que fazem com que esta data seja importante. Só assim faz sentido, pois o investigador pesquisa e escreve sobre a história, não para que volte a ficar confinada em papel ou nas prateleiras, mas para que seja comunicada às pessoas. O conhecimento tem de ser partilhado seja nos cafés, palestras, monumentos ou nas ruas. A missão enquanto investigador cumpre-se quando conseguimos chegar às pessoas», acredita.

João Carlos Santos, termina relembrando ainda a importância de uma outra data para a cidade: em agosto de 2016 celebram-se 100 anos sobre o nascimento do «Poeta Pardal», que dedicou a sua prosa a temas como o mar, a faina e as pobres condições de vida. De acordo com o investigador «ficou imortalizado para a história literária como o único poeta popular que foi pescador».

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