Obra da POLIS Ria Formosa falha mas salva cemitério de âncoras do Barril

Agitação marítima inutilizou o esforço da empreitada de reposição do areal e colocou a descoberto cabos e artefactos enterrados há anos.

O mau tempo aliado à força das marés vivas levaram à suspensão da empreitada de reforço do cordão dunar da ilha de Tavira, na praia do Barril, obra adjudicada pela Sociedade Polis Ria Formosa. Desde 8 de janeiro foram depositados naquele local milhares de metros cúbicos de areia, que desapareceram com o temporal do último fim de semana.

A primeira fase «estava praticamente terminada, a tempo de o concessionário poder montar a concessão para a Páscoa. Essa era uma das prioridades. Mas o mar insurgiu-se para terra e levou uma enorme quantidade de areia», explicou na manhã de domingo, 4 de março, Brígida Baptista, presidente de associação Lais de Guia.

Para já, é notório que o objetivo da intervenção falhou. No entanto, «os milhares de metros cúbicos de areia serviram de muralha natural que protegeu o cemitério de âncoras e também as casas» da antiga armação de atum. «Foi crucial para a salvaguarda deste património», sublinhou.

Há anos que estes cabos não viam a luz do dia.

A intempérie, além de arrastar a recém-colocada areia das dragagens, desnivelou o areal original, em cerca de um metro (negativo), de tal forma, que pôs a descoberto artefactos arqueológicos da armação enterrados há vários anos. Segundo o que o «barlavento» apurou, os cabos de aço que serviam para fundear as âncoras da armação de pesca encontravam-se a descoberto na década de 1990. Quando se retificou as dunas e foi colocada uma vedação para as proteger dos veraneantes, os cabos foram enterrados. Em 2011, contudo, ficaram de novo à mostra, embora segundo a presidente da Lais de Guia, nunca estiveram tão expostos como hoje. Alem disso, surgiram novas âncoras que não faziam parte do inventário de 2014.

Ao que o «barlavento» apurou, no âmbito desta empreitada foram definidas três zonas de proteção arqueológica. «O cemitério de âncoras, uma duna a oeste onde existe cablagem e boias de cortiça, e uma duna a este onde existe uma grande quantidade de cabos de ferro que estavam enterrados, a vários metros profundidade, e que agora estão à superfície», descreve. A ação da natureza, a erosão e a exposição aos elementos têm degradado o espólio, mas também o fator humano acrescenta riscos e pressão. Todos os dias, o cemitério de âncoras é invadido. E o pisoteio da duna contribui e acelera a sua degradação. Também os artefactos agora vulneráveis são pontapeados por pessoas curiosas que ignoram o valor do que estão a pisar. «Não percebem que não o devem fazer. Há uma grande falta de consciência patrimonial», lamenta Brígida Baptista.

Os turistas pontapeiam os artefactos da antiga armação, pisam a duna e invadem o cemitério de âncoras.

«É bom reiterar que o Barril é o único sítio em Portugal onde ainda existem vestígios em tanta quantidade das antigas armações do atum. Aqui temos as estruturas habitacionais, de trabalho e restos das artes que eram montadas no mar». O conjunto edificado está concessionado a um privado, embora no entender de Brígida Baptista, «o património seja de usufruto geral, de uma comunidade, de um país. Tem de ser visto de uma forma única e singular. Neste caso, é urgente deixarmos de fazer ações isoladas e tentativas de pequenas conservações, para se pensar numa proteção para o todo», incluindo o património imaterial que ainda existe.

Baptista gostaria de ver atribuído ao Barril um estatuto de «património de interesse municipal, e não mais atos isolados, em que estamos num jogo do empurra de responsabilidades». O assunto já não é, contudo, novo. Em maio de 2011, Baptista redigiu uma carta aberta à Câmara Municipal de Tavira, a exigir um processo de classificação do sítio. As âncoras do Barril são um ex-líbris de promoção turística do concelho, mas o facto é que aquele património, ainda hoje, não está protegido por lei. Agora, pondera lançar uma nova petição apoiada pela Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo, criada em dezembro de 2015, para defender, divulgar e promover a herança cultural e marítima algarvia.

O temporal destapou duas novas âncoras que não estavam inventariadas.

A armação do Barril (ou dos Três Irmãos) foi fundada em 1867 por José Pires Padinha (importante comerciante, armador e industrial de Tavira) e dois sócios. O recorde da pesca foi em 1881, quando foram pescados 46825 atuns de direito e revés. Funcionava de abril a setembro, tendo encerrado em 1966.

O custo da intervenção rondou os 3 milhões de euros.

O projeto da sociedade Polis da Ria Formosa tem como principal objetivo «promover a adaptação às alterações climáticas e a prevenção e gestão de riscos» contando, para isso, com um orçamento total elegível de 3,9 milhões de euros. A intervenção no Barril tem um valor de 2,9 milhões de euros (mais IVA), foi projetado pela empresa Origem das Formas (Unipessoal, Lda) e está adjudicada à Sofariea, Sociedade Farense de Areias, SA. O apoio financeiro do Fundo de Coesão da União Europeia é de 3,32 milhões de euros, sendo que o encargo financeiro nacional é de 586 mil euros. O prazo de execução termina em agosto.

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