Lagoa prestou «uma pequena homenagem a um grande homem»

«Emocionou-me esta noite ouvir esta gente nova a cantar os meus fados. A semente está lançada». Foram estas as palavras do fadista Carlos do Carmo ontem, 28 de abril, no final do espetáculo «As canções de Carlos do Carmo», que uniu no palco do recém-nomeado Auditório Municipal Carlos do Carmo nomes como Cristina Branco, Camané, Marcos Rodrigues e Paulo de Carvalho.

O evento contou com a presença de destacadas personalidades da vida política e cultural portuguesa, entre os quais o Primeiro-Ministro, António Costa, com quem Carlos do Carmo trabalhou durante sete anos na Câmara Municipal de Lisboa. Marcaram ainda presença Miguel Freitas, Secretário de Estado da Floresta e do Desenvolvimento Rural; José Apolinário, Secretário de Estado das Pescas; Fernando Serra, Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR), os deputados do PS, Fernando Anastácio e Luís Graça, e o corpo executivo da autarquia, entre outras individualidades.

«Foi com Carlos do Carmo que descobri e passei a amar o fado e foi com ele que descobri que o fado vai para além da vil tristeza», disse num pequeno sketch documental, o primeiro-Ministro António Costa.

«Carlos do Carmo não é só um excelente intérprete, Carlos do Carmo trouxe-nos novos poetas e poetizas, apostou na renovação do fado», disse ainda António Costa recordando o trabalho que o fadista gravou com Bernardo Sassetti, em 2010.

Este foi um espetáculo pontuado por momentos de grande emoção, que revisitou memórias da vida de Carlos do Carmo e que ofereceu ao público fados como «Por morrer uma andorinha», «Lisboa menina e moça», «Duas lágrimas de orvalho» ou «Balada para uma boneca de capelista» (um poema composto por José Carlos Ary dos Santos com apenas 15 anos).

Pequenas intervenções documentais ao longo do espetáculo revelaram histórias partilhadas entre amigos, fruto de grandes cumplicidades. «Esta é uma homenagem ao fado, mas uma homenagem de todo merecida», disse, na ocasião, Camané, para quem «o reportório de Carlos do Carmo é das coisas mais incríveis do que se faz na música no mundo inteiro».

«Eu teria 10, 12 anos», recordou Cristina Branco, «e quando o ouvi a primeira vez associei imediatamente o Carlos ao fado… é uma voz com uma grande classe. É um grande intérprete e os grandes intérpretes devem ser uma referência», adiantou Marco Rodrigues.

Paulo de Carvalho recordou a noite em que conheceu Carlos do Carmo, numa boîte onde costumava cantar, e ainda a altura em que, já com duas participações no Festival da Canção, se ofereceu para acompanhar a equipa deste, como baterista, nas tournées que já à altura, faziam pelos Estados Unidos.

O espetáculo culminou com o fadista a dar a voz a dois fados: «Sombra», do seu novo álbum de originais, a partir de um poema de Hélia Correia (Prémio Camões 2015 e Escritora Galega Universal 2017) e «Estranha forma de vida», um fado composto por Amália Rodrigues que fez parte do reportório inicial da carreira do fadista e que terá estado na origem do romance com a sua esposa, Maria Judite de Sousa Leal.

Durante a tarde, o artista e os convidados participaram na cerimónia de batismo do auditório. Na altura, Carlos do Carmo referiu-se a este como «um dia muito feliz» e recordou o momento em que foi pessoalmente convidado pelo presidente da autarquia, Francisco Martins. «O modo como se dirigiu a mim no camarim foi desconcertante (sorri) e inesperado. Foi um momento particularmente bonito», considerou. »Se eu autorizo? Com certeza, com muito gosto». Disse. O fadista referiu ainda sentir-se lisonjeado com «o facto desta homenagem surgir em vida».

Francisco Martins repetiu várias vezes a palavra «humildade» para referir-se à forma como Carlos do Carmo aceitou prontamente o convite que lhe dirigiu no início deste ano.

Para o autarca, «nunca tivemos um plano B», apesar de esta ter sido uma aproximação que levou quatro anos a dar fruto.

«Esta é uma homenagem do mais pequeno concelho do Algarve», mas «uma pequena homenagem a um grande homem».

Francisco Martins reiterou a ideia de que a autarquia aposta numa oferta eclética e de qualidade priorizada em dois prismas: a cultura e a educação, bases de uma sociedade capaz de pensar o futuro.

«Não acredito que Portugal avance sem esses dois pilares fundamentais», disse, na altura, o fadista.

«A educação é a base de tudo. Temos um povo massacrado por 50 anos de Ditadura que não se dissolvem em 34 anos de liberdade. São coisas que entram como o gás e que são difíceis de apagar!»

Ao longo deste momento de partilhas o fadista assumiu que «cantar não estava nos meus horizontes», apesar de ser filho da grande fadista Lucília do Carmo. Contudo, adiantou, «consegui fazer uma carreira, uma vida dentro de um mundo que não é fácil, dentro de um país pequeno e pobre. Raros artistas ficam para ser discutidos intergerações!», disse, com uma esperança no olhar.

Questionado sobre que música ouve de olhos fechados, Carlos do Carmo não hesitou: «The shadow of your smile», de Frank Sinatra. O fadista estreou-se no passado dia 7 de abril em Nova Iorque, no famoso Town Hall, e terá sido referido na imprensa como o «Sinatra do fado».

Uma figura de Carlos do Carmo na fachada lateral do edifício atesta agora a beleza da obra de Ricardo Crista dedicada ao artista.

«Ficou muito bonito!», disse António Costa à chegada aquele espaço cultural. O artista, natural de Setúbal, usou por base uma fotografia do homenageado e, partindo de uma folha de aço corten de 5mm (1,5mx3m) desenhou e esculpiu numa única linha contínua.

A obra, reproduzida em pequenas réplicas foi gentilmente oferecida a cada um dos fadistas e também a Marino Freitas (baixo), Luís Guerreiro (guitarra portuguesa) e Carlos Manuel Proença (guitarra clássica).
Acompanhou este momento uma magnífica exposição de objetos e testemunhos relevantes do percurso deste nome maior da música e da cultura portuguesa, organizada pelo Museu do Fado. O Grammy Latino de Carreira que Carlos do Carmo recebeu em 2014 (distinção inédita para um artista português), uma coleção de cerca de 20 discos muito especiais, ou manuscritos e reportórios da sua coleção pessoal foram algumas das curiosidades observáveis nesta mostra.

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