Jardim 1º de Dezembro será orgulho de Portimão

Por fim, estão em curso os trabalhos de conservação e restauro no jardim 1º de Dezembro, em Portimão, estando prevista a conclusão dos trabalhos até ao final do ano, se a chuva o permitir.
Beatriz Ramos, Susana Lainho e Raquel Varela.

Incluída na obra está ainda o restauro da fachada do edifício adjacente, onde funcionou a Cruz Vermelha. A intervenção consiste em «conservar e restaurar azulejos e argamassas que compõem os bancos artísticos e canteiros, onde se encontram alguns azulejos que já não são os originais, de modo a manter a história do local, tal como foi inicialmente. Quando estiver pronto, quem por aqui passar pensará que sempre estiveram muito bem tratados e que nunca chegaram ao estado em que os encontrámos hoje», explica Susana Lainho.

O concurso público para o restauro foi ganho por uma profissional consagrada da zona do Porto, Susana Lainho, que nos disse já ser conservadora/restauradora «quando ainda ninguém sabia o que isso era». Compõem a sua equipa de campo profissionais do Algarve, entre as quais a experiente portimonense Raquel Varela e a jovem padernense Beatriz Ramos, em início de carreira.

Segundo Lainho, o objetivo é «tratar os danos existentes, preenchendo as lacunas, integrando-os cromaticamente, criando a ilusão de ótica de que as unidades azulejares estarão completas». Substituir os antigos azulejos por novos poderia ser uma solução mais fácil, mas, neste caso, está fora de questão. «Preferimos este tipo de abordagem. Um original é um original e uma réplica é uma réplica. Por muito bem feita que esteja, é sempre uma réplica. É muito difícil criar o brilho exato, porque o antigo pode já não ter vidrado. Se aldrabarmos e fingirmos que são antigos, dentro de algum tempo estarão mais escuros, em relação aos originais. O que pretendemos é que, no final do restauro, esteja tudo uniforme. Se tivermos de fazer novo, assumimos. Passado algum tempo, já não se nota a diferença», justifica.

Susana Lainho confidencia que a prática de conservação e restauro, no Algarve, ainda está pouco desenvolvida, ao contrário do que se passa no norte e centro do país.

Que materiais podem ser restaurados e como? «Restauramos património integrado em edifícios, como estuques, pinturas murais, azulejos, pedras e madeiras. Mas existe alguma confusão em relação à reabilitação. Há empresas ligadas à construção civil que a fazem de forma moderna, ou seja, agarram nas práticas da construção atual e adaptam-nas aos edifícios antigos. O verdadeiro conceito do conservador/restaurador é usar o todo o conhecimento sobre construção tradicional e adaptá-lo aos edifícios antigos. Por exemplo, toda a gente usa o cimento, mas este vai causar mais danos no edifício. Nós usamos as argamassas tradicionais, os materiais compatíveis com os originais e que não prejudicam o seu desempenho. Se, amanhã, aparecer uma técnica muito melhor do que a que aplicámos, o restauro é facilmente retirado sem danificar o original. É o princípio da reversibilidade e compatibilidade, permitindo que paredes, soalhos e tetos se preservem por mais umas centenas de anos».

Arte pública versus vandalismo

«Toda a gente critica o património destruído, mas ninguém impede essa destruição, porque, neste país, as pessoas têm receio de chamar a atenção a quem prevarica e destrói. Parece que ainda não nos compenetrámos de que a coisa pública não é dos governos ou das autarquias; é nossa e somos nós quem paga. E a cidadania também passa por defender a coisa pública. As coisas bonitas, ou estão num museu com gente a tomar conta delas, ou então são vandalizadas», lamenta Susana Lainho.

A equipa que está a restaurar o jardim 1º de Dezembro, em Portimão, tem razão em queixar-se, porque as pessoas pisam as sebes recém-plantadas, os bancos e os canteiros recém-recuperados, embora haja muito espaço livre ao redor, mostrando uma enorme falta de respeito pelo seu trabalho. «Agora, com as argamassas, que necessitam de tempo para secar, vai ser pior», dizem. E fazem um apelo: «não calquem os azulejos do jardim e respeitem também as plantas. Todos os portimonenses são donos deste património».

Património em boas mãos

Raquel Varela é licenciada em conservação/restauração desde 2005, recebeu também formação em olaria, fotografia a preto e branco, património e museologia, conservação e restauro de cerâmicas arqueológicas e restauro/reassentamento de azulejos antigos. Natural de Portimão, apresenta já um vasto currículo, de onde retirámos alguns restauros que consideramos importantes, além da realização de trabalhos de conservação e restauro de cerâmica em atelier próprio:

• Participação nos trabalhos de conservação e restauro dos painéis de azulejo da Sé de Santarém.
• Participação nos trabalhos de registo gráfico, fotográfico e proteção do revestimento cerâmico que reveste o Convento de Jesus, em Setúbal.
• Participação nos trabalhos de identificação e levantamento de azulejos em destacamento que revestem a Igreja de S. Salvador do Mundo, em Évora.
• Direção e coordenação na obra de intervenção na conservação e restauro dos azulejos que pertencem à Quinta da Ramalha, em Almada, nas 3 fases de execução.
• Participação nos trabalhos de conservação e restauro dos azulejos que revestem a Estação de Caminhos de Ferro do Pinhão.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de conservação e restauro do painel de azulejos e cerâmica relevada que reveste a entrada da Escola S 2/3 Clara de Resende, no Porto.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de conservação e restauro dos azulejos e dos elementos pétreos que revestem a capela do solar dos Condes de Prime, em Viseu.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de conservação e restauro dos azulejos que revestem a empena e a fachada do edifício situado no Campo Mártires da Pátria, n.º 23, em Lisboa.
• Colaboração nos trabalhos de conservação e restauro da Igreja de S. Vicente, na Guarda.
• Acompanhamento e relatório final dos trabalhos de conservação e restauro da cobertura da Sé de Silves.
• Direção e orientação de estágio na intervenção de conservação e restauro dos azulejos que revestem o corredor e a sacristia da Igreja da Nossa Senhora do Carmo, em Lagos.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de conservação e restauro da Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de conservação e restauro de um painel de azulejos de 2001, na Escola EB 2,3 Augusto Pires de Lima, no Porto.
• Intervenção de conservação e restauro nos azulejos que revestem as paredes do altar-mor da igreja de S. Francisco, em Faro.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de conservação e restauro do Palácio de Estói.
• Intervenção de conservação e restauro na chaminé de fábrica do Auditório Municipal de Olhão.
• Direção e coordenação de obra na intervenção de Conservação e Restauro em silhares de azulejos de padrão do início do século XVIII que revestem duas salas e a escadaria do Museu de Évora.
• Participação nos trabalhos de conservação e restauro e reabilitação da pedra das fachadas do antigo palácio no condomínio Palácio da Junqueira, em S. Pedro de Alcântara, Lisboa.

Susana Lainho é licenciada em Conservação e Restauro pelo Instituto Politécnico de Tomar, em 2000 e Pós-Graduada em Química Aplicada ao Património Cultural, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 2006. No currículo traz as seguintes intervenções que coordenou, ajudou a coordenar ou participou:

• Fachada da Igreja dos Congregados, Porto (azulejos)
• Livraria Lello & Irmão, Porto (estuques, madeira, vitral)
• Capela de São Geraldo e Azulejos da Pia Batismal, Sé de Braga (azulejos)
• Responsável pela conservação do património afeto à construção da Barragem do Sabor, incluindo a trasladação da Capela de Santo Antão da Barca e Capela de São Lourenço de Felgar e a preservação de todo o património a submergir.
• Igreja da Misericórdia de Viana do Castelo
• Igreja do Mosteiro de Vilar de Frades (azulejos, mobiliário)
• Igreja do Senhor das Barrocas, Aveiro (talha dourada)
• Charola do Convento de Cristo, Tomar (talha, pintura mural)
• Palácio do Freixo, Porto (estuques, pintura mural)
• Capela das Almas, Porto (azulejos)
• Sala do Capítulo, Sé do Porto (talha dourada, escultura)
• Igreja do Mosteiro de São Martinho de Tibães (talha)

Ganhou ainda as distinções na conservação e restauro de azulejos:

• 2018 – Obra «Conservação e Restauro dos azulejos da Capela de São Geraldo, Sé de Braga», distinguida com uma menção honrosa pelo projeto SOS Azulejo na categoria Conservação e Restauro;
• 2015 – Obra «Conservação e Restauro do Património Azulejar da Igreja da Misericórdia de Viana do Castelo», distinguida com o prémio SOS Azulejo na categoria Conservação e Restauro;
• 2015 – Obra «Painel de azulejos A Vida em Família, de Júlio Resende», distinguida com uma menção honrosa pelo projeto SOS Azulejo na categoria Conservação e Restauro.

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