Câmara vai adquirir Convento de Monchique

Autarquia quer dizer basta a declínio que se arrasta há décadas. Aquisição deste património abandonado poderá ser o caminho para lhe dar uma nova vida.

Quem visita Monchique depara-se com a figura imponente do Convento da Nossa Senhora do Desterro, a espreitar por cima do centro da vila. Se se quiser aventurar numa longa caminhada correrá a hipótese de ser surpreendido, quer com o valor histórico, quer com o estado avançado de ruína.

Por esta razão, a Câmara Municipal de Monchique tem estado a trabalhar há longos meses para comprar e tomar posse administrativa do Convento.

Ao «barlavento» Rui André, presidente da Câmara Municipal, traçou um ponto de situação do processo e revelou quais serão os próximos passos para comprar o espaço.

«Estamos a ultimar a compra de frações das quais conhecemos os proprietários e as restantes vamos fazer uma expropriação», avançou. Isto porque, o Convento da Nossa Senhora do Desterro, construído no século XVII (estilo Manuelino), foi destruído no terramoto de 1 de novembro de 1755, tendo sido reconstruído depois em data desconhecida.

A verdade é que nessa altura, segundo esclarece Rui André, foi vendido em hasta pública e comprado por algumas pessoas. «Chegou aos nossos dias com muitos proprietários», afirmou.

O anterior executivo da autarquia, liderado pelo socialista Carlos Tuta, chegou a comprar duas parcelas, mas nenhuma corresponde ao edificado. São, afinal, terrenos mais abaixo.

«Há alguns meses, apareceu na Câmara Municipal um casal de irmãos que diz ser o último dono do Convento. Eu pensei que seria uma boa oportunidade para comprar. E de facto são os últimos proprietários conhecidos. No entanto, só têm a quarta parte do edifício», confirmou.

A Câmara Municipal, com recurso a advogados, foi investigar a identidade dos restantes proprietários, mas a «confusão com registos e escrituras é muita, não se conseguindo apurar quem são os outros donos», lamentou Rui André.

«Tentamos tudo por tudo e não conseguimos descobrir, porque são herdeiros de outros herdeiros, com muitas gerações pelo meio. Até é um pouco difícil perceber como foi feita a escritura tendo em conta o que está no mapa do Convento. Parece quase um loteamento, dividido por frações».

No documento que o autarca mostrou ao «barlavento» consta que, no edifício, a cozinha é de um proprietário chamado João, outra divisão ao lado é de uma Maria, a sala de uma Ana… São pessoas que já deixaram gerações de herdeiros até hoje.

Aliás, o casal que contactou o autarca tem uma parte muito pequena do imóvel. Por isso, Rui André tomou a decisão, que levará em breve à reunião camarária e de Assembleia Municipal, de comprar as frações aos proprietários conhecidos, fazendo a devida escritura. «O que não se comprar vamos fazer a posse administrativa e depois atribuiremos um valor das partes indivisíveis. Se aparecerem os proprietários, indemnizaremos de acordo com o valor que for aprovado. É impossível fazer mais do que isso», resumiu.

A verdade é que com o passar dos anos, o Convento de Monchique foi abandonado e tem vindo a degradar-se. Por isso, a autarquia quer ainda tentar salvar o resta daquele património.

«Daqui a 20 ou 30 anos estamos na mesma incerteza, a dizer que a Câmara vai comprar o terreno e a compra nunca se concretiza. E entretanto está em estado avançado de ruínas», fundamentou.
Esta alternativa está a ser estudada há muito pelo executivo e é urgente, pois o autarca considera prioritário realizar obras de consolidação para evitar acidentes.

«Aquele espaço é muito visitado, mas não tem as devidas condições de segurança. Também poderia ser um imóvel mais visitado se estivesse consolidado. O que lá está não corresponde à importância que tem e quem de lá sai, sai desiludido com o que encontrou», argumentou.

A intenção é, assim, que o espaço possa ser visitado com dignidade, sendo apoiado por informação histórica. Rui André quer ainda, após essas obras de consolidação, que aquele seja um espaço para promover eventos religiosos ou culturais, como o Festival das Camélias.

«A nave principal pode ser palco de algumas atividades. No entanto, para isso, tenho de estabilizar as paredes. A ala principal já nem telhado tem, mas pode ser uma oportunidade para outras iniciativas, como concertos em que o pano de fundo sejam as estrelas», descreveu Rui André.

O único entrave que a Câmara Municipal tem tido até à data é que para poder fazer qualquer intervenção necessária tem que ser a legítima proprietária do Convento.

Autarquia tem ante-projeto para pousada

A Câmara Municipal de Monchique tem um ante-projeto para uma pousada de luxo a instalar no Convento da Nossa Senhora do Desterro, que tem vindo a ser mostrado a potenciais investidores. Com o pressuposto de que a autarquia conseguirá adquirir o imóvel, Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, está a avançar com contactos junto de alguns empresários hoteleiros. «Neste momento e julgo que nos próximos anos, a autarquia não tem dinheiro para a recuperação integral do Convento. Não há fundos comunitários, nem apoios para esse fim, portanto a solução é adquiri-lo já para procurarmos investidores», que queiram participar na solução para este património, defendeu o autarca.

O ante-projeto atual prevê a ampliação de todo o espaço, criando mais quartos e zonas de lazer, além das tradicionais necessidades de uma unidade hoteleira. «Este projeto tem 24 quartos, sendo 20 duplos, dois para pessoas portadoras de deficiência ou mobilidade reduzida e duas suites. Tem uma piscina, prevê a recuperação dos tanques e das zonas à volta, como é o caso da Fonte dos Passarinhos, um símbolo da história deste espaço», descreve o autarca.

O imóvel, com dois andares, tem a maioria dos quartos no piso superior, apoiados por sala de estar e bar, por exemplo. E até há alguma curiosidade, conforme afiança Rui André. «Já falei com alguns grupos que podem estar interessados. Dependerá sempre das condições e da rentabilidade em relação ao investimento que terão de fazer aqui. Se for uma unidade com três ou quatro quartos não valerá a pena. No entanto, com esta ampliação já se coloca um cenário completamente diferente, ainda que qualquer obra naquele imóvel seja sempre dispendiosa». O edificado existente e a traça original tem que ser mantida.
Além da colaboração normal expectável nestes casos, a Câmara promete facilitar em toda a burocracia. Há abertura para oferecer o projeto e auxiliar em todos os trâmites do processo, podendo também estar disponível para discutir uma eventual comparticipação financeira, se isso conduzir a uma solução definitiva para o Convento.

A única contrapartida que o autarca exige, é que, o património tenha acesso livre de forma a poder ser visitado por turistas e pela população local. «Gostaria que o espaço religioso continuasse ligado ao culto, a eventos culturais, como exposições. Este apoio só será válido, caso quem queira investir mantenha acessível pelo menos uma parte do Convento», sublinha.

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