«Vamos Amar Lagoa» dá mote à candidatura de Ondina Santos

Fadista não quer fazer política pura e dura mas promete usar muita energia positiva para conquistar os lagoenses. Diz ter propostas adequadas à realidade do concelho e que quer levar o eleitorado a refletir em três pilares fundamentais: valorização humana, profissional e do espaço envolvente

barlavento: Apresenta esta candidatura como independente, após ter sido vereadora do PSD. Qual o porquê desta alteração?
Ondina Santos: Há um ano tinha vontade de fazer mais pelas pessoas. Acho que só não são mais felizes, porque ninguém lhes diz que o podem ser ou que podem fazer o que gostam. Ninguém é otimista. «Aceita o que tens» é a mentalidade geral. E, por isso, as pessoas são infelicíssimas a ganhar pouco. Eu era professora e foi muito difícil continuar a dar aulas com o péssimo ambiente instalado nas escolas. Ora, como pode um professor insatisfeito lecionar satisfeito? Os pais estão chateados com a crise, os professores estão chateados e quem leva por tabela são os alunos. Acho que há falta de investimento nos alunos. Acredito que, com motivação, todos conseguimos fazer diferente. Nas reuniões do PSD, partido pelo qual fui eleita vereadora (independente) manifestei a minha vontade de cativar pessoas e de fazer diferente, mas não vi nenhuma ação.

Então, pelo que entendo, quer abanar as pessoas de Lagoa?
É esse o meu objetivo. Por isso é que não estou preocupada em ganhar eleições. Estou preocupada em pô-las a pensar. Se eu merecer, votem em mim. Mas só se merecer. Não votem em mim só porque não querem votar nos outros partidos. Isso, não! Votem em mim, se acreditam naquilo que tenho para dar. E se a Câmara Municipal de Lagoa, de repente, começasse a dar a mão às pessoas?

De que forma?
Uma das coisas que gostaria de criar era o Gabinete de Aconselhamento Profissional. Ou seja, coaching, psicólogos, terapeutas, todo um leque de profissionais que iriam fazer testes psicotécnicos e usar o que fosse necessário para colocar as pessoas a trabalhar a sua vocação.

Ou seja, pretende intervir no potencial dos munícipes?
Sim, para as suas profissões ideais, em vez de apenas viverem para ganhar dinheiro ao final de um mês a sentirem-se inúteis e, mais tarde ou mais cedo, entrarem em depressão. Ninguém gosta de trabalhar no que não gosta de fazer, claro. Se alguém me disser que gosta de cozinhar, por exemplo, a ideia é colocar a minha equipa na Câmara Municipal a tornar isso possível. Numa primeira fase, será uma equipa que fará um trabalho de fundo dentro do concelho. Temos que começar pelas sinergias, conhecer os empresários. Vamos dar formação, inclusive trazer pessoas de fora, se necessário. Há quem queira fazer coisas tão simples, como é o caso de uma rapariga que, no outro dia, me disse que queria ser manicura, mas que teria de ir para as limpezas, porque através do Centro de Emprego teria que estudar muito. Uma coisa é querer ser astronauta, mas isto não…

Haverá alguém a querer fazer trabalhos mais burocráticos?
Há pessoas que adoram. Ora ai está, se fosse tudo mais simplificado… Não é preciso complicar tanto. As pessoas, como não gostam do que fazem, nem querem saber mais.

O problema é o excesso de burocracia?
Sim. E vi isso na escola, onde tive uma colega que colocou baixa por fobia a papéis. E tem razão, porque uma pessoa fica doida com tanto papel que tem que preencher. Nem tem cabeça depois para se dedicar com amor e empatia aos alunos. Por exemplo, na escola, amanhã, gostaria de falar sobre um tema atual: o festival da canção, mas, não posso, porque o programa diz que amanhã é o dia de falar das batatas e nem sequer é altura delas, mas tenho que falar, porque está no programa, naquele documento que alguém se lembrou de fazer sem sequer estar preocupado com a realidade de Lagoa e das crianças.

Considera que as escolas deviam ter autonomia para adequar conteúdos?
Sou professora e respeito que as regras têm que ser seguidas. Mas quero preparar os jovens para o futuro. Quero que com 18 anos, quando saem da escola, saibam o que são as Finanças, Segurança Social, o que é a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, quais são os direitos e deveres. Sabem quem foi o primeiro Rei de Portugal e já esqueceram, porque tiveram que o decorar para um teste, que foi uma seca. Mas se eu for ensinar a fazer uma estrela, na altura do Natal, por exemplo, vou ensinar, porque há um objetivo, que é decorar a escola ou a casa deles. Agora querem reduzir o número de aulas de artes e música aos miúdos e dar matéria mais teórica. Tirar tudo o que é engraçado e divertido, porque não é importante? Querem fazer dos nossos jovens robots e não podemos permitir isso.

Acha que deveríamos seguir o exemplo de outros países?
Temos que perceber a nossa realidade. Os nossos jovens são diferentes de outros países. Nós temos sol. E só isso já é uma grande diferença. Nós podemos estar na rua. Temos é que pensar que jovens é que queremos no futuro e pensar no que gostaríamos de ter feito enquanto alunos para hoje sermos felizes. É essa reflexão que temos que fazer. Depois há outros aspetos… porque é que usar boné na sala é falta de educação? Porque alguém o disse e nós aceitámos como cordeirinhos. Tive de marcar faltas, porque os alunos não tiravam o boné e porque era a regra da escola, mas sinceramente é ridículo. Os miúdos não podem estar na aula na sua individualidade? A escola deveria ser um espaço onde fossem felizes. Claro, temos que saber escrever, fazer contas. Mas o ensino não está adaptado às necessidades. A escola devia preparar os jovens para o dia a dia, para serem adultos responsáveis e não robots ou computadores, que é o que se está a fazer. A avaliação dos professores foi outra coisa ridícula. Os professores tiraram um curso, mas agora têm de fazer um teste, quando o mais importante é se se dão bem com os alunos e se eles aprendem com eles.

Assim, quais são as principais queixas que ouve dos lagoenses?
Que estão insatisfeitos! Simplesmente sair de um comodismo a que estamos habituados é complicado… Mas continuarmos a fazer uma coisa que não gostamos só porque ganhamos 500 euros, acho ridículo. E ouvi muitas pessoas a dizer que não se sentem valorizadas. É muito difícil encontrar uma pessoa que diga que faz o que gosta. Os professores reclamam e com razão, porque não são valorizados. Ninguém os ouve, nem o Ministério. Os pais não se sentem valorizados e todo o esforço deles perante os filhos não é tido em conta. Estamos numa sociedade em que se fizeres bem, deixa-te estar quieta, se fizeres mal és chamada à atenção. As pessoas trabalham no dia inteiro e normalmente até nem vestem a camisola. Estão a trabalhar para um patrão e este, em vez de chegar ao fim do dia e agradecer pelo esforço e dedicação, não. Se calhar ainda diz: amanhã veja lá se não chega atrasado ou… este mês não lhe pago a horas e nem lhe explico porquê!

Assim, que outras ideias tem para mudar a realidade de Lagoa?
Aumentar as zonas verdes. Considero que havendo terrenos há possibilidades sempre. Se vivêssemos numa ilha, cheia de casas e não houvesse espaço, achava que era mais complicado. Mas há espaços e há terrenos sem nada. Podiam ter árvores, hortas comunitárias. As pessoas estão a precisar do contacto com a terra, os alunos deviam trabalhar nas hortas comunitárias, devia ser quase obrigatório na escola. Cada vez estão mais longe e vão perdendo a noção do verdadeiro sabor das coisas. Faz falta e é fácil. Aqui atrás da Escola EB 2,3 Jacinto Correia, há um terreno, por exemplo! Temos uma série de imóveis do Estado a cair no nosso concelho e vão caindo porque são do Estado. Não se pode mexer. Será que não? É de todos nós! Vamos trabalhar em equipa para aproveitar esses espaços, eu falo de todos os lagoenses, porque o património é nosso!

Tem havido algumas obras da Câmara Municipal, umas mais polémicas que outras. O que mudava?
No centro, a ideia é boa. Não tenho nada a dizer, apesar de achar apenas que podia estar melhor planeado. O vermelho foi o escolhido, claro que é sempre preciso avaliar a nível do calor se tem implicações ou não, mas a ideia é boa.

Compreendo que quer motivar as pessoas, mas geralmente a população não vai às reuniões, não participa…
Sim. E vi isso no Orçamento Participativo. As pessoas tem dinheiro para gastar em algo que queiram apresentar e não aproveitam. Fui à reunião da OP em Ferragudo e estavam lá sete pessoas. Uma delas era eu. As pessoas estão desacreditadas, porque consideram que a sua opinião não tem valor. E chegam às Assembleias Municipais e a resposta que obtêm é que um dia logo terão resposta. Se não interessar, nem sequer isso chegam a ter. Não acreditam na política, mas deviam acreditar, pois se não estiverem ativamente na política, ela continuará a ser o mesmo como tem sido até aqui. Estou interessada em fazer alguma coisa já. Não é em outubro. Aí será uma consequência do que já estou a fazer. Comecei de forma subtil com o facebook, criei o mensário (cada dia é o dia de qualquer ação como um abraço, agradecer, exercício físico). No mês de abril houve um desafio, em maio uma ação. Vamos organizando iniciativas dentro do grupo «Vamos Amar Lagoa». As pessoas do grupo não se conheciam antes. O mês de abril foi o mês da Ondina, maio é o mês de nos conhecermos, o grupo chave. A partir de junho é para trazer pessoas para nós. Já fizemos alguma coisa na rua, mas, para já, estamos a trabalhar o grupo para ser coeso e só depois o exterior.

A candidatura baseia-se numa perspetiva otimista, numa sociedade que caracteriza como maioria pessimista. Não será difícil encontrar pessoas?
Quem quiser vir venha, se vier por bem, e felizmente muitos estão a juntar-se à causa! Se quiserem antes ficar em casa, podem ir ao facebook e participar nas várias atividades que propomos. Tal como dar um abraço às pessoas que vivem connosco… se calhar há pessoas que nunca deram e pode ser um desafio interessante. Aqui não estou a pedir que gostem de mim, mas deles próprios e das pessoas com quem vivem. Há pessoas que estão perdidas, porque ninguém lhes dá as mãos.

É um desafio?
Sim, para mim, sim. E dentro deste desafio, ter o grupo que tenho, quando estava sozinha no início, já é muito bom. Influenciei aquelas nove, aquelas nove vão influenciar mais nove e assim sucessivamente. Temos cinco meses para o fazer.

Candidatura de Ondina conta com o apoio do CDS-PP

Era vereadora independente eleita pelo PSD. Porque deixou o cargo?
O PSD não teve uma intervenção ativa nos últimos três anos. Era o contrário do que estava à espera. É a tal questão política de que temos que ser políticos da forma que está instituída. Numa reunião do PSD, a última a que assisti, falei no «Vamos Amar Lagoa». Disse que tinha uma ideia, um conceito, este espírito para sabermos como poderíamos trabalhar Lagoa. Ouviram, e argumentei que estávamos sem rumo. Houve pessoas que se sentiram ofendidas. Não era isso que eu queria, até porque disse-o de uma forma geral. O PSD esteve no poder uma série de anos e não sabe estar sem ser poder. Senti que a minha ideia não era bem-vinda…

E como surge o apoio do CDS-PP?
Entretanto, o CDS veio ter comigo pelas minhas ideias de otimismo. Por alguns motivos, que posso entender, como a minha pro-atividade, o facto de já estar na política, de ser independente, ter ideias pelas pessoas, tudo isso os pode ter motivado a convidar-me. Não tanto por partilhar da ideologia.

A forma de estar da distrital do CDS é diferente?
Sim. Simpatizei muito com o grupo. Convidaram-me e eu pensei dentro do PSD não consigo fazer nada. E eu quero fazer. Quero abanar as pessoas. Quero dizer a cada pessoa ‘tu mereces ser feliz’. Assim que percebi que era para avançar falei com o José Inácio e com o Rui Correia (PSD), que eram as pessoas que estavam comigo na vereação, e disse-lhes. Nunca me disseram não contamos contigo, portanto eu poderia continuar no PSD, mas se a minha ideia não foi bem aceite, como, poderia continuar? Não estou interessada em ganhar eleições. Estou interessada em fazer coisas pelas pessoas, portanto não me interessava estar na lista só por estar. Decidi abdicar da minha posição de vereadora, para ser coerente comigo e com aquilo que eu estou a abraçar neste momento. Acho que as pessoas no PSD de Lagoa são válidas, mas não estão dentro do meu espírito, dentro do que eu quero para Lagoa.

Concorre como independente mas com o apoio do CDS?
De certo modo, sim. O presidente da Comissão Concelhia Distrital [José Pedro Caçorino] está satisfeito, pois não é política normal. É uma lufada de ar fresco.

Já foram elaboradas as listas?
Sim, já temos os cabeças de lista para todos os órgãos.

São pessoas que já estão consigo, estas são independentes também?
Sim. E estão comigo, porque acreditam na minha forma de viver a política. Querem fazer diferente. Acreditam que estamos cá para fazer isso e que as pessoas só precisam de ser motivadas, estimuladas.

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