Jerónimo de Sousa pediu união contra a «ameaça latente» na Ria Formosa

A luta dos ilhéus deve continuar no Algarve para ter força em Lisboa, sublinhou Jerónimo de Sousa na ilha da Culatra, onde foi recebido com entusiasmo pela população, na manhã de sábado, 21 de janeiro.

Com um salto ágil, por entre redes e artes de pesca, o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) desembarcou na ilha-barreira em dia de jogo do Culatrense. Acompanhado pelo deputado Paulo Sá e pelos vereadores comunistas de Faro e Olhão, o líder seguiu para o café do clube, onde já era esperado por populares e associações dos núcleos do Farol e dos Hangares, onde está prevista a tomada de posse administrativa de meia centena de habitações, no final de fevereiro.

«A questão que se coloca é saber se esta comunidade tem direitos fundamentais ou não. O direito a viver, o direito a habitar e o direito a produzir. Estas populações não caíram aqui de repente. Não construiram habitações com o surgimento do turismo. É uma comunidade com quase 200 anos que merece o respeito e o apoio das instituições», disse Jerónimo de Sousa aos jornalistas.

O líder comunista não tem dúvidas que as demolições têm outras intenções, que não apenas ambientais. «Eu diria, com certeza, que não acreditamos em bruxas, mas que as há, há. Está demonstrado que hoje o Algarve tem uma apetência muito grande. Muitas vezes, os objetivos parecem distantes, mas no essencial, porque é que se metem com estas comunidades? Que mal é que esta comunidade está a fazer, para de repente, procurarem encanzinar a sua vida?», metaforizou.

«Creio que as populações não podem descansar» e que o anúncio da retoma das demolições «é uma ameaça latente. E, mais uma vez, o que vai ser determinante não será a ação, a intervenção institucional, designadamente por parte do PCP, mas a luta, o empenhamento, a unidade desta comunidade na defesa dos direitos que referi. É um grande desafio que está colocado ao governo do PS», considerou.  «Muitos vêm vestir a camisola aqui no Algarve, vêm afirmar a sua solidariedade, que estão dispostos quase a dar a vida e que só por cima do cadáver é que» haverá mais demolições. «Mas depois, na Assembleia da República, outras vozes se levantam, apesar de serem do mesmo partido. No momento em que se abrir uma brecha, aqui na Culatra, estará aberto o caminho para a instalação de interesses económicos que ainda não aparecem de forma clara», avisou no seu discurso.

Para o líder do PCP, «nenhum empreendimento que se pudesse realizar nestes núcleos substituiria esta comunidade e toda a riqueza que comporta, toda a sua história secular».  «Acredito que não há nada de diabolização. Este governo e o anterior não tinham propriamente um ódio de estimação a esta população. Mas há valores que, muitas vezes, mais alto se levantam e, por isso mesmo, à cautela, a melhor solução que o governo PS tem para demonstrar é deixar esta população em paz», sublinhou. Jerónimo de Sousa apelou várias vezes à mobilização popular. «Confiem noutras forças democráticas que possam ser objetivamente apoiantes da vossa luta. Mas nada, nem ninguém substitui a vossa união. É isso que os faz temer e os faz recuar», incentivou.

«Alguém acredita que com uma mera ação institucional, de caráter mais ou menos proclamatório, isso resolve? Não. Será sempre complementar àquilo que são os sentimentos, os objetivos, os anseios, seja dos trabalhadores, seja das populações. Agora é preciso continuar a lutar para concretizar e consolidar os avanços que foram conseguidos» na contestação. «Nós sabíamos que o governo PSD/CDS tinha um objetivo concreto de demolição em massa. O PS disse uma coisa diferente», até que os proprietários dos núcleos do Farol e dos Hangares, na ilha da Culatra, começaram a receber novas notificações para a tomada posse administrativa por parte da Sociedade Polis Ria Formosa, em 50 casas, nos dias 22 de fevereiro e 2 de março.

«Ilusões e falinhas mansas» denunciou Paulo Sá

Paulo Sá lembrou que graças à luta dos ilhéus foi possível travar as demolições anunciadas para 27 de outubro de 2016. «Mas neste processo, houve quem tentasse criar ilusões, com o objetivo de enganar as populações». É exemplo, «a ilusão de que a responsabilidade era da Polis da Ria Formosa e, em particular, do seu presidente. Que a ele se devia a continuidade deste processo e que quando Sebastião Teixeira fosse afastado, tudo se resolveria. A realidade veio destruir esta ilusão. E é uma ilusão perigosa, pois ao concentrar as atenções no executante, desvia-se a atenção do mandante», disse. Outra «ilusão» referida pelo deputado comunista é que «aqueles que dizem estar interessados em defender os ilhéus, na realidade, escondem as suas verdadeiras intenções com falinhas mansas, e no Parlamento chumbam todas as propostas do PCP para pôr fim às demolições». E ainda «a ilusão de que agora o que se pretende é apenas demolir 40 ou 50 casas perto da linha de água e que depois não haverá mais demolições».

O parlamentar lembrou que no dia 23 de dezembro foi discutida a petição que reuniu 4 mil assinaturas a pedir o fim das demolições. No debate, o deputado socialista comentou que «onde o PSD colocava caterpillars e bulldozers, o governo do PS avança com dragagens nos canais, com obras de requalificação do espaço público no núcleo da Culatra, com a construção de uma nova ponte para a ilha de Faro e com uma nova estação para tratar os esgotos». «Mas 25 dias depois de o PS ter dito estas palavras em Lisboa, no Parlamento, os ilhéus começaram a receber as notificações para as demolições. Com amigos destes, os ilhéus não precisam de inimigos», considerou Paulo Sá.

Apoio ao combustível da pequena pesca avança este ano

Paulo Sá noticiou aos culatrenses que vai avançar «o apoio à gasolina das pequenas embarcações, uma luta muito antiga do PCP e uma reivindicação da pesca artesanal e local. Conseguimos inscrever essa medida no Orçamento de Estado, que avançará e será concretizada este ano». O deputado comunista está também a pressionar a tutela acerca da Área Piloto de Produção Aquícola da Armona, defendendo que os pescadores possam desenvolver a sua atividade que lotes não estão a ser utilizados, e portanto, sem qualquer utilidade.

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