Assim se vai ou deixa de ir

Nunca, porventura, a imprensa no nosso país terá batido tão baixo pós 25 de Abril!

A concorrência cada vez maior entre órgãos de comunicação social e a insuficiência de receitas publicitárias, sobretudo num período de crise económica, que a todos satisfaça, tem levado a um seu crescente abastardamento, em que tudo vale para conquistar audiências e vender papel, explorando-se, nomeadamente, o nosso voyeurismo mórbido – é preciso, também, reconhecê-lo -, em que não resistimos a espreitar pela fechadura da casa do vizinho, na expetativa de que alguma desgraça lhe aconteça, sobretudo se lhe invejarmos algo, assim procurando exorcizar as nossas próprias frustrações.

Não se noticiam factos, procura-se criá-los. Não se espera pelo veredito dos tribunais, promovem-se, antecipadamente, julgamentos na praça pública. Não se dá a conhecer o quê, onde, quando, como e porquê, com a isenção que a condição humana, apesar de tudo, consiga permitir, deixando ao destinatário final da informação um livre juízo de valor sobre o relatado, antes se procura condicioná-lo nesse juízo, com o jornalista cada vez mais travestido de comentador.

Não se entrevista, questionando o entrevistado sobre aquilo que se presume ser do interesse público conhecer, antes se confronta o entrevistado sobre aquilo que ele, entrevistador, pensa, numa perversa inversão de papéis, em que o entrevistado se apresenta, apenas, como um veículo de pretensa afirmação/estrelato do entrevistador ou, então, nem sequer se disfarça a antipatia ou simpatia que se possa ter por quem entrevistado é, neste último caso através dum tratamento quase Tu cá… Tu lá… ou Oh!Amigo…Não concorda comigo que…?, como, tempos atrás, um jornalista de assuntos económicos se dirigia a um dirigente do mundo empresarial convidado do seu programa televisivo.

Tudo isto num clima de confrangedor silencio geral, quiçá decorrente de complexos com raízes na censura existente no antigo regime ou seja, cala-se, não se vá ser classificado de não democrata e inimigo da liberdade de expressão!

Entretanto, para não destoar deste clima jornalístico, a designada política (fora as exceções que servirão para confirmar a regra) deixou de ser a das sessões de esclarecimento de outrora, levadas a cabo por tudo quanto era sítio, de sociedades recreativas a salões de festas, para passar a ser a do espetáculo!

O candidato sobe ao palco ao som da música 1492 – Conquest of Paradise, de Vangelis (tida como mais snob do que Deixa-me Cheirar o Teu Bacalhau, de Quim Barreiros) à hora dos telejornais, para, em direto, ter mais impacto junto dos eleitores!

Os cartazes do candidato não apresentam fotos do mesmo tal qual ele é, antes sem sinais e sem rugas, de pele sedosa, embelezadas a Photoshop (depois do voto na urna, já pouco importará se o eleitor vier a descobrir que lhe foi vendido gato por lebre, pelo menos, esteticamente)!

O candidato que se preze, mais do que preparar propostas, devidamente fundamentadas, para apresentar ao eleitorado, deve, preferencialmente, fazer dieta, frequentar ginásio e sauna para tirar a barriguinha possuída, de forma a apresentar-se com um look mais cativante quando for distribuir balões e esferográficas junto daquele!

O candidato não deve debater televisiva ou radiofonicamente com outro candidato, mas procurar falar mais alto do que ele, interrompendo-o constantemente! Finalmente, para que o retrato do candidato fique completo, há que certificá-lo com uma Comissão de Honra (que se presume, naturalmente, toda formada por gente honrada), não vá o eleitor, num sinal dos tempos que politicamente correm, dele desconfiar!

Em suma, tudo a cheirar a muita embalagem e pouco conteúdo!

Talvez por isso, se outrora, às sessões de esclarecimento, se acorria em massa para ouvir, perguntar e ser-se, assim, esclarecido, hoje só sei sai de casa se a apresentação do candidato for precedida de uma boa almoçarada ou jantarada, em que no fim se batem palmas, não se sabendo bem se ao candidato, se à qualidade do comido e bebido ou, simplesmente, para ajudar a fazer a digestão. Para já não se falar em se preferir ver um jogo de futebol, do que ir votar. Assim se vai ou deixa de ir por onde se deveria.

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