António Costa recebido em Portimão com casa cheia na apresentação da recandidatura ao PS

Secretário-geral explicou os quatro pilares da moção estratégica que levará ao Congresso, apontando um horizonte de 2020 a 2030 para concretizar políticas.

O auditório do Museu de Portimão encheu-se de militantes de vários pontos do Algarve para ouvir António Costa, secretário-geral do Partido Socialista (PS) e também primeiro-ministro, apelar a que sejam lançadas as sementes para a próxima geração.

Aliás, foi com um dezena de militantes da Juventude Socialista do Algarve que o líder do partido esclareceu quais são os grandes desafios para os próximos 10 anos e aqueles que considera serem os quatro temas mais importantes. Não é por acaso que a moção estratégica que levará ao Congresso Nacional agendado para o último fim de semana de maio, na Batalha, se chama «Geração 20/30». Quanto mais não seja, porque a maioria daquilo que defende, que deve ser pensado no horizonte 2020 a 2030, seja mais do que direcionado para esta faixa etária. Não tudo, mas uma grande fatia é a pensar num futuro sustentável para esta geração e para as que se seguem.

Por isso, os desafios, que se cruzam entre si, não podiam deixar de tocar temas como a sociedade digital, a demografia, as alterações climáticas e a desigualdade. Não necessariamente por esta ordem, até porque António Costa considera-as importante como um todo.

Na primeira apresentação oficial da recandidatura, num discurso de 30 minutos, aberto à comunicação social, 10 foram reservados a explicar as opções que tomou. Começou pela alterações climáticas. «Desafiam-nos em todo o território, aqui com a erosão da costa, em todo o país com os fenómenos de seca extrema, com os riscos de desertificação, mas também como uma enorme ameaça para um dos grandes valores que temos e que podia dar grandes contributos para a diminuição da emissão do CO₂ que é a nossa floresta», afirmou.

Alertou que, ainda que no Acordo de Paris tenha ficado assente que a temperatura da Terra não pode aumentar mais do que dois graus centígrados nas próximas décadas, esse valor vai fazer com que o número de dias com calor extremo no mundo quintuplique.

«Trará consequências dramáticas a nível das condições da água, do solo e do clima. Por isso, temos que colocar este como um tema prioritário na nossa agenda política, temos que construir a sério uma economia circular que permita um menor consumo dos bens finitos e um território mais resiliente aos riscos que vão aumentar», defendeu.

O segundo ponto foi a demografia. «Se nada acontecer muito brevemente deixaremos de ser os 10 milhões que somos e seremos cerca de sete milhões, mas em condições bastante diferentes das de hoje. Em 1990, o índice de envelhecimento do país era de 68 por cento. Dez anos depois já era de 100 por cento, mas há dois anos era de 150 por cento. E isso significa que se nada fizermos, teremos desafios brutais, não só relativamente à ocupação do território, mas também à sustentabilidade do modelo social e do Serviço Nacional de Saúde (SNS)», argumentou.

Aumentar a demografia não depende, somente, de identificar os problemas. É necessário, segundo o recandidato, «criar melhores condições para incentivar a natalidade. Isso implica combater a precariedade, pois se os jovens não tiverem expetativas de estabilidade no emprego e no acesso à habitação, obviamente não têm condições de concretizar a ambição de constituir família», destacou.

Para isso, têm que ser pensadas novas políticas de família que respondam às necessidades da primeira infância, bem como adaptar a segurança social para que esta possa ter também outras «fontes de financiamento de modo a que esta seja mais sustentável», defendeu ainda. A verdade é que, na lógica de António Costa, por muitas políticas de incentivo que haja, é necessário contar sempre com a imigração, sendo essencial criar condições para que ela exista.

Na sua visão, apesar de existirem mais médicos, enfermeiros, centros de saúde e hospitais do que há umas décadas, o sistema responde de forma pior. «Não foi só o SNS que mudou. O utentes também mudaram. Hoje somos mais velhos, mais frágeis, temos doenças que nos fragilizam mais, exigem mais cuidados hospitalares do que antes e, por isso, o SNS tem de se adaptar a esta nova realidade», concluiu.

A sociedade digital, que aparenta ter apenas um lado positivo, tem que ser pensada também tendo em consideração que «uma má utilização dos meios informáticos, dos meios digitais», podem criar «novas formas de intromissão e perturbação do jogo democrático e isso é intolerável», começou por esclarecer. Ainda assim, o primeiro-ministro considera que é essencial a quarta revolução industrial, pois poderá ser uma grande oportunidade para Portugal.

«Pela primeira vez, vamos ter uma revolução para a qual não partimos com défice nem de matérias primas, nem penalizados pela nossa distância. Pelo contrário, temos tudo para estar na primeira linha e sermos vencedores, porque assenta na excelência e na qualidade dos recursos humanos», contou.

Mas até lá é necessário preparar o caminho, até porque, segundo disse, a OCDE estima que 14 por cento dos empregos vão desaparecer. E 32 por cento vão exigir qualificações muito distintas das da atualidade. É fundamental para o secretário-geral, a aposta na educação e na formação ao longo da vida para que nesta revolução ninguém seja deixado para trás.

«Os estudos dizem ainda que grande parte das crianças que frequentam agora a escola vão trabalhar em profissões que não estão inventadas e o sistema educativo vai ter que se adaptar», resumiu.

Por fim, mas não menos importante, António Costa abordou o tema das desigualdades, quer entre ricos e pobres, quer entre homens e mulheres.

«Não podemos aceitar que numa sociedade digna quem quer que seja não tenha a mesma oportunidade que os seus vizinhos para se realizar. É uma condição fundamental de coesão social e de força da nossa democracia. Hoje há maior riqueza, mas esse aumento não foi acompanhado na redução das desigualdades. Em 1980, os 0,1 por cento mais ricos do mundo detinham 10 por cento da riqueza do mundo. Esses mesmos 0,1 por cento hoje já tem 25 por cento. O que significa que a riqueza se concentrou mais», elucidou. Enalteceu que houve dois momentos em que o governo contribuiu para diminuir assimetrias, aquando da criação do Rendimento Social de Inserção e do Complemento Solidário para Idosos, mas também durante a reposição de rendimentos, a partir de 2016.

«A desigualdade não existe só a nível de rendimento. Não podemos aceitar que 44 anos depois do 25 de Abril, a igualdade de género, consagrada na Constituição da República e na lei, esteja ainda ausente do dia a dia de muitas mulheres», defendeu, acrescentando que, há dois anos, a diferença entre o vencimento médio de mulheres e homens era de 17,5 por cento. «Não é aceitável e não é digno de uma sociedade decente», afirmou.

O que António Costa quer, na verdade é que no próximo Congresso Nacional do PS, os militantes se concentrem nestes quatro grandes desafios, apesar de «seguramente existirem outras questões, outros desafios». A altura é a mais oportuna na medida em que «não estamos pressionados sobre a discussão do dia a dia, sobre o dia de amanhã, sendo o momento de nos concentrarmos em como queremos estar daqui a dez anos e o que queremos que seja feito», concluiu.

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