Análise às eleições autárquicas 2017 no Algarve

Há apenas uma cara nova, com a social-democrata Conceição Cabrita a substituir Luís Gomes em Vila Real de Santo António.

Não houve grandes alterações no panorama regional com as eleições autárquicas, no domingo, dia 1 de outubro, ficando as Câmaras Municipais entregues às mesmas forças políticas. O PS conquistou assim dez destas autarquias, enquanto a CDU manteve a de Silves e os sociais–democratas as cinco que tinham antes.

A abstenção a nível do Algarve desceu décimas em relação a 2013, passando de 52,43 por cento para 52,56. A cara nova aparece apenas em Vila Real de Santo António, com a social-democrata Conceição Cabrita, a substituir Luís Gomes, que não se pôde recandidatar por ter atingido o limite de três mandatos. Aliás, Luís Gomes concorreu à Assembleia Municipal de Castro Marim, pelo PSD, na lista de Francisco Amaral, mas não conseguiu votos suficientes para destronar o PS naquele órgão autárquico.

No geral, os socialistas conseguiram mais dez pontos percentuais do que nas últimas autárquicas, conseguindo um total de 60 mandatos nas Câmaras Municipais. Em segundo lugar ficou a coligação PPD/PSD.CDS-PP.MPT.PPM (11,16 por cento), seguindo-se o PSD (10,95 por cento), quase em pé de igualdade com o PCP-PEV (10,62 por cento). O BE ficou pelos 4,69 por cento.

Nas reações aos resultados, o PS destacou o reforço da posição no contexto autárquico ao obter mais votos, maiorias, mandatos, presidências de Câmara e de Freguesias. «Mantendo a liderança da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve e a presidência de 10 das 16 câmaras municipais da região, agora todas com maioria absoluta, o PS obteve no Algarve 83689 votos (46,32 por cento), correspondentes a 60 dos 104 mandatos, mais nove do que nas eleições de 2013».

Nas Assembleias Municipais do Algarve, o PS conseguiu 79718 votos (44,12 por cento), correspondentes a 155 mandatos dos 312 em disputa, mais vinte do que em 2013, passando a deter a maioria na Assembleia Intermunicipal, cuja eleição será realizada quando for oportuno, refere ainda a Federação do PS Algarve.

Nas 67 Assembleias de Freguesia, o PS somou 84191 votos (46,60 por cento) correspondentes a 362 mandatos, mais 49 do que em 2013, obtendo 44 presidências de juntas de freguesia, mais três do que em 2013.
«Com estes resultados, o PS-Algarve dá um forte contributo para a vitória do Partido Socialista a nível nacional, obtendo mais votos e presidências de executivos municipais e de freguesia, determinantes para manter e reforçar a liderança da Associação Nacional de Municípios Portugueses e da Associação Nacional de Freguesias», acrescentaram.

No entanto, na verdade, o PS não conseguiu arrancar ao PSD, em coligação com o CDS-PP, o MPT e o PPM, uma das mais importantes Câmaras Municipais do Algarve, a de capital de distrito. Aliás, o presidente desta estrutura distrital socialista, que concorria àquele órgão em Faro, não conseguiu alcançar a vitória, apesar de ter conseguido eleger quatro vereadores contra os cinco da oposição.

A noite eleitoral mostrou ainda que, em Faro, o deputado social-democrata Cristóvão Norte conseguiu roubou a José Apolinário, socialista e secretário de Estado das Pescas a liderança da Assembleia Municipal. Este foi o único caso no país em que um membro do governo a concorrer a uma Assembleia Municipal perdeu o órgão autárquico.

Para Cristóvão Norte, é motivo de contentamento «pelos farenses reconhecerem que Faro está melhor e que nós somos a expressão política que melhor traduz a visão de concelho que têm».

«Temos muitas coisas que são determinantes nas opções de concelho. Arrumámos as contas. Agora já temos margem financeira para fazer investimento. Ou seja, nos próximos anos vamos ter outras condições. Queremos continuar a trazer investimento privado para acompanhar este crescimento do turismo, queremos continuar a investir em infraestruturas, queremos que mais cadeias de hotéis abram em Faro, que o projeto da zona ribeirinha avance e que o governo olhe para esta situação como deveria olhar, queremos dar novas dimensões e novos espaços à cidade e devolver a relação que a cidade tem que ter com a Ria Formosa e com a capacidade competitiva», afirmou. No caso das Assembleias Municipais, o contrário aconteceu a Rui André, que perdeu o órgão autárquico para a oposição socialista.

Ainda nos resultados do PS, todos os concelhos socialistas ganharam um deputado, e nalguns casos dois, como Loulé, sendo apenas em Aljezur que se verificou a perda de um eleito para o PCP-PEV,
ainda que aquela força mantenha a maioria.

David Santos, presidente da distrital do PSD do Algarve, disse ao «barlavento» que «os resultados não foram os esperados», ainda assim foi possível «manter os municípios» que já tinham antes, o que «foi bom». «A população quis manter a confiança nesses presidentes, exceto em Vila Real de Santo António, onde houve uma troca. O PSD ganhou e aproveito para enaltecer a vitória de Conceição Cabrita». Por sua vez, o líder da distrital evidencia o facto de ter passado de três maiorias absolutas em Câmaras para quatro, «havendo alguma melhoria, mas obviamente que não foi o que esperado», admitiu.

Em relação a Castro Marim, que apenas venceu por uma diferença de 33 votos, David Santos justifica que isso se deveu ao facto de ter havido «um candidato independente, que foi presidente da concelhia do PSD, e que lá esteve durante 16 anos», a concorrer contra o PSD. Houve portanto uma divisão de votos. O líder sublinha que Francisco Amaral ainda assim esteve à altura e é um autarca «experiente».

«As vitórias foram todas muito boas, mas realmente em Faro já havia muitas eleições que não ganhávamos a Assembleia Municipal. Agora fomos os mais votados. Ganhámos também uma Junta ao PS, que é a maior do concelho farense, e a segunda maior do Algarve, porque a primeira é Portimão. Na União de Freguesias da Sé e São Pedro, onde estava Joaquim Teixeira há mais de vinte anos», agora foi eleito o social-democrata Bruno Lage.

Já José Pedro Caçorino, líder do CDS-PP no Algarve, disse ao «barlavento» que «globalmente os resultados não foram os ambicionados. O local onde até correu melhor foi Portimão, onde resistimos mais a toda uma quebra generalizada do CDS, enquanto integrantes em coligações com o PSD. Aparentemente sofremos um bocadinho com o ambiente favorável da política nacional, que os nossos concidadãos resolveram premiar as listas socialistas pela proximidade com o partido a nível nacional», considerou José Pedro Caçorino.

Em Portimão, um concelho que gerava alguma expetativa, Filipe Vital, presidente da concelhia e agora vereador eleito para a Câmara Municipal, contactado pelo «barlavento», destacou que o PS «congratula-se com o resultado obtido após um mandato muito difícil e exigente. Os portimonenses souberam de forma cabal recusar aventureirismos, premiando quem sempre esteve ao seu lado».

O agora vereador considera ainda que a «maioria conseguida em todos os órgãos autárquicos traz ao PS, e a todos os autarcas agora eleitos, uma responsabilidade acrescida. Esperamos uma oposição mais construtiva e temos a certeza que o facto de termos maioria não mudará nada na postura que sempre tivemos. Continuaremos a procurar consensos em todas as matérias sensíveis e que sejam determinantes para o futuro de Portimão».

No mesmo concelho concorreu a coligação «Servir + Portimão», que juntava CDS-PP e PSD, que acabou por não conseguir os resultados esperados. Com o líder da distrital dos centristas a encabeçar a coligação, o Servir não foi além dos 4862 votos, contra os 8896 votos do PS.

«Começámos muito tarde em todo o lado a apresentar os candidatos, a mostrar onde éramos alternativa ao poder e, portanto, o eleitorado castigou-nos. Não partilhamos as nossas ideias atempadamente. Têm que ser feitas com mais tempo, com mais preparação. Não aparecer só perto das eleições. Até porque, as pessoas cada vez castigam mais, não votando em nós» ou não votando mesmo em ninguém. Aliás, Portimão, tal como Albufeira foi dos concelhos que registou altas taxas de abstenção.

«Tinha expetativa que no concelho onde concorri os resultados fossem melhores, ainda assim, no geral, acabamos por ter a mesma representatividade e só não subimos mais, porque não correu bem, até devido» à divisão do PSD com ex-militantes a encabeçar listas pelo Nós Cidadãos.

No entanto, a representatividade deste partido foi reforçada em Faro ou com a «eleição em locais onde nunca fomos eleitos, como Castro Marim, ou Lagos (na assembleia de freguesia), que acabou por acontecer, porque fomos em coligação, referiu o líder.

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