Viver e Estudar – O Algarve

Sei que vou puxar a brasa à minha sardinha. Não fora eu natural e residente em Portimão há mais de 40 anos. Ou docente há cerca de 20 numa escola de ensino superior público de turismo na região. Viver e estudar no Algarve. Ou estudar e viver. Duas faces da mesma moeda. Que se reforçam mutuamente.

As descobertas na física transmitem-nos que, no Universo, são as órbitas circulares à volta de um sistema estrelar unitário, as melhores para o suporte da vida biológico. Na mecânica, sabemos que quanto mais próxima a alavanca está do ponto de apoio, mais força de peso é levantada proporcionalmente. Ida e volta, circularidade, auto-referência em torno de um eixo de apoio identitário. Referências para uma melhor qualidade de vida biológica e existencial.

A vida e a sua dignidade são o fim de qualquer estudo. A formação ao longo da vida é, assim, mais do que uma coerção ou exigência, uma capacitação, um direito. Não sei se haverá melhor forma de estudar e viver ou viver e estudar que não seja na busca de uma identidade e uma agenda que nos mobilize. Numa região que tem extraordinária capacidade de adaptação e sobrevivência à mudança ao longo da sua existência. Ela prepara-nos para o futuro.

Nenhuma outra porção de Portugal construiu na sua história tal agenda. Após as guerras da Reconquista cristã concluídas no século XIII num território escassamente povoado, há muito que a região teve agentes descentralizados que se habituaram a agir por sua conta no mundo global. No século XV, a região já participava nos circuitos comerciais mundiais de produção de cana-de-açúcar e de escravos possibilitados no projeto de expansão militar, religioso e comercial dos Descobrimentos, onde teve papel relevante.

Mais tarde, no século XIX, as indústrias de tratamento e exportação de frutos secos e de conservas de peixe davam o exemplo de empreendedorismo industrial que o país tanto necessitava e não desenvolveu. A região manteve sua identidade como Reino do Algarve reconhecido sucessivamente nas várias Constituições monárquicas até à implantação da República em 1910.

No século XX, o turismo e a construção civil marcaram a agenda e trouxeram muita população flutuante e residente. Foram mais uma das faces do moderno cosmopolitismo da região e que motivam o seu estudo. São exigidos, entre outros, conhecimentos em línguas, tecnologias de informação e comunicação, gestão ou economia para entender o turismo. Ou serviços em saúde, cultura, ambiente e transportes para o apoiar. Lógicas descentralizadas no seu fornecimento continuarão a ser necessárias. E que constituem um viveiro de experiência, de conhecimento prático e de enriquecimento a qualquer projeto de formação e valorização pessoais.

O Algarve tem, também uma acessibilidade ao mar que sempre foi fonte de vantagem competitiva de qualquer território e que merece investimento, organização e qualificação em recursos para o explorar. Por aí, também passará muito futuro.

No que diz respeito à minha ceifa, turismo é um dos instrumentos de eficiência mais poderosos que a humanidade concebeu para os custos da ação coletiva. Embaratece, por um lado, custos de transação pela integração de serviços como o transporte, alojamento, refeições ou animação; por outro, com o recurso a poderosos sistemas e tecnologias de informação para os conectar. Mas, acima de tudo, a importância na formação em valores para atender e servir o turista com dignidade fornece o melhor ingrediente para uma cultura cívica e pessoal de excelência.

O Algarve já atrai milhares de residentes de Portugal e outras partes do mundo para aqui viverem. Merece a pena entender e perceber porque aí vale a pena estudar. Talvez a interação fundamentada com a globalização o justifique. Talvez porque a melhor forma de viver seja aquela que interage ciclicamente com o estudo. Mas acima de tudo, porque estudar onde é bom viver prepara o estudante, portador de um movimento temporário, para uma relação de cidadania, de vivência, de afetação residencial assente numa relação de orgulho, de emoção e de pertença. E esse é o contributo mais inestimável da Universidade do Algarve para com a sua região. Disse!

Virgílio Machado | Consultor e professor na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo (ESGHT) da Universidade do Algarve

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