Um último e dramático testemunho sobre o poeta António Aleixo

No passado dia 29 de janeiro de 2011, após a sessão de lançamento do meu livro Ensaios Aleixianos (Loulé, Arquivo Municipal de Loulé, 2011) e depois de ter terminado de proferir a conferência António Aleixo: traços biográficos e evocações, o já falecido senhor António Laginha Ramos abeirou-se de mim. Trazia na mão uma pasta, contendo alguns documentos, entre os quais se destacava uma carta escrita pelo seu irmão, Fernando Laginha (21/04/1918 – 3/11/1974), que levava como destinatário o Dr. Joaquim Peixoto Magalhães (3/05/1909 – 16/10/1999), eterno «secretário» do poeta António Aleixo.

A carta descreve a derradeira visita que Fernando Laginha terá realizado ao seu amigo António Aleixo. Todavia, a missiva não se encontra datada; sabe-se, no entanto, que terá sido enviada ao seu remetente nas vésperas do falecimento do comum amigo. Ou seja: a mesma terá sido escrita, provavelmente, um ou dois dias antes da morte do poeta Aleixo, que viria a falecer a 16 de novembro de 1949.

A missiva descreve a derradeira visita de Fernando Laginha à última morada que António Aleixo teve em Loulé, isto é, o nº 11 da Rua Bernardo Passos, situada na parte urbana da freguesia de São Sebastião. O testemunho é dramático e bem elucidativo da fragilidade física do poeta. Nessa última visita, Laginha discute com Aleixo a publicação do Auto do Curandeiro, do qual Laginha já tinha escrito o «Prefácio», de duas páginas, em agosto de 1949.

A carta revela-nos que Aleixo teria algum dinheiro guardado para a publicação do livro, mas que, in articulo mortis, achava preferível que a família o gastasse. Havia pouco dinheiro. As dificuldades eram muitas. E a edição do livro não era a principal prioridade. Existia uma família inteira e numerosa para sustentar, composta pela mulher e por seis filhos (quatro raparigas e dois rapazes). Todavia, Laginha apercebendo-se que a publicação do auto podia ser proveitosa num futuro próximo, incentiva Aleixo a realizar esse investimento, convencendo-o a desistir da ideia de não autorizar a sua publicação.

Relembre-se que os custos de impressão dos 1100 exemplares da primeira edição do Quando Começo a Cantar, editados em Faro, pelo Círculo Cultural do Algarve, em 1943, tinham custado 1600$00. Sendo que essa primeira edição tinha sido integralmente vendida em apenas dois meses (maio e junho de 1943), ao preço de 7$50 cada exemplar. Fernando Laginha consegue, assim, convencer Aleixo a publicar o Auto do Curandeiro.

Passo, de seguida, a transcrever a carta (que se encontra no meu arquivo particular), respeitando a ortografia utilizada na época:

«Ex.mo Senhor:

Dr. Joaquim Peixoto Magalhães
Faro

Caro Senhor:

Saude! e bôa vontade

Esta é o rôgo do muribundo. Pasmo como ainda lhe sobeja vontade para querer alguma coisa.

Deve ter adivinhado que se trata do Aleixo. Êle mandou-me chamar hoje. Fui encontrá-lo medonhamente acabado. Olhou-me quando entrei e creio que lhe faltavam as fôrças para o fazer mais vêzes. Enquanto me falou, – com esfôrço vizivel, num sopro enrrouquecido, – fitava alguma coisa, longe ou perto, com a fixidez gelada da ultima hora. Pasmei como ainda se poderia interessar por alguma coisa.

Falou-me do livro e pediu-me que telefonasse ainda hoje a desistir da sua publicação. Disse-me que desistia e que com o dinheiro ía dar de comer á familia que ultimamente vem passando mal. – É claro que lhe tirei isso do sentido; pelo menos fiz o possivel dizendo-lhe que não, que isso era mal pensado e que êle tinha a obrigação de pensar (como se já lhe assistisse qualquer especie de obrigação!) na receita que poderia advir do livro em proveito da familia e da sua relativa continuidade, etc, etc. Disse-lhe ainda que

escreveria ao Sr. Dr. no sentido de apressar o mais possivel a impressão do livro, – argumento com que o convenci a não fazer a asneira da desistencia. Prometi escrever ao Sr. ainda hoje e lá o deixei mais ou menos consolado com a ideia de que tudo se ìria passar rápidamente, não como seria a nossa vontade mas dentro das possibilidades de que dispomos.

Consolei-o dizendo-lhe que tôdas as pessoas que mais ou menos contribuem para a publicação do livro estão a fazer o que podem nesse sentido e com tôda a boa vontade. – Na verdade, creio que por mais depressa que o assunto se resolva não virá a horas de lhe dar a satisfação que êle vê fugir, – a sua grande e ultima satisfação. Penso que poucas horas lhe restarão. Demais êle já nem come há dois dias. Todo o volume que êle faz no leito não excede o de uma criança de poucos anos.

Todavia há que pensar na miséria que o rodeia e que muito se acentuará depois do seu ultimo dia. Talvez por isso êle peça por meu intermédio ao Sr. Dr. Magalhães toda a urgencia.

Por mim espero que o Sr. Dr. Magalhães fará o possivel, assim como já terá dado alguns passos no sentido de regularizar os registos de autor do Aleixo, dos quais êle me falou hoje e a que eu lhe respondi que o Sr. andava a tratar do caso como lhe era possivel.

Posto o que ficou dito, fico em bôa consciencia pensando que nada mais poderia fazer.

Recomendo-me e cumprimento-o respeitosamente.

Fernando Laginha»

O Auto do Curandeiro viria a ser impresso, em Faro, na Tipografia «O Algarve» – empresa tipográfica propriedade da Diocese do Algarve, onde era impresso o periódico católico Folha do Domingo –, nos inícios de 1950, ou seja, já depois do falecimento do seu autor. Obra que mereceria uma segunda edição, novamente em Faro, pela Tipografia Cácima, em 1964.

João Romero Chagas Aleixo é investigador Integrado do Instituto de História Contemporânea – NOVA / FCSH

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