Um algarvio ilustre desconhecido na Primeira República

Quando ouvimos falar em algarvios na Primeira República, o nosso inconsciente recorda-nos de imediato dois nomes: Manuel Teixeira Gomes e Mendes Cabeçadas. Estes são, efetivamente, os dois protagonistas principais nascidos na região, mas há um quase desconhecido que também merece uma atenção especial. É ele o lacobrigente João Bonança.

Nascido em 1838, João Bonança foi o primeiro algarvio candidato à Presidência da República, em 1911, tendo sido igualmente o primeiro português finalista do Prémio Nobel da Literatura. A sua candidatura presidencial foi o culminar de uma carreira envolta em polémica e incompreensão, de uma vida que estava muito à frente do seu tempo e para o seu tempo. João Bonança concluiu a sua formação clerical no Seminário de Faro, tendo sido ordenado sacerdote em 1861. No ano seguinte, o novo padre partiu para Lisboa, onde contactou com a intelectualidade do seu tempo. De espírito livre e aberto, nunca permitiu que a sua carreira sacerdotal impedisse a livre expressão das suas ideias, tendo publicado vários textos polémicos, entre eles um que defendia a criação do casamento civil, medida contrária às determinações da Igreja.

Por outro lado, escrevia sobre questões sociais, defendendo as classes mais pobres e desfavorecidas e o direito dos trabalhadores. Aos poucos, o padre João Bonança passou a ser uma fonte de problemas para as classes mais ricas e para a Igreja. Chamado à presença do Vigário capitular da Sé de Lisboa, nomeado Bispo do Porto, que pretendia repreendê-lo com determinação, conta-se que João Bonança se terá despido à medida que o Bispo falava, abandonando no local as vestes sacerdotais. Não se sabe se teria deixado o local apenas «como veio ao mundo», ou em ceroulas. Certo é que a demissão de João Bonança causou estrondo e escândalo, sendo notícia em vários jornais da época. Entre os crimes que lhe apontavam estava o facto de defender a democratização da Igreja, pretendendo que a população elegesse os seus padres e estes os bispos.

Após a renúncia ao sacerdócio, João Bonança dedicou-se ao jornalismo, à escrita e à política. Fundou os dois primeiros jornais republicanos do país: «República Federal» e «O Trabalho».

Maçom e republicano, acompanhava com outros correligionários em canoas para o meio do Tejo, onde conspiravam contra o regime, sendo uma das grandes figuras do republicanismo português.

Entre as suas obras contam-se: «Carta do Sr. Duque de Saldanha sobre o casamento civil» (1865); «Questões da actualidade» (1868); «A Religião e a Política» (1870); «O Século e o Clero» (1872), «Da Reorganização Social – Aos trabalhadores e proprietários» (1875), «Historia da Luzitania e da Iberia» (1887, a sua obra mais relevante); «Lutas e progressos das sciencias» (1890), «Encyclopedia de Applicações usuaes» (1903) e «Grammatica Portugueza» (1905).

A sua «História da Lusitânia», uma obra notável a todos os níveis, que se tivesse sido completada contaria com vários volumes, apenas viu ser publicado o Volume I. Alguns biógrafos acreditam que João Bonança terá queimado os manuscritos dos restantes, depois de ter visto recusado um apoio estatal para a publicação dos mesmos. Faleceu em Lisboa, em 1924.

Artigo de Nuno Campos Inácio | Genealogista, jurista e editor

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