Turismo: um modelo à procura da centralização?

A pergunta é legítima e tem plena razão de ser. Nos últimos anos, Lisboa procurou encontrar no turismo uma espécie de galinha dos ovos d’ouro, algo que, com muito esforço, conseguiu, catapultando assim a sua imagem no exterior. Lisboa arrogou-se de ser uma cidade multicultural, onde a História caminha ao lado das start-ups que (diz-se) prosperam como cogumelos, onde se cumprem os costumes e tradições cuidadosamente preservadas, e onde o pastel de Belém adquiriu uma importância quasi-nacional. Um louvável (e não menos dispendioso) esforço do Turismo de Portugal e de boa parte da alta política, levou Lisboa às bocas do Mundo.

Investida desta efémera legitimidade e deste protagonismo recente, Lisboa preparou, silenciosamente, um modelo centralizado no setor do turismo, reservando para si os grandes eventos internacionais, tal como sucedeu em relação ao Web Summit em 2017, e em acontecerá em relação ao (futuro) Festival Eurovisão da Canção de 2018.

Todavia, este modelo centralizado defronta-se com evidentes adversidades, para as quais, a classe política não é capaz de providenciar uma solução adequada. Por um lado, procuram-se atrair mais visitantes, levando-os a conhecer a histórica cidade de Lisboa, para a qual, um só aeroporto já não basta, por outro, legisla-se desenfreadamente para limitar o alojamento local (estendendo a regulação a nível nacional), impede-se a circulação de turistas nos centros históricos (no caso dos Tuk-Tuk), ao mesmo tempo que, com a máxima passividade, se permite o crescer da especulação imobiliária quer na compra, quer no arrendamento.

Este bipolarismo acéfalo revela plenamente a incapacidade que Lisboa tem de lidar com esta nova realidade. A insuficiência do seu modelo gestionário tem patente uma questão mais profunda: a insustentabilidade de uma solução centralizada. O turismo contrasta com o turismo de luxo e qualidade do Algarve, razão pela qual, só este último se revela sustentável a longo prazo, considerado, sobretudo, os proveitos económicos.

Como tal, e respondendo à questão inicial, não é o turismo que procura um modelo centralizado, ao invés, é o modelo centralizado que Lisboa pretende implementar que procura (e necessita) desesperadamente do turismo.

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