Turismo algarvio insustentável sem Saúde de qualidade

Se há alguma coisa em que estamos todos de acordo no Algarve é que a nossa atividade económica mais importante é o turismo. Podemos estar em desacordo quanto ao peso que deve ter na nossa economia regional ou quanto à composição do seu mix, mas ninguém questiona se é ou não continuará a ser nas próximas décadas o nosso principal motor económico.

E essa importância reforçou-se nos últimos anos, nomeadamente com a chegada da troika a Portugal e em resultado das medidas implementadas pelo governo do PSD, liderado por Passos Coelho, nomeadamente os incentivos fiscais concedidos aos estrangeiros que decidissem investir no país e aqui permanecer por um período mínimo de dez anos.

Uma decisão que fez aumentar de modo muito significativo – sobretudo franceses e italianos, mas também de alguns países do norte da Europa – os cidadãos europeus que decidiram vir residir para o Algarve e que provocou, direta e indiretamente, um forte impulso na economia regional.

Uma dinâmica constatável através da reabilitação urbana e do aparecimento de centenas de pequenas iniciativas empresariais locais – veja-se, por exemplo, o número de estabelecimentos de restauração e bebidas que surgiram, ou que foram remodelados, e o crescimento exponencial de estabelecimentos de Alojamento Local – e que encerra um novo conjunto de desafios.
Um deles, porventura o mais importante, será a integração desses novos membros na nossa comunidade, na sua maioria aposentados, para assim conseguirmos, para além da continuidade dos seus consumos, outros benefícios que advêm do aproveitamento do seu know-how e da sua rede de contactos.

E um outro, certamente o mais complexo, será como continuarmos a captar estrangeiros endinheirados para aqui viverem até ao resto dos seus dias. É que a continuarem as pressões efetuadas pelos diversos governos europeus, bem como pelos partidos da extrema-esquerda que suportam a «Geringonça», para acabarmos com os referidos incentivos fiscais, o sucesso alcançado na captação desses cidadãos pode estar com os dias contados. E sem a continuação do seu investimento e do consumo proporcionado pelos mesmos, a sustentabilidade do nosso modelo económico regional está seriamente comprometido.

O que fazer então para continuarmos a ser competitivos na atração de cidadãos estrangeiros endinheirados para virem viver para o Algarve, face aos demais países europeus, dada a mais que provável redução (senão mesmo eliminação) dos incentivos fiscais?

Imaginando que me era dado a possibilidade de escolher um único grande investimento do Estado, nesta próxima década, que ajudasse a reforçar a competitividade do turismo no Algarve, para mais que do mesmo decorreriam relevantes benéficos para as populações locais, não hesitaria um segundo que fosse a indicar a construção do Hospital Central do Algarve. E passo a explicar porquê.
As duas unidades hospitalares públicas – em Faro e em Portimão – por mais esforços que façam as suas administrações e os seus profissionais, há muito que deixaram de ter capacidade para responder às necessidades de saúde da população residente.

E por isso, por força de razão, ainda mais fragilidades sentem quando o Algarve entra no período a que designamos de época alta. Pelo que a continuarmos a seguir uma estratégia económica assente no aumento da população residente – para mais sendo essa população sénior – a pressão incomportável que as referidas unidades de saúde sofrem durante o verão passará a sentir-se durante todo o ano.

E se assim for, alguém acredita que um cidadão sénior estrangeiro, podendo optar por outros países mais seguros, sob o ponto de vista assistencial, irá considerar o Algarve como primeira opção para vir viver até ao resto dos seus dias?

A resposta que a região precisa para responder solidamente ao presente e acautelar o futuro, no que respeita à competitividade do nosso turismo, passa por isso necessariamente pela conversão desses hospitais para unidades de retaguarda – prestação de consultas de especialidade; camas de cuidados continuados; instalação de serviços de urgência básica (SUB) e acolhimento de algumas especialidades hospitalares – e a construção de um novo hospital central, capaz de acolher um robusto serviço de urgência polivalente (SUP) e onde se concentre toda a atividade cirúrgica pública da região (emergência, programada e de ambulatório) e ainda onde fique instalada a futura Faculdade de Medicina do Algarve.

Este investimento, a realizar de modo faseado, num prazo que situar-se-ia entre seis a oito anos e que estimo que atualmente situar-se-ia em torno dos 450 milhões de euros – com base num estudo a que pude ter acesso aquando do desempenho das funções de vogal do conselho diretivo da Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve – alteraria por completo a face da nossa região. Um investimento que os algarvios merecem. Porquanto a fragilidade dos cuidados de saúde prestados na região o justifica e a importância do turismo algarvio para a economia nacional largamente o justifica.

Mas esse investimento, podemos todos estar certos disso, nunca que será realizado pelo PS liderado por António Costa. As verbas inscritas no Orçamento de Estado (OE) para 2019, pelo atual governo, são disso prova. Um OE relativamente ao qual, como sucedeu durante toda esta legislatura, os deputados socialistas eleitos pelo Algarve não foram ouvidos, nem achados. Pois se tivessem sido, teriam conseguido que ficasse inscrita, pelo menos, uma verba para o arranque dessa obra.

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