«QUO Vadis» Espécie Humana (E não só)?

Quem pretenda relaxar sem recurso a caros anti-depressivos, que engordam a indústria farmacêutica, ainda vai tendo como alternativa possível e de baixo ou nulo custo, o poder encetar caminhadas pela natureza, sentindo o calmante silêncio que a envolve ou ouvindo o chilrear alegre da passarada, inalando o cheiro a rosmaninho, a alfazema ou deliciando o olhar com a tela de cores proporcionada por amendoeiras em flor, entre tantos cenários possíveis.

Sucede, porém, que de algum tempo a esta parte, a paisagem, até então, virgem, tem vindo, gradualmente, aqui e acolá, a ser violada por gigantes torres eólicas, saídas dum qualquer filme de ficção científica sobre invasão de extra-terrestres, a par de manchas enormes de painéis solares e onde havia o silêncio ou o chilrear alegre dos pássaros, há, agora, o incomodativo som sibilante das hélices daquelas em movimento e onde havia um quadro de verdura, salpicado pelo vermelho de papoilas e amarelo de malmequeres, existe agora o negro destes.

Se é certo que tais intrusos, por um lado, poderão significar uma maior consciência ecológica, traduzida na procura de fontes de energia menos poluentes do ar que respiramos (ainda que à custa de um novo tipo de poluição, o da paisagem, como vimos), não é menos verdade que eles, também, serão símbolos do nosso consumismo, que quanto mais crescente, mais exigirá a sua presença.

E é este consumismo que nos remete, por sua vez, para as contradições subjacentes ao Acordo de Paris, visando a preservação da Terra que coabitamos e de que, ultimamente, se tem falado a propósito dos EUA terem decidido virar-lhe as costas, qual reflexo dessas contradições: na verdade, como poderá querer-se alcançar tal preservação, dentro dum sistema económico, o capitalista, que dele, consumismo, precisamente, se alimenta duma forma cada vez mais desenfreada, com recurso a elaboradas e persuasivas técnicas publicitárias, gerador de lucros que se pretendem insaciáveis?

É que consumismo, quer se queira, quer não, é sinónimo de mais poluição, por mais reciclagens que se façam, incineradoras ou aterros sanitários que se construam! Isto, claro, para já se não falar no facto das matérias-primas necessárias ao mesmo, não sendo inesgotáveis, acentuarão disputas pela sua posse cada vez maiores, com todas as consequências bélicas que daí poderão advir, num mundo onde não faltam bombas e «mães» delas, fora os «pais» por enquanto incógnitos!

O tido, à época, como insubstituível modelo económico esclavagista dos romanos (quem o ousasse pôr em causa corria o risco de ser atirado às feras ou crucificado), acabou, afinal, por dar lugar ao feudal na idade média (e, também, quem este questionasse, corria o risco, desta feita, de ir parar às masmorras de um qualquer castelo), feudal que ao atual capitalista cedeu lugar (novo «bezerro de ouro»).

Que outro, eventualmente, melhor modelo será suscetível de o vir a substituir (quiçá de sentido mais comunitário, menos concorrencial e racional no consumo), poderá não saber-se, mas uma coisa se receia: que o vigente, a perdurar no tempo, ainda acabe por levar à extinção da espécie humana (e não só), sem que tenha havido a possibilidade, entretanto, de se passar a habitar e «explorar» um qualquer outro planeta, como acreditarão os mais otimistas.

Foi o conhecido físico Stephen Hawking quem, recentemente, afirmou: «A humanidade corre o risco de ser extinta graças a perigos criados por ela mesma!»

PS. Talvez por se considerar que terão sido simples «danos colaterais», a não merecerem relevo especial, nomeadamente de primeira página, a pequena notícia, em caixa de «Breves» de página interior dum dado matutino de grande circulação, dizia assim: «pelo menos 484 civis foram mortos por bombardeamentos da coligação liderada pelos EUA que combate os jihadistas do Daesh na Síria e no Iraque desde 2014, diz o relatório mensal elaborado pelos militares americanos. Os números das organizações não governamentais é superior – mais de 132 mortos». Não se sabe é se os familiares dos ditos civis, entretanto, se terão resignado aos ditos «danos colaterais», sobretudo se lhe puseram, como «compensação», um punhado de dólares nas mãos ou se, ao invés, terão decidido engrossar as fileiras do Daesh. Violência, não raro, gera violência e o Papa Francisco há muito que vem denunciando (mas, pelos vistos, ninguém o quer ouvir) que hoje já se vive uma autêntica nova guerra mundial, ainda que por intermédio de terceiros.

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