Quem ganha: tubarão ou íbis-preto?

Um bando de íbis-preto foge assustado com o barulho das obras. Foto: Manfred Temme, 3 de fevereiro.

O que se passa no Algarve, no plano do ordenamento do território, é um manual de pequenos crimes urbanísticos. A eventual passagem de competências nacionais do domínio ambiental para o âmbito municipal faz antever um cenário de grande alegria para os fundos imobiliários e companhia, e de pânico para a generalidade dos cidadãos verdadeiros deste Algarve, algarvios de sangue ou adoção. Se a espécie do pato-bravo prosperou dos anos sessenta até finais da década de oitenta, neste momento, impera o tubarão.

O pato-bravo era o empreiteiro tosco que violava flagrantemente a lei e os licenciamentos ciente da posterior benevolência municipal, e esse espécime tornou-se caduco após o aparecimento dos Planos Diretores Municipais (PDM) e dos Planos de Urbanização (PU), porque a própria edilidade ficava comprometida se anuísse a ilegalidade. O tubarão é animal maior e mais corpulento que o pobre pato. O tubarão é o grande empreiteiro/fundo imobiliário que influencia os próprios instrumentos de ordenamento a seu favor, sejam PDMs ou PUs, cometendo os mesmos crimes que o anterior, mas ao abrigo da lei, «crimes legais», portanto.

Em Lagoa assiste-se, no momento em que escrevo, a um desses jogos de poder. «Onde está o crime?», perguntam os responsáveis. De facto, apenas no pormenor de se aterrar uma zona húmida de inverno, junto à FATACIL, que permite a permanência sazonal de espécies raras no nosso país, como o íbis-preto.

Lagoa, pensando bem, tem esse nome porque em tempos a localidade era rodeada por umas lagoas, que foram sendo drenadas ao longo de séculos. Mas há áreas vestigiais de terrenos baixos que ficam facilmente alagadiços. É nesses espaços de natureza, cada vez mais cercada pelo mau urbanismo, que as aves se acolhem para recuperarem de longas jornadas ou simplesmente para se estabelecerem durante o tempo que dura o inverno nas suas zonas de origem.

Um dia destes esses mesmos íbis-pretos poderão entrar no supermercado erguido no local e fazer calmamente as suas compras, em vez de sujarem as patas na terra lodosa. O tubarão que ergueu a infraestrutura ficará agradecido pela visita. E se em vez da Lagoa sem lagoas se pensasse na Ria de Alvor, no sapal de Lagos ou na Lagoa dos Salgados? Só para citar casos de evidente ataque a zonas húmidas no Barlavento algarvio.

Continua a ser pena que os autarcas de Lagoa, como a maioria dos autarcas algarvios, vejam na Rede Natura, na Rede Agrícola Nacional (RAN) e na Rede Ecológica Nacional (REN) verdadeiros entraves ao progresso das suas terras.

Constrangimentos que devem ser diminuídos a cada revisão do PDM, para que o crescimento chegue a cada centímetro dos seus concelhos, para que um prédio ou uma vivenda preencha cada interstício eivado de gafanhotos, camaleões, pássaros e quejandos.

Afinal, o que a natureza pode proporcionar à humanidade, senão alergias e conjuntivites?…

Estes nossos autarcas eleitos, ainda arreigados a práticas do século passado, continuam a confundir desenvolvimento com crescimento. A experiência acumulada ensinou-nos que o desenvolvimento é o bem-estar humano, com a criação de infraestruturas e de ambientes que qualifiquem a vida das pessoas. O crescimento é apenas isso: crescer. Também os tumores crescem e não significam desenvolvimento.

Talvez por isso, a extensa urbanização de Carvoeiro não tenha estacionamento suficiente, nem passeios em muitas ruas, nem transportes coletivos que acudam à circulação, nem praças ou jardins que desanuviem o espaço. Mas ainda assim, o concelho de Lagoa continua a ser um bom habitat para os tubarões… pobres íbis-pretos!

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