Os mamarrachos e a roda da regeneração

Vem este artigo a propósito da destruição vandálica de um quarteirão quase inteiro de antigas e belas casas algarvias, na zona nobre da cidade de Faro, para no seu lugar ser erigido o inevitável mamarracho.

Na rua Reitor Teixeira Guedes subsistia, até há uma semana, um conjunto de interessantes e bonitas casas do princípio do séc. XX que dignificavam com a sua presença a memória de uma época e de um estilo construtivo, e que tinha resistido ao assalto dos anos de chumbo da destruição urbanística, mantendo ali uma preciosa bolsa urbana desanuviada no meio de uma envolvente de volumetrias asfixiantes.

Por um momento vemo-nos a entrar na máquina do tempo e aterrar em plenos anos 80 e 90 do século passado, época áurea e dura da especulação imobiliária e que levou à destruição da genuína arquitetura tradicional, legado de grande beleza e originalidade e caracterizadora de uma região e dos seus valores estéticos, ambientais e culturais.

Por isso, é com total perplexidade que em pleno ano de 2017, quando o reconhecimento daquela dinâmica devastadora é por demais lamentada, possamos ainda assistir à ocorrência de tal anacrónica e inaceitável situação, revelando que, pese embora os prejuízos irremediáveis para a integridade daquele local da cidade e para a qualidade de vida dos cidadãos, ainda se permite que inviesados interesses particulares ditem as suas leis.

Prejuízos que já afetam grandemente o quotidiano dos cidadãos, e que se irão prolongar pela gerações futuras: estamos «a construir espaços de horror (físico e espiritual) para vivermos, onde teremos que habitar por décadas ou séculos» (Mário Pinto).

Portimão, Quarteira, Armação de Pêra, Albufeira, Monte Gordo, constituem autênticos ground zero da barbárie urbanística onde não ficou pedra sobre pedra. Um «genocídio cultural do Algarve», como o apelidou o saudoso historiador António Rosa Mendes.

É triste viver em cidades irreconhecíveis relativamente ao que eram ainda há pouco tempo, com um urbanismo caótico, desarticuladas da sua harmonia, esvaziadas da sua beleza, implodidas da sua arquitetura, desmemoriadas da sua História.

Estamos, assim, impossibilitados de ter orgulho das nossas cidades, como o têm os habitantes de Évora, de Guimarães, de Cáceres, de Toledo. Vivemos em cidades terceiro-mundistas, feias, porcas e más, e que nos enchem de vergonha!

Por isso urge dar o grito: já chega de mamarrachos! Se quisermos impedir a extinção total da nossa arquitetura não há um minuto a perder. Hoje em dia resta, no contexto do edificado algarvio, menos de 13 por cento de arquitetura tradicional algarvia.

Desse resquício uma parte está em ruínas, e a outra foi mal reabilitada originando-se uma descaracterização completa. Quanto aos edifícios que mantém a sua integridade originária total (portas e janelas em madeira, reboco de cal e areia e pintura em tinta de cal), não devem chegar aos 0,1%.

O elemento típico do Algarve já não é a chaminé, é o mamarracho! Tal como acontece com o lince ibérico, com o rinoceronte-de-Sumatra ou com o leopardo-nubeloso, há que envidar todos os esforços para impedir a extinção da nossa arquitetura e da nossa cultura.

Felizmente, isso já está a acontecer! A força da cidadania no Algarve impediu nos últimos meses, por exemplo, que a destruição da cidade romana de Balsa se consumasse sob a invasão das estufas hidropónicas, que se construísse uma «torre Eiffel» no coração da Barreta, que se aprovasse um regulamento urbano miserável que iria desfigurar, de uma ponta à outra, o centro histórico de Olhão e, finalmente, há que referir a extraordinária vitória que atirou para as calendas gregas o projeto de exploração de petróleo e gás natural no nosso território.

Em algumas autarquias já começa a haver, igualmente, núcleos ativos de uma nova mentalidade consciente dos valores culturais que urge defender. Tenho tido, ao longo da última década, reuniões incontáveis com técnicos do urbanismo da Câmara Municipal de Faro, e sei o quanto se esforçam, dentro dos condicionalismos existentes, para salvaguardar o património.

Contudo, esses condicionalismos, que se traduzem em leis, regulamentos, PDMs, e planos de pormenor em grande parte ultrapassados, impedem uma defesa eficaz desses valores. Tem que haver vontade política para os alterar. É esse o grande desafio atual.

Também a insensibilidade e falta de cultura das populações é um problema grave. Por exemplo, enquanto que a comunidade estrangeira procura reabilitar respeitando os pressupostos de autenticidade da arquitetura tradicional (portas e janelas em madeira, paredes caiadas, telhas de canudo, etc.), os portugueses, em geral, associam isso a atraso e adulteram o património com alumínios, tintas plásticas industriais e telha lusa ou simplesmente optam pela demolição.

A pedagogia cultural é fundamental. Também é necessário ter empresas acessíveis que disponham de artesãos capacitados para intervir nas reabilitações: carpinteiros, estucadores, escaioladores, caiadores, etc. (hoje em dia, já há muitas empresas com essas valências).

A cidade de Faro encarna bem a luta destas forças contrárias: na mesma semana em que se arrasou, lastimavelmente, património, igualmente se salvou património. O Armazém da Patriarcal, edifício notável situado a poucos metros do Arco da Vila, que se encontrava embargado (e a degradar-se) há seis anos, devido a uma intervenção descaracterizadora (substituição da telha de canudo por telha lusa, à má fila, tipo facto consumado), vai poder ser reabilitado adequadamente, revertendo-se a situação do telhado e reconstituindo o reboco tradicional. Este desfecho, tirado a ferros, só foi possível porque se conseguiu o empenho e o interesse de todos os intervenientes do processo.

Só a roda da regeneração pode travar a roda da destruição!

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