Olhão, o jardim e a frente da Ria

«Há uma espécie de pobreza espiritual na riqueza que a torna semelhante à mais negra miséria» (Eurípedes)

Não podemos contornar o facto de que a génese de Olhão se baseia essencialmente na atividade piscatória e marisqueira, transversal à influência Mediterrânica e do Norte de África, na cultura, na arquitetura, nas atividades económicas e na gastronomia, sendo esta a sua identidade e por conseguinte o maior produto de oferta turística.

Embora seja do conhecimento público de um plano em execução para toda a frente ribeirinha da zona histórica limitado pelas fachadas norte da Avenida 5 de Outubro e a Ria, e que neste plano são consideradas algumas soluções supostamente para resolver o tráfego, estacionamento, espaço pedonal e de lazer, acessibilidades, o que é um facto é que o plano, na sua maioria, é desenquadrado e entra em rotura total com as gentes e o lugar.

Ao apresentar-se por si só, poder-se-á dizer que não conseguiu atingir a humildade de intervir na zona com um certificado de excelência evitando as intervenções estranhas ao lugar, como por exemplo no caso da zona ribeirinha do Porto onde edifícios, espaço público e barcos tradicionais se mantiveram evitando adulterações estranhas ao conjunto, fundindo-se num todo, promovendo a génese e por conseguinte a sua identidade e singularidade.

Não se consegue desta forma entender ou distinguir para onde o projeto foi conceptualizado. Barreiro? Lisboa? Cascais? Huelva? Marselha? Dubai? A única coisa que ressalta é que se apresenta como uma receita tipo, insuficiente, abstrata de uma realidade, de modernidade questionável e sem a utilidade de promover o lugar com as consequências óbvias, não atingindo a dimensão necessária de constituir-se numa solução de curto, médio ou longo prazo para a zona ribeirinha.

Igualmente não dignifica o espaço enquanto história ou significado, enquanto espaço para o cidadão, o autóctone, para a relação com a Ria Formosa, a atividade piscatória, os Mercados, ou edificado da zona.
São bastante comuns estes planos tipo originários na influencia duma dada escola, moda, ou estilo importado, que pese embora o esforço e o conhecimento técnico por parte dos intervenientes, parecem ignorar a realidade humana, urbana e os conceitos locais.

Surgem os como receituários dos projetos de aeroportos, centros comerciais, hipermercados, intervenções POLIS, projetos paisagísticos, ou quaisquer outros similares que ignorando o sentido de lugar, auto-promovem-se através de uma plasticidade pseudo-moderna de modo a justificar a ineficácia e a prepotência interventiva, não na falta de criatividade, mas na falta de sensibilidade e consciência interior.
Como resultado, nada no plano sugere uma cidade com as características Mediterrânicas e de influência do Norte de África conforme tem vindo a ser classificada por historiadores e investigadores e tal como ainda se apresenta na sua essência.

Igualmente foi recentemente aprovada a concessão do aumento da marina de Olhão.

Abstraindo-nos das repercussões óbvias futuras deste projeto, salienta-se apenas, dento do mesmo espírito, que o aumento de lugares a nascente direcionados para a frente dos Mercados em nada contribuem para a imagem e sentido do lugar (Genius Loci), bem pelo contrário, apenas irá contribuir para a uniformização social, asséptica e estereotipada estranha ao lugar.

Em suma, o plano minimiza a sua ineficácia procurando cativar apoiantes com uma aparência abstraída da envolvente, voltado para si mesmo, pseudo-modernista e ego-conceptual.

Não se julgando a necessidade do aumento da marina, o que é um facto é que o modo como irrompe para a frente dos mercados, contribui de forma abrupta para uma coleção de imperícias na forma como a ampliação se projeta, com o aumento de parqueamento de embarcações para nascente (em vez do lado poente), mesmo tendo sido diminuída a ocupação inicial que previa toda a frente nascente.

O pescador ao ser afastado para outras zonas marginaliza-se, o habitante que aqui vive e se instala sente-se logrado por lhe ser retirada a autenticidade e a relação natural com a Ria, o turista depara-se com um local comum a tantos outros sem ser surpreendido pela cultura e atividades locais, a especificidade dilui-se, e assim se aniquila aquilo que se considera os ex-libris da atração turística de qualquer lugar. No caso de Olhão e à imagem de muitas outras povoações de frente marítimas, está-se apenas a promover um parque de estacionamento aquático que apenas irá favorecer os seus investidores e proprietários de embarcações estranhos ao lugar e à cidade. Mais, com os novos preços previstos, os ainda pescadores e locais de fracos recursos, mas gentes autênticas que fazem parte do genuíno, serão definitivamente forçados ou a abandonar a atividade ou a procurar outros lugares fora do seu habitat.

Nota: Este artigo não se trata de uma crítica a decisões políticas, mas de um contributo resumido de uma pré-análise de carácter científico e independente de consciencialização, promoção, salvaguarda e valorização dos fatores humanos e económicos da frente marítima da zona histórica de Olhão.

Opinião de Filipe Monteiro | Arquiteto

Categorias
Opinião


Relacionado com:

  • A Raça Bovina Algarvia: mito ou realidade?

    Quem no Algarve viveu da agricultura antes dos anos 1970, lembra-se certamente de bovinos característicos da região, utilizados para trabalho e carne, e até leite para populações locais. Poderá...
  • Cinefilia

    Não haverá, porventura, ninguém que num dado momento da sua vida não tenha sonhado com o mundo do cinema, fazer parte do mesmo! No que, pessoalmente, me toca, a...
  • Joaquim

    Hoje, o céu está maior. Mais uma estrela brilha por lá. Partiu sereno, tranquilo e com a dignidade com que sempre viveu. Desde muito novo, imaginou e criou. Viu...
  • Turismo: um modelo à procura da centralização?

    A pergunta é legítima e tem plena razão de ser. Nos últimos anos, Lisboa procurou encontrar no turismo uma espécie de galinha dos ovos d’ouro, algo que, com muito...