«O Último Amolador de Tesouras» de Portimão

Uma odisseia no Portugal que desaparece

«O Último Amolador de Tesouras» é um pequeno documentário, filmado à volta de Portimão, e dirigido por um realizador português, Ricardo Guerreiro, com uma equipa internacional.

O filme tem participado em festivais de cinema em países tão diferentes com a Inglaterra e a Albânia.Qual é o tema?

Num sentido literal é a busca do último amolador de Portimão. O filme percorre as ruas quase vazias de Portimão «perguntando» a diferentes pessoas pelo amolador. Uma dessas pessoas destaca-se pela excentricidade – percorre a cidade com um rádio ao peito a tocar música popular alto e a bom som.

Este documentário é uma odisseia poética na busca desse último amolador – a influência de Fernando Pessoa é clara. No final é encontrado esse último amolador. Todavia isso não é o mais importante. A procura (e não encontrar o amolador) é o mais importante.

Esta busca do amolador é apenas um pretexto e uma metáfora. Por um lado, o amolador simboliza a Portimão (e, já agora, o Algarve e o Portugal) que está a desaparecer. Algumas dezenas de anos atrás, os amoladores eram uma presença usual nas ruas de Portimão. Agora, resta um que é difícil de encontrar.

Por outro lado, é um motivo para mostrar a crise em Portimão que representa o Algarve e todo o país. As ruas de Portimão estão quase deserta ou mesmo vazias.

O documentário não explora as causas dessa desertificação da cidade. No entanto, duas das razões principais são óbvias. Uma delas é a crise que tirou da cidade muitos dos seus habitantes – foram para outros países encontrar as oportunidades que são poucas em Portugal.

Outra dessas razões são os centros comerciais. Portimão (tal como muitas outras cidades no pais) está invadida por centro comerciais que roubam pessoas às ruas e clientes ao comércio tradicional. As pessoas dormem na cidade. Porém, muitas delas preferem abandonar a cidade de dia – vão fazer as suas compras e ocupar os seus tempos livres nos centros comerciais à volta da cidade.

Vale apena dar uma vista de olhos no documentário. Isso ainda é mais verdade para as pessoas que habitam em Portimão ou em pequenas cidades um pouco por todo o país. É um filme triste por tratar de uma realidade sombria.

Portimão (e o Algarve e Portugal) não é só a crise e o desaparecimento do antigo – é também, por exemplo, inovação e alguma recuperação económica. Porém, a realidade de «O Último Amolador de Tesouras» não deve ser escondida debaixo do tapete.

Texto: Ivo Dias de Sousa | [email protected]

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