O Sentido do Voto

Sendo o voto secreto, apenas cada eleitor saberá das razões porque votou neste ou naquele candidato nas acabadas de realizar eleições autárquicas, pelo que qualquer pretensão em adivinhar-se essas razões não passará dum mero exercício de especulação. Posto isto, seja permitido a este modesto escriba, especular, então, um pouco sobre a matéria: as massas ou o povo, conforme se preferir, tidas como maduras e sensatas quando em nós votam, mas menos quando votam nos outros, antes de serem, ideologicamente, de esquerda, do centro ou de direita, como já uma vez tivemos oportunidade de escrever a propósito da eleição dessa «espécie» de nome Trump, serão pelo pão na mesa e se esse pão, num dado momento, faltar ou escassear e não conseguirem descodificar, por fatores vários que não caberá aqui analisar, os motivos dessa falta, facilmente irão atrás de quem lho prometa, seja de direita, centro ou esquerda.

Ora, tendo o pão faltado ou escasseado na mesa de muitos portugueses durante o designado período da troica, o facto de ele, entretanto, ter, gradualmente, começado a aparecer, nem todos o terão conseguido interpretar como sendo um produto da «aliança» de quatro partidos, PS, PCP, BE e PEV, mas como fruto da ação, exclusiva, do Governo PS, um ator político que, pela sua natureza, é sempre mais visível do que os demais: «Foi este Governo que repôs salários e pensões…», «Foi este Governo que baixou impostos…», etc., serão expressões que, certamente, não serão difíceis de ouvir um pouco por todo o lado no seio da população.

Assim sendo e ainda que se possa afirmar que as eleições autárquicas são possuídas de especificidades próprias, em que contará a pessoa de cada candidato e o programa a ele associado, a realidade acima descrita não terá sido alheia a muitos votos recebidos pelos candidatos afetos ao PS, independentemente da sua pessoa e programa, que, ainda por cima, nem sempre, sequer, é lido.

Por isso, talvez um pouco de modéstia não lhes ficasse mal, quando os vemos, por vezes, tão exultantes com as suas vitórias, nomeadamente se se tiver em conta o número de abstencionistas (que no Algarve superou os cinquenta por cento!*), os votos em branco e os recebidos pelos seus adversários, o que tudo exprimido, como se costuma dizer, lhes dará, muitas das vezes, uma representatividade real, que não ficcionada pelo mecanismo eleitoral, não justificativa de tanta exultação!

* Talvez fosse mais correto falar-se dum «Algarve Abstencionista», que dirá bem da «qualidade» da vida democrática na região vivida, do que dum «Algarve Rosa», como temos visto proclamar!

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