O fim do mito Francisco Amaral

«Poucos vêem o que somos, mas todos vêem o que aparentamos», Nicolau Maquiavel.

Três anos à frente do município de Castro Marim foram suficientes para desconstruir a imagem imaculada e idolatrada do médico-autarca Francisco Amaral, que durante vinte anos presidiu aos destinos da Câmara Municipal de Alcoutim e apresenta como créditos ser o decano dos autarcas portugueses.

Em 1993, quando conquistou a câmara de Alcoutim, Francisco Amaral, com invulgar astúcia, cedo descobriu a receita para se perpetuar no Poder Local ao longo de duas décadas. Tendo resolvido algumas carências básicas da população, como o abastecimento de água, o segredo da sua prolongada estada na autarquia alcouteneja, onde “ia assinar uns papéis e ler o jornal”, como o próprio afirmou, foi a muleta da saúde com as operações às cataratas, a Unidade Móvel de Saúde, as campanhas de desintoxicação tabágica e de combate ao alcoolismo e, ainda, o pretenso voluntariado médico no Hospital de Faro, onde há vinte e três anos faz visitas a doentes do Baixo Guadiana, para despudoradamente caçar votos.

Com um ilusionismo político e uma atitude manipuladora sem precedentes na vida autárquica, Francisco Amaral contou, desde a primeira hora, com a cumplicidade de uma comunicação social complacente e bajuladora, que serviu para branquear junto da opinião pública a sua inacção e incompetência para a gestão da vida municipal. A tudo isto se juntou a distracção de uns tantos, nos quais eu me incluo, quando escrevi que o médico de Alcoutim era um autarca de excepção.

Há três anos, quando tomou posse como presidente da câmara municipal de Castro Marim, o médico-autarca acreditou que podia continuar a prescrever uma terapia velha e gasta, já rejeitada por muitos alcoutenejos.

Entre acções de descontracção e de relaxamento psicológico como «Baila Coração Ao Som do Acordeão», programas de desintoxicação tabágica, de combate à obesidade, uma campanha publicitária de combate ao enfarte, num concelho atado por arames, de que é exemplo a obra de abastecimento de água às populações das freguesias do interior a partir de furos artesianos, o presidente da câmara teve o mérito ou antes o demérito de colocar Castro Marim numa deriva perigosa, assente na demagogia e no populismo, que já comprometeu seriamente o futuro da nossa “Terra com História” nas próximas décadas.

Estranho ou talvez não é o comportamento desconchavado de Francisco Amaral, quando confrontado com a sua incapacidade para presidir aos destinos do concelho e instado a pronunciar-se sobre questões essenciais ao desenvolvimento do mesmo, como o estado de um conjunto de Planos de Pormenor e de Urbanização; o atirar para as calendas gregas projectos sérios para o abastecimento de água a 11 localidades das freguesias de Azinhal e Odeleite; a não conclusão de oito fogos de habitação social, há três anos, na Urbanização das Laranjeiras em Altura; a repavimentação de ruas no centro histórico da vila de Castro Marim, com tapete betuminoso, quando no seu subsolo passam redes de abastecimento de água e redes de águas pluviais apodrecidas, cuja renovação é imprescindível; a duplicação de projectos de ciclovias para a Estrada Municipal 125-6 – Castro Marim/Praia Verde, entre muitas outras. Reagindo desesperadamente, o autarca acusa terceiros de terrorismo psicológico e político, de urdirem campanhas caluniosas contra si, achincalhamento e sei lá mais o quê!

Mas as aleivosias do também Comendador da Ordem de Mérito da República Portuguesa, condecorado com a Medalha de Honra do Município de Alcoutim e militante do partido fundado por Francisco Sá Carneiro não se ficam por aqui.

Do seu currículo imaculado constam os primeiros saneamentos políticos verificados no concelho de Castro Marim em 42 anos de democracia, com a exoneração de cargos e funções de influentes dirigentes do PSD, os mesmos que o levaram ao colo para a presidência da Câmara Municipal de Castro Marim e que levianamente e ligeiramente acusou de incompetentes. Esse grupo, no qual eu me incluo, deve com humildade pedir desculpa aos castromarinenses pelo facto de se ter enganado na escolha do homem a quem foi confiada a missão de continuar a revolução tranquila, ocorrida entre 1998 – 2013 no concelho pelo Partido Social Democrata.

Com ou sem o apoio das cúpulas do Partido Social Democrata, Castro Marim e o país assistem com incredulidade ao fim do mito Francisco Amaral que, durante 23 anos, foi criado pela simplicidade e humildade das gentes do Baixo Guadiana e ampliado por uma comunicação social ávida pela exploração dos sentimentos e pelas misérias do ser humano. Parafraseando Nicolau Maquiavel, “Poucos vêem o que somos, mas todos vêem o que aparentamos”.

Opinião de Vítor Madeira | Cidadão
O autor do texto escreve de acordo com a antiga ortografia.
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