O estranho caso dos transportes públicos em Faro

1) Personagens de uma comédia grotesca
Em Faro, para percebermos qual o autocarro que temos de apanhar para chegar a um lugar qualquer, só podemos recorrer ao processo de tentativa e erro. A versão portuguesa do site do «Próximo», a rede de transporte urbano da cidade, só disponibiliza horários em formato .pdf de difícil interpretação, com paragens que, nalguns casos, têm nomes misteriosos de lojas que já fecharam há anos.
A versão inglesa disponibilizada no site, por sua vez, não funciona (felizmente, o Algarve não é um lugar muito frequentado por turistas e residentes estrangeiros, o que é uma sorte, porque os autocarros que servem o aeroporto servem também a praia, são poucos, e no verão estão a abarrotar).

As paragens, em muitos casos, são apenas placas azuis; quando têm proteção, a informação disponibilizada é genérica e pouco compreensível.

Mas as provações não acabam aqui: depois de (não) termos percebido como chegar onde queremos, temos de (não) perceber qual é o bilhete de que precisamos.

A ignorância, neste caso, custa 2,30 euros, o preço do bilhete ordinário.

As alternativas são muitas, mas muito complexas: entre passes e bilhetes pré-comprados, há quem tenha sete (!) cartões no bolso, para poder poupar um pouco de dinheiro.

Obviamente, existe um lugar em que podemos pedir informações, mas trata-se, precisamente, de um único lugar em toda a cidade, que vende bilhetes também para os autocarros nacionais. A boa notícia é que todas estas preocupações desaparecem à noite e nos fins de semana, quando o serviço é praticamente inexistente. Mas quem é que precisa de transportes ao sábado à noite ou ao domingo, para voltar a casa?

Se isto é o que acontece dentro da malha urbana de Faro, a situação dos transportes no resto do concelho, e na região, não é melhor.

Neste caso, a empresa responsável é a EVA (empresa-mãe do «Próximo»). No âmbito do trabalho desenvolvido pelo grupo informal «Faro à Conversa», temos falado com mães preocupadas porque os filhos têm de se levantar às 6 da manhã e andar quilómetros a pé para apanhar o autocarro para ir para a escola, e esperar horas à tarde um autocarro para voltar a casa. Como se observava num artigo de 2016 publicado no jornal Público «outra situação anacrónica: para se chegar do campus universitário das Gambelas a Vilamoura de transportes públicos leva-se quase duas horas para percorrer 25 quilómetros». A situação não mudou. Nada.

2) As iniciativas do grupo «Faro à Conversa»
O grupo «Faro à Conversa» tem-se interessado pelo tema da mobilidade, e recolheu informações e opiniões, através dum inquérito realizado em março de 2017. Responderam 222 pessoas, e os resultados expressaram claramente que todos estes problemas levam a um uso muito limitado dos transportes públicos por parte de quem vive em Faro. Só 27,5 por cento de quem respondeu utiliza os transportes públicos nas suas deslocações urbanas, e a maioria (21,6 por cento) só o faz algumas vezes por mês. Estas percentagens são ainda mais baixas relativamente aos transportes regionais geridos pela empresa EVA, utilizados só por 21 por cento de quem respondeu, e maioritariamente de maneira ocasional. As razões de quem não utiliza os transportes públicos são principalmente os horários, o preço, a duração da viagem e a falta de informação. A situação é ainda pior para quem utiliza (ou gostaria de utilizar) meios de transporte diversos de maneira integrada (por exemplo, comboios e autocarros). De salientar, no entanto, que a maioria das pessoas que responderam também afirmou que utilizaria muito mais frequentemente os transportes públicos, se a situação melhorasse.

Estes resultados, que se juntam às nossas experiências sobre esta matéria, reforçaram a nossa convicção de que era preciso fazer alguma coisa para mudar esta situação. Por isso, no final de 2017 organizamos uma sessão pública em que convidámos representantes das empresas de transportes e da Câmara Municipal (estes últimos, infelizmente, não conseguiram participar). A sessão foi bastante participada, e o diálogo entre as pessoas presentes e a representante do «Próximo» foi muito profícuo. A empresa mostrou-se disposta a tentar resolver alguns problemas relativos ao site e à bilhética, embora declarando ter margens de despesa muito baixos. Atualmente, alguns membros do grupo Faro à Conversa estão a colaborar com o «Próximo» para ajudar a melhorar o acesso dos cidadãos à informação sobre os transportes coletivos em Faro, de modo a permitir obter informação sobre os percursos entre dois pontos do concelho e respetivo horário.

Da mesma forma, o grupo discutiu o assunto também com representantes da Câmara Municipal, os quais tomaram nota dos problemas e prometeram interessar-se pelo assunto. Contudo, não foi possível termos representantes das duas entidades juntos no mesmo lugar, o que teve como consequência as várias entidades atribuírem toda a responsabilidade à outra parte, com base num contrato feito em 2012.

3) Que futuro para Faro?
Não nos parece que haja razões para sermos otimistas, em todo o caso, sobre o futuro dos transportes públicos em Faro: a visão política que nos foi apresentada no decurso dos vários contactos não parece ir na direção de um melhoramento dos transportes públicos do concelho e da região. Parece triunfar a ideia de que as pessoas que vivem em Faro estariam pouco interessadas no assunto dos transportes públicos, por causa do hábito de utilizar sempre o carro, e por causa da topografia da cidade, que facilitaria as deslocações a pé. No entanto, estas argumentações não têm fundamento, uma vez que não existe informação adequada sobre os transportes públicos existentes e os mesmos não são suficientes para garantir os direitos de quem não possui um carro (quem escreve este texto escolheu não ter carro, e conhece bem as renúncias e os problemas que isto comporta, sobretudo ao nível regional). Relativamente à topografia de Faro, esta permite efetivamente deslocações a pé ou de bicicleta, mas estas duas modalidades são muito dificultadas pelo estado dos passeios e pela inexistência de medidas que facilitem a utilização da bicicleta. O que parece evidente, vivendo em Faro, é que a mobilidade baseada exclusivamente na utilização de automóveis foi priorizada pelas sucessivas políticas urbanísticas.

Atualmente, porém, tudo parece apontar para a necessidade de reduzirmos o uso dos carros particulares como meio de transporte, quer em Faro, quer no Algarve, quer no mundo: desde o trânsito aos problemas decorrentes da poluição, do aquecimento global à ocupação excessiva do espaço urbano. Nesta ótica, os transportes coletivos poderiam representar uma alternativa eficaz, que garanta o nosso direito a tempos de deslocação comparáveis aos dos carros, reduzindo ao mesmo tempo o impacto sobre o ambiente, sobre a nossa saúde, e também sobre os nossos orçamentos. Mas será que existe vontade política de tornar tudo isto realidade? Neste momento, a viagem de Faro até ao Campus de Gambelas da Universidade do Algarve demora pouco mais de 10 minutos de carro enquanto que de autocarro são precisos 40 minutos para fazer o mesmo percurso.

Claudio Maringelli | Membro do grupo informal «Faro à Conversa»

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