O Engenheiro e a esgalha dos sobreiros

Eis uma história passada nos anos 1980 na região de Évora, que o próprio, natural de Montemor-o-Novo, me relatou, desejando, no entanto manter o anonimato. Uma equipa de dois técnicos agrícolas dos Serviços Regionais de Évora deslocou-se a uma cooperativa agrícola na região de Terena, prática exigida pela Direção Regional da Agricultura do Alentejo, sempre que da parte das unidades coletivas fosse solicitada a compra de máquinas, na circunstância, um trator. Decorria nessa altura um trabalho de poda de sobreiros (esgalha é o termo regional) onde se encontrava um dos responsáveis com quem deveriam falar.

Uma vez avaliado o assunto que ali os levava, um dos técnicos, reparando no excessivo desrame feito na extremidade das pernadas (borlas) de um dos sobreiros, não contendo a sua opinião resolveu dizer:

– Oh companheiro, se deixasse aí mais rama nas borlas, tudo ficava mais composto. E até ajudava a árvore a defender-se!

O esgalhador visado não gostou e respondeu de mau modo:

– Aí no chão é fácil falar. Mas aqui em cima é outra coisa!

– Pois fique o meu amigo a saber que, se tivesse tempo, eu mesmo iria aí para cima – disse o técnico – mas não demorarei a passar por cá e nesse dia trabalharemos juntos!

Mas esqueceu-se da promessa feita. Alguns dias depois, recebeu no Centro Regional a visita do manajeiro do rancho acompanhado de um ou dois trabalhadores, que não querendo sair dali sem o encontrar, lhe disse: – Ouça amigo engenheiro, nós amanhã acabamos a esgalha, mas eu já lá mandei deixar para trás dois ou três sobreiros dos mais manhosos que é para o senhor esgalhar comigo no dia em que lá for!

– Não precisa de deixar nenhum sobreiro para trás! – respondeu o técnico.

– A que horas enrregam amanhã?

– Às 8.

– Pois lá estarei. É preciso levar machado?

– Trabalha com o meu!

– Então tenham-no bem amolado!

– E você não se corta?

– Não se preocupe – disse o técnico – o problema é meu.

No dia seguinte, o técnico compareceu à hora junto ao rancho. Cumprimentou os trabalhadores que o miravam com curiosidade. Mas agora, em vias de facto, o manajeiro estava admirado.

– Então você levou isto a sério? Você pode cortar-se! Mas tem aqui o meu machado!

O técnico não hesitou. Só pesou o machado. Segundo as regras era amolado à hora de almoço e à tardinha, ao largar. Era bem equilibrado, embora a lâmina e os gaviões (extremidades da lâmina) já mostrassem algum desgaste.

Escolheu o maior sobreiro, colocou o «burro» no lugar por onde mais facilmente pudesse entrar nas pernadas da árvore e subiu o primeiro lanço. Cravou o gavião do machado na cortiça mais acima e trepou agilmente a altura excedente até à pernada do sobreiro.

Convém fazer aqui um pequeno intervalo na narração para explicar o que o manajeiro e todo o rancho de trabalhadores rurais desconheciam. E o que não podiam saber era o singular percurso de vida deste engenheiro técnico agrário. Em criança vivia com os seus pais num monte alentejano da família distanciado cerca de 8 quilómetros da cidade, num tempo em que não haviam boas estradas, nem transportes. Desde pouca idade percorrera essa distância debaixo de sol ou chuva para ir ao colégio, regressando a casa já de noite. Um dia, rendido ao cansaço de todos os dias, disse ao seu pai que desistia de estudar. Pediu ao pai que o juntasse aos trabalhadores rurais da herdade.

Assim foram anos em que trabalhou com os trabalhadores do rancho e com eles aprendeu as artes do trabalho no campo.

Quando chegou à idade adulta e ao serviço militar apercebeu-se que não tinha a necessária formação académica e teve a coragem de regressar de novo às carteiras da escola, assim conseguindo o seu diploma de Engenheiro Técnico Agrário ingressando depois nos Serviços da Direção Regional da Agricultura do Alentejo, sediada em Évora.

Regressamos à narrativa. Como se vê, este técnico tinha anos de prática com os mais experientes professores, os trabalhadores rurais, o que não passava pela cabeça dos muito curiosos e expetantes trabalhadores da cooperativa.

Segundo as regras do trabalho, o trabalhador tem de começar a fazer a esgalha pela parte mais alta da árvore, progredindo para baixo. O nosso técnico, após ter escolhido o sobreiro, subiu à mais alta pernada, cortando os ramos que atrapalhavam a sua subida, mas deixando as pequenas estacas indispensáveis para a posterior descida. Os golpes da poda eram cerce, sem repetição nem correção, com a lâmina do machado orientada para fora – porque a lâmina para dentro significa lesão certa – ambidextro, como fora ensinado – segurava-se com a mão direita ou esquerda enquanto a outra mão usava o machado, ou até mesmo utilizando as duas, quando bem apoiado. Também segundo as regras, o manajeiro é o único que fica no chão observando, e pergunta:

– Companheiro, quer mais alguém aí para cima? Porque o primeiro que sobe ao sobreiro é quem manda e diz quantos mais devem subir, dependendo da dimensão da árvore.
– Pode subir um – disse o técnico. E um trabalhador subiu rapidamente para outra pernada.
Trabalhava-se nos sobreiros vizinhos, mas o ruído dos machados foi esmorecendo.
Todos queriam observar o novo esgalhador e avaliar por si próprios.

Dum relance tinham-no visto pegar no machado, o que, pela prática que tinham, era suficiente para reconhecer a sua experiência. Mas agora observavam como se movia em cima da pernada, como cravava o gavião do machado na cortiça virgem para se equilibrar, como cortava os ramos de um só golpe, como libertava os galhos secos e arredondava a copa da árvore – e a sua surpresa crescia – porque nos pormenores e nas regras do trabalho o reconheciam como igual.

Acabada a pernada deixando golpes corretos, o técnico cortou cerce as estacas, desceu ágil para o chão e a admiração contida em cada um explodiu:

– O homem sabe trabalhar! – foi a exclamação unânime.

– Mas afinal, ó companheiro – perguntou o manajeiro – o que é você? É um engenheiro lá dos Serviços ou é um trabalhador como nós?

– Hoje sou esgalhador – disse o técnico – Vocês viram.

Trabalhou todo o quartel da manhã e queriam que almoçasse com eles.

A história correu e quando os trabalhadores dessa cooperativa vinham a Évora aos Serviços, faziam sempre questão de cumprimentar e falar com o técnico que sabia esgalhar e era um trabalhador como eles, pedindo-lhe que repetisse a sua história e rindo-se da surpresa nessa memorável manhã.

António Vacas de Carvalho | Engenheiro Mecânico | [email protected]

Categorias
Opinião


Relacionado com:

  • A Raça Bovina Algarvia: mito ou realidade?

    Quem no Algarve viveu da agricultura antes dos anos 1970, lembra-se certamente de bovinos característicos da região, utilizados para trabalho e carne, e até leite para populações locais. Poderá...
  • Cinefilia

    Não haverá, porventura, ninguém que num dado momento da sua vida não tenha sonhado com o mundo do cinema, fazer parte do mesmo! No que, pessoalmente, me toca, a...
  • Joaquim

    Hoje, o céu está maior. Mais uma estrela brilha por lá. Partiu sereno, tranquilo e com a dignidade com que sempre viveu. Desde muito novo, imaginou e criou. Viu...
  • Turismo: um modelo à procura da centralização?

    A pergunta é legítima e tem plena razão de ser. Nos últimos anos, Lisboa procurou encontrar no turismo uma espécie de galinha dos ovos d’ouro, algo que, com muito...