O desafio de uma gestão sustentável da água no Algarve

Francisco Ferreira, presidente da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Em Portugal, e também noutras partes do mundo, estamos a atravessar uma situação crítica de seca, um evento que será infelizmente mais comum, prolongado e acentuado com as alterações climáticas. No Algarve, a pressão turística não tem parado de aumentar, elevando o consumo de água e a necessidade de recuperação da qualidade de alguns recursos hídricos, nomeadamente reduzindo a poluição de origem agrícola e melhorando a qualidade das águas subterrâneas.

Mobilizar todos para uma maior eficiência no uso da água é fundamental e isso envolve soluções tecnológicas e mudanças de comportamento que estarão em discussão no evento. Temos de intervir para assegurar um ciclo urbano da água que reduza o desperdício de um recurso tão importante, bem como a carga poluente que tem de ser tratada adequadamente para assegurar a proteção de ecossistemas tão relevantes como as áreas sensíveis que configuram o litoral algarvio.

Ao mesmo tempo, é preciso olhar para o ciclo urbano de forma integrada e preventiva, pois ao mesmo tempo que se tem de lidar com a escassez, também é necessário que o espaço urbano esteja preparado para lidar com eventos extremos como cheias que têm ocorrido em diversos concelhos.

Uma visão abrangente da gestão das bacias hidrográficas onde as áreas urbanas se enquadram é assim essencial para assegurar o alinhamento com as metas traçadas à escala mundial para 2030 através dos objetivos de desenvolvimento sustentável. A água, presente principalmente no objetivo 6 relacionado com a disponibilidade e gestão sustentável deste recurso e o saneamento para todos, está presente praticamente ao longo de todos os outros 16 objetivos, como sejam a construção de infraestruturas resilientes (objetivo 9), tornar as cidades e os povoamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis (objetivo 11), assegurar padrões sustentáveis de consumo e produção (objetivo 12), para além da ação climáticas, a proteção da vida marinha e terrestre (objetivos 13, 14 e 15, respetivamente). Mais ainda, este trabalho só é possível através de parcerias, envolvendo empresas, instituições, organizações da sociedade civil (objetivo 17).

O Algarve é talvez a zona de Portugal com maiores e mais diversificados desafios na gestão da água – a pressão turística, com atividades por vezes muito exigentes em termos de quantidade de água como os campos de golfe, a sazonalidade da atividade turística, as alterações climáticas, com problemas como a seca e eventos de precipitação intensa causadores de cheias, a erosão das zonas de serra e uma agricultura por vezes demasiado intensiva. Há assim um trabalho fundamental por fazer na eficiência hídrica, na reutilização das águas residuais e na recuperação de aquíferos e de um litoral ameaçado.

Opinião de Francisco Ferreira, presidente da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável

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