O «caldo» sistémico e o «populismo»

Cena do filme político «Lions for Lambs» (2007) de Robert Redford com a atriz Meryl Streep no papel da jornalista Janine Roth.

Se num «caldo» sistémico, onde vamos encontrar «ingredientes» tipo: um capital que deixou de ter pátria, se é que alguma vez a teve, deslocando-se para onde mais facilmente se possa multiplicar, fechando fábricas nuns sítios e abrindo noutros, desde que passíveis de exploração de mão-de-obra mais barata, nem que seja infantil e em regime de quase, se não mesmo, escravidão, como observamos em tantos países para onde tal capital se desloca; o desemprego, a precarização e baixa remuneração do trabalho crescentes (por cada quatro postos de trabalho criados em Portugal, três ter-se-ão revelado precários); a desregulação financeira e outras mais; a destruição de toneladas de bens alimentares, quando tal se torne necessário, como garantia de preços, ao mesmo tempo que milhares de pessoas vão morrendo todos os dias à fome por esse mundo fora; a privatização de lucros de bancos, enquanto se socializam os prejuízos dos mesmos; a eliminação de mecanismos de solidariedade, próprios dos estados sociais, para os transformar em esmolas à porta de supermercados ou em chás de caridade; a construção de «muros», dos mais variados, como nunca, antes, se terá observado; o recurso ao embuste, para invadir países em nome de interesses geoestratégicos, de que a invasão do Iraque, com todas as consequências que hoje estão vista, é um exemplo; o apelo permanente, não ao desenvolvimento, mas ao crescimento/ consumismo, num planeta Terra cada vez mais poluído e exaurido das riquezas com que, primitivamente, gratificou a humanidade, como se o futuro dos nossos filhos e netos não contasse para nada, bastando viver-se o presente; a riqueza produzida se mostra, cada vez mais, concentrada numa minoria; medias que, como diria a jornalista Janine Roth, no filme «Peões em Jogo» (Lions for Lambs), têm vindo a passar de «organizações noticiosas preocupadas em obter notícias, para unidades empresariais preocupadas com lucros e audiências; os países se apresentam, não governados, como propunha Lincoln, em nome do Povo, mas dos «Mercados», elevados à condição de novos deuses, com políticos, ou tidos como tais, transformados em meros subservientes «capatazes» destes; etc., como reagir a «Trumps» e quejandos emergentes desse mesmo «caldo», em países, curiosamente, tidos como «faróis civilizacionais dos tempos do fim da história», capazes de o tornar, ainda, mais amargo?

Aparentemente, para certa intelectualidade, tudo se reduzirá a classificá-los, redutoramente, de «populistas», não questionando o «caldo» que os gerou, talvez por se sentir, ela própria, comprometida com o dito, nem que tenha sido por omissão crítica. Uma certa intelectualidade que só se preocupará com a Liberdade, enquanto um fim em si mesmo, permitindo-lhe encher o «ego» do que tem como «pérolas» discursivas suas, assim se sentindo realizada, em vez de a observar como um meio para se alcançar um mundo mais fraterno e justo.

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