O ano em que tudo se tornou possível

Ainda em estado de choque com mais um atentado terrorista, agora em Berlim, procuro olhar para o ano que ora finda, um ano em que tudo se tornou possível. Do impeachment brasileiro ao talvez inesperado Brexit, do surpreendente Trumpismo ao ressurgimento da Rússia de Putin, podemos afirmar que os acontecimentos políticos nos levam a crer que o mundo está a virar-se do avesso. A crise também chegou aos países emergentes, em força, a desorientação europeia confirma-se, há um regresso mais que provável ao unilateralismo americano e a estratégias de “exteriores próximos”. A crise dos refugiados agudiza-se. Alepo é toda imagem de desolação.

Tudo isto parece confirmar a sensação de um centro político em implosão, incapaz de dar respostas aos insatisfeitos, desafortunados ou, apenas, incrédulos relativamente a sistemas políticos dominados pela tecnocracia e a corrupção, a estados falhados ou reduzidos ao mínimo, a sistemas financeiros embrulhados em fraudes e má gestão e a sociedades com insanáveis fraturas e desigualdades gritantes. A gozar de tudo isto, os radicais somam e seguem. Ganham da insatisfação e medo.

Parto de um conjunto de questões: num mundo de poderes cada vez mais fragmentados como podemos fortalecer o sistema democrático? Num tempo de enorme insatisfação com os poderes instituídos, isto é, de ciclos curtos de crise e mudança, qual o tempo para consolidar lideranças políticas esclarecidas? Num tempo em que a geoestratégia parece prevalecer em relação à geopolítica como ficam as relações internacionais?

Da justaposição destas três questões a resposta não nos deve deixar sossegados: cada vez vivemos num mundo de maior tensão entre poderes e cada vez menos percebemos quais são os verdadeiros centros de poder; as ameaças difusas à segurança aumentam exponencialmente; cada vez mais existe um desfasamento entre o perímetro dos acessos sensoriais e dos acessos materiais, que cava uma profunda insatisfação, porque todos vemos, mas nem todos podemos ter; o tempo de poder democrático é cada vez mais efémero; a prevalência da geoestratégia é propícia a novas configurações e, portanto, à geração de maior instabilidade regional e global. Em suma, mais tensão, maior insatisfação, mais instabilidade, não são sinais animadores. Que nos diga o crescente movimento populista, que ergue muros, rompe compromissos, evoca novos modelos de descriminação racial e religiosa, convoca para o retorno ao mais primário nacionalismo.

António Guterres chegou a Secretário-Geral das Nações Unidas, uma organização de poderes desajustados aos tempos que correm. Dentro do possível, o desejo para o ano que chega é que a sua magistratura de influência possa ultrapassar a percepção que temos da mais infinita impotência da organização que agora lidera. E se não vai salvar o mundo, que nos possa dar pelo menos alguma esperança em dias melhores.

Opinião de Miguel Freitas

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