Nem o politicamente correto, nem os lugares comuns

Liberdade e a defesa universal da democracia e de todos os valores inerentes. É esta a herança global que podemos agradecer a Mário Soares, figura política incontornável da história contemporânea de Portugal. Desde jovem, Mário Soares apoiou as campanhas de Humberto Delgado à Presidência da República, estando presente em inúmeras lutas contra a ditadura Salazarista, sofrendo na pele o exílio. Em 1974, o seu regresso a Portugal foi marcado pela sua participação na construção do Estado democrático e no impedimento da implementação de um modelo soviético de cariz socialista. Foi com ele que Henry Kissinger, então secretário de Estado dos Estados Unidos da América, iniciou conversações, tendo também sido descrito pelo embaixador americano em Lisboa, Frank Carlucci (futuro vice responsável da CIA) como um homem liberal e com grande ambição. Graças à sua intervenção, a interferência americana foi um pilar importante num plano de contingência contra o Processo Revolucionário em Curso (PREC) e as intenções do Partido Comunista Português.

Já como Ministro dos Negócios Estrangeiros, Soares escreve um dos capítulos mais polémicos da sua vida política, a descolonização «pura e simples». A pressa e a falta de uma transição estratégica e pensada resultou num conflito armado e a consequente guerra civil em Angola, o que se sucedeu nas restantes ex-colónias portuguesas, depois de ratificado o documento da independência. Na altura, mais de 600 mil pessoas, os chamados «retornados», chegados a Portugal apenas com a roupa no corpo, concentraram-se junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, como autênticos refugiados. Soares, já como primeiro-Ministro, foi acusado de pai de uma «descolonização selvagem». Em boa verdade, não tivemos, de todo, a inteligência dos britânicos, que ainda hoje mantém ligações económicas e vantagens políticas muito importantes nas suas antigas colónias, fruto de uma passagem pensada e planeada. O caso Macau seria outro ponto negro, com o alegado suborno ao ex-governador, Carlos Melancia, de uma empresa alemã o qual foi prometido também alegadamente a construção do Aeroporto de Macau, isto sobre o possível conhecimento de Mário Soares e do Partido Socialista (PS).

Ainda assim, é a Mário Soares que devemos a liberalização do país, que em 1984 abre a iniciativa privada à banca e ao sector dos seguros, sendo ele mesmo a convidar banqueiros que tinham fugido de Portugal a regressar ao país para recomeçar a sua atividade.

Dois anos depois, e considerado por muitos o ponto de viragem mais importante para Portugal desde a revolução, Mário Soares impulsionou a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), sabendo desde o início que seria essencial para o país preservar a sua democracia. Soares percebeu também o potencial para o desenvolvimento económico e social que este passo traria, graças aos fundos comunitários. Hoje, o modo de vida que temos a isso se deve.

Esta é uma personalidade que, mesmo depois de todas as condicionantes e no meio de todos os erros e polémicas, sempre teve como principal objetivo a defesa dos valores de liberdade, humanitários e da democracia liberal ao estilo ocidental que conhecemos. Não devemos entrar em lugares comuns da sublinhada condenação nem da endeusação, mas é sem dúvida um chefe de Estado que fica e ficará na memória pela prática de bons ideais que fizeram uma real diferença na vida de muitas gerações de portugueses.

Categorias
Opinião


Relacionado com: