Monchique: que vitória?

O governo fala de um caso de sucesso, mas para todos aqueles que foram afetados pelo fogo, esta foi uma «grande vitória» com sabor a derrota. E de facto, não vejo como se possa falar numa «grande vitória», quando o incêndio de Monchique é dado como o maior em toda a Europa, e perante o qual, a estratégica do governo se revelou ineficaz.

No entanto, o discurso oficial foi, como sempre, otimista. Enquanto António Costa falava de Monchique como «exceção que confirmou a regra do sucesso da operação ao longo de todos os outros dias», Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, sublinhava tratar-se uma «grande vitória». E os dois citavam números: por um lado, o primeiro-ministro congratulava-se, pois das 582 ignições registadas (metade face ao ano passado), resultaram apenas 26 incêndios, dos quais, apenas o de Monchique alcançou uma grande dimensão. Por outro lado, o ministro falava de «vítimas zero».

Esta «grande vitória» com «vítimas zero» é, contudo, difícil de explicar, sobretudo, se se considerar que este incêndio devastou 27 mil hectares; provocou 41 feridos (dos quais, 22 são bombeiros); consumiu cerca de 50 habitações e vários outros estabelecimentos; obrigou ao desalojamento de mais de 150 pessoas; destruiu inúmeros instrumentos agrícolas (alfaias agrícolas, tratores, apicultura) e levou à morte de milhares de animais selvagens e domésticos.

Pergunto-me ainda, se António Costa não revê as suas declarações com algum alarmismo.

Ora, se este ano, se registaram metade das ignições face ao ano anterior, e se ainda assim a resposta preventiva falhou, isto mais não nos diz do que, ainda que se registem metade do número de ignições, a estratégia preventiva continua a ser ineficaz.

Ineficácia essa que se evidencia se tivermos em conta que até agosto, as temperaturas registadas no Algarve estiveram abaixo do normal, sendo que o plano de António Costa falhou precisamente nos primeiros dias do período crítico, sendo expectável o aumento da temperatura.

Sucesso? Vitória? Esses são termos que se afastam quer da realidade, quer da estratégia do governo, e que só com recurso a uma extrema insensibilidade podem ser utilizados neste contexto.

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