«Linchamento»

Quando José Sócrates se encontrava no auge do seu poder enquanto primeiro-ministro e havia quem, em venerando livro, o classificasse de «Menino de Ouro», escrevíamos um pequeno artigo de opinião em que, ao invés, o acabávamos por designar de «Menino de Plástico». Ou seja, nunca nutrimos qualquer simpatia política por ele, antes pelo contrário.

Posto isto:

Acabado de ser acusado pelo MP de vários crimes, no âmbito da designada «Operação Marquês», não sabemos se, efetivamente, os terá cometido ou não, deixando esse apuramento para um tribunal imparcial, onde lhe sejam assegurados todos os mecanismos de defesa que a lei lhe confere.

Agora, uma coisa, julgamos saber: seja qual for o desfecho deste caso judicial, José Sócrates foi, antecipadamente, «condenado/linchado» na praça pública, como, porventura, nunca, antes, se vira, tudo em nome da venda de papel de jornais, garantia de audiências num tempo de crise económica e dificuldades de tesouraria das televisões, de estratégias de conquista e manutenção de poder, fazendo dele, neste último caso, um oportuno bode expiatória para tudo que de mal tivesse acontecido ao país.

Tudo isto perante estranhos silêncios, nomeadamente da designada classe política (de todos os quadrantes, adiante-se!), escudados num pretenso respeito pela «separação de poderes» e «liberdade de imprensa», como se tal separação e liberdade tivessem a ver alguma coisa com a denúncia e reprovação do «julgamento/linchamento» de um homem na praça pública, num estado que se pretende de Direito e em cuja Constituição se diz que todo o cidadão se presume inocente até ser objecto de condenação com o respectivo trânsito em julgado!

Na «voracidade mediática» dos tempos que correrão, em que a imprensa, em vez de vigilante crítica dos poderes instituídos, se tem vindo, ela própria, a querer assumir como um concorrencial «quarto poder», hoje Sócrates, amanhã outro qualquer a ser levado ao «pelourinho», sem que nada se tenha aprendido com um Maiakovsky ou Brecht: «Levaram-no, mas não protestei, pois não era nada comigo, até que me levaram a mim, sem que houvesse alguém a protestar».

PS – Certo jornalismo que endeusava, sem qualquer escrutínio prévio, administradores do BES e da PT, talvez por estes lhe proporcionar generosas receitas publicitárias, de repente passaram a descobrir-lhes todos os defeitos e a ser os seus principais «escalpelizadores» públicos. Significativo do dito jornalismo!

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