Igrejas sem Alma

A Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, Faro.

Já começa a transformar-se num déjà vue rotineiro e caricato os episódios ocorridos nas igrejas da nossa terra. A última situação que teve lugar na Igreja do Carmo, em Faro, copia a papel químico o que se passou há uns meses atrás na Igreja Matriz de Olhão e há uns anos na Sé da capital algarvia.

Se nestes três casos foi possível detetar a trapaça, e ainda houve tempo para parar as obras, nas outras, as intervenções começaram e acabaram sem se ter tido hipóteses de impedir as atrocidades levadas a cabo.
Ora o que se tem passado nas igrejas algarvias (e no resto do país) é de uma gravidade deplorável e revela bem como Portugal é incapaz de salvaguardar o seu património construído, quer a nível do edificado erudito, religioso e civil, quer a nível do vernacular, urbano e rural.

Na Idade Média e Renascimento o clero constituía a classe social mais culta, sendo por seu intermédio que se construíram monumentos extraordinários que aglutinavam a expressão artística, científica e cultural da época, e constituíam baluartes simbólicos que iluminavam a mente e o espírito das sociedades de então. O conhecimento e o refinamento artístico dos elementos do clero eram por demais reconhecidos.
Pergunto, pois, o que se passa com a classe eclesiástica atual, que revela uma inclassificável ignorância no que respeita aos valores patrimoniais, comprovada pela forma como têm sido desvirtuadas e descaracterizadas as igrejas, umas atrás das outras?

E a situação coloca-se a dois níveis: infração rasteira da lei, por um lado, e implementação de intervenções nas igrejas à revelia das mínimas regras técnicas admissíveis em obras sobre edifícios históricos, por outro.

Até há relativamente pouco tempo, quem trabalhava nas obras de reabilitação eram pessoas conhecedoras das técnicas tradicionais intervindo com os materiais e procedimentos adequados.
Em poucos anos, contudo, tudo se alterou e esses conhecimentos tradicionais quase se extinguiram, tendo os trabalhadores atuais adotado exclusivamente as técnicas e os materiais inerentes à construção moderna, isto é, à construção (civil) de prédios.

Ora, existe um mundo de diferenças entre um edifício construído em pedra, terra, cal e madeira e outro construído em betão, cimento, alumínios e tinta plástica. Tal como a água e o azeite não se misturam, é impossível compatibilizar estas duas situações.

Todavia, parece que não se deu conta dessa diferença do tamanho de uma galáxia e insiste-se em intervir em edifícios antigos como se fossem constituídos pela mesma substância que os atuais.

O resultado deste inadmissível mal-entendido tem sido o desvirtuamento extensivo de todos os edifícios que foram intervencionados de todos os centros históricos à face deste país (com muito poucas exceções), perdendo-se para sempre um património de uma riqueza e variedade extraordinárias. Como se pode continuar a utilizar o termo «centro histórico» quando os edifícios que o compõem foram destituídos dos predicados que os caracterizavam?

Falamos de reboco à base de cal e areia, pintura de cal ou tinta de silicatos, estuques de gesso, janelas e portas em madeira, telha tradicional de canudo, entre outros.

A textura das paredes de todas as igrejas do sul de Portugal era assim, até há duas décadas (foto de Filipe da Palma).

Se no casario vulgar, pertença de uma população pouco sensível às questões do património, muito pouco se poderia esperar em termos de boas práticas, já o mesmo não acontece com as igrejas, da qual se esperaria conhecimento, obediência à lei e respeito pelo património da parte de quem as detém.

Contudo, os responsáveis pelas igrejas preferem recorrer a mão-de-obra que sabe zero sobre práticas tradicionais e cuja ação aniquila tudo o que lhes passa pelos dedos.

O gesso cartonado, as telas asfálticas, os materiais de moldagem, os materiais cimentícios, os polímeros, os azulejos industriais, para além do cimento e da tinta plástica, são autênticas armas de destruição maciça.

Os edifícios antigos, sob a ação desta artilharia pesada, sofrem danos estruturais e estéticos irreversíveis. Porém, o que é mais estranho, é que existem empresas especializadas na reabilitação de património. Estarão todas indisponíveis?

As igrejas estão a perder a sua alma. E é nas suas fachadas exteriores que isso é mais visível. Até há menos de duas décadas todas as igrejas eram caiadas. A sobreposição de caiações ao longo dos anos criava uma epiderme de rara expressão artística, qual painéis de baixos-relevos de qualidade táctil e escultórica que conferiam aos edifícios uma surpreendente organicidade e forte cunho identitário.

As paredes das igrejas atualmente. A tinta plástica substitui a cal.

Esta expressão vernacular constitui a alma das igrejas. Ora, o que se tem passado nas reabilitações, tem consistido, antes de tudo, na destruição liminar e criminosa dessa epiderme, que é substituída por um reboco liso de cimento coberto pelas incompatíveis tintas industriais, higienizando, abastardando e desvitalizando, desse modo, as paredes.

Temos assim, igrejas com 400 anos com paredes iguaizinhas às de qualquer prédio moderno. Em Faro só resta uma igreja que mantém a expressão genuína das fachadas exteriores, a Igreja de Nossa Senhora do Alto!

PS: Se a Câmara Municipal de Faro e a Direção Regional de Cultura do Algarve tivessem sensibilidade patrimonial e vontade política, elaboravam um regulamento decente para o centro histórico de Faro e o regabofe acabaria num instante.

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