Gomes da Costa e o seu legado

Numa altura em que continuamos a assistir a uma subversão total da função da arquitetura na construção dos espaços urbanos e rurais é pertinente refletirmos na obra do grande arquiteto modernista algarvio, Manuel Gomes da Costa.

Em termos sintéticos, podemos dividir a história da arquitetura no Algarve, em três períodos distintos e bem demarcados. O primeiro corresponde à arquitetura tradicional, em que os edifícios de raiz vernacular se diferenciam em função dos circunstancialismos locais, tais como os materiais construtivos disponíveis, o clima, a paisagem e as actividades humanas. Este período terminou em finais da década de 1940/50.

O segundo período, que preenche toda a década de 1950 e o princípio dos anos 60 do século passado, e que assiste a uma revolução nos processos construtivos, revela-nos edifícios de duas correntes opostas: uma tradicionalista, sob influência de Raul Lino, e a outra revolucionária, a corrente modernista.

O terceiro período, que se iniciou no princípio da década de 1960 e que se mantém na atualidade, representa a fase da negação da arquitetura, substituida por uma dinâmica assente no desordenamento urbanístico, na especulação imobiliária, na construção desenfreada e na inexistência de valor arquitetónico na quase totalidade dos edifícios.

Foi precisamente no segundo período que Manuel Gomes da Costa, imbuído dos conceitos da arquitetura moderna, soube, de forma original, criar uma linguagem inconfundível e adequada ao tempo e lugar.

Utilizando o potencial dos novos materiais, entre eles o betão armado que permite «afrontar as leis da gravidade», desconstruiu a uniforme fachada tradicional (tal como o cubismo desconstruiu a figura), transfigurando-a numa frente caleidoscópica de varandas, grelhas, escadas, colunas, palas, floreiras e painéis de azulejos, amplo vocabulário a interagir com a exuberante luz algarvia num jogo de labirintos, reentrâncias, sombras e reflexos.

Gomes da Costa conseguiu, com esta linguagem inovadora, dar continuidade a uma arquitetura que sempre foi a resultante em termos formais dos imperativos de um clima, de uma paisagem e de uma cultura.

As casas de Gomes da Costa são casas do sul, do mediterrâneo, escudadas para filtrar o excesso de claridade do meio do dia e desveladas para recolher a aprazibilidade do poente. As açoteias mantêm-se, sob palas de arrojadas linhas oblíquas, e as amplas varandas em torno da casa, juntamente com a dominância das linhas rectas, sugerem, ainda, a casa japonesa e um feng shui que as integram na imanência dos elementos naturais.

Cumpre-me por fim, e sem surpresas, sublinhar a constatação de uma recorrência do nosso país: a incapacidade de reconhecer o valor excepcional de tais edifícios (como também aconteceu com toda a arquitetura tradicional anterior) e a inexistência de ações firmes que promovam a sua preservação.

Muitos edifícios da autoria deste grande arquiteto algarvio têm sido sucessivamente adulterados e desvirtuados ao sabor do mau gosto imperante, encontrando-se alguns já completamente abandonados e em ruínas como a Creche da Misericórdia de Aljezur, uma das suas obras-primas.

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