Fogos, é bom lembrar!

O fogo de Pedrogão foi extinto, deixando para trás um cenário dantesco de destruição e sofrimento largamente relatado pelos media. À tragédia sucedem-se os infindáveis debates, com díspares opiniões, acusações e passa-culpas. Constituem-se comissões para inquirir no terreno o que é óbvio: a floresta ardeu, arde e continuará a arder e não há SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal), bombeiros, aviões e helicópteros que nos valham, se não for feito um radical ordenamento do território.

O ideal deste ordenamento seria repor o coberto vegetal do século XIX ou o ambiente da década 1940/50, o que convenhamos, embora no nosso país, face aos interesses em jogo e às mentalidades reinantes, não é fácil e, quiçá, praticamente impossível. Mas algo tem de ser feito.

Para sustentar o que afirmo passo a descrever o que sobre esta matéria observei ao longo dos meus 82 anos de idade: sou de uma aldeia da zona do pinhal, onde, até hoje, o primeiro grande incêndio deflagrou em agosto de 2003. Até esse ano não há registo de incêndios. Vejamos porquê.

Dizia-me o meu avô que a floresta natural, no seu tempo, era constituída por sobreiros, carvalhos, castanheiros e olival, espécies mais resistentes ao fogo Ele mesmo possuía um souto de castanheiros onde se apanhava a castanha para alimentação em verde, ou seca.

Os primeiros pinheiros surgiram, no seu tempo, na serra dos Alvelos e rapidamente se espalharam por todo o centro da Beira Baixa, originando a maior mancha florestal de Portugal. Todavia essa enorme mancha florestal não ardia, embora o pinheiro seja, como se sabe, uma espécie inflamável.

Não ardia devido ao seguinte: a aldeia era habitada por mais de 400 almas; todos tinham cabras que pastavam nos campos; todos cortavam as estevas, as giestas e devastavam os pinheiros para queimar na lareira ou no forno comunitário; roçavam o mato para cama do gado e estrumar as hortas; a caruma que caía do pinheiro era raspada com o ancinho e transportada para a horta para proteger as culturas da canícula do verão; não havia plantação de eucaliptos, principal foco de incêndios. E por fim, a prevenção, natural, contra o incêndio devia-se, também, à indústria da resina, a maior da Europa.

No fim do inverno, numa azáfama constante, centenas de resineiros, calcorreavam a floresta iniciando aos trabalhos do ano com a desencarrasca do pinheiro. De seguida, espetavam-se as cavilhas para suporte dos púcaros e sangrava-se o pinheiro com o ferro da renova.

A resina que brotava da sangria para o púcaro era depois recolhida pelas mulheres e transportada em grandes baldes para o bidão que depois de cheio seguia para a fábrica. No Outono, quando o frio aparecia, a resina que ficava colada à sangria era raspada e igualmente despejada nos bidões.

Deste modo a floresta, da qual a aldeia dependia para sua subsistência, estava sempre vigiada por centenas de homens e mulheres.

Se, por azar, um qualquer agricultor ao queimar algo na sua horta, o fogo ultrapassasse os limites e ganhasse proporções difíceis de controlar, o sino tocava a rebate e o povo ocorria para o extinguir, pois não existiam bombeiros, telefones e indústria do fogo.

Hoje, este cenário está totalmente alterado, não existe. Não há hortas cultivadas, alqueves, rebanhos de cabras, resineiros, porque na minha aldeia, como em tantas outras, no concelho de Proença-a-Nova, em vez das 400 almas apenas ali residem 40 de idade avançada.

O fogo, como acima digo, fez a sua aparição naquele fatídico mês de agosto de 2003, queimando os meus bens e os de toda a gente por onde lavrou. E voltará, ao mais pequeno descuido, com mais força, porque das cinzas deste incêndio nasceram e cresceram a esmo novos pinheiros dando origem a uma mata impenetrável.

Opinião de João Pereira Antunes ([email protected])

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