Em Portugal nada se cria, nada se perde. Tudo fica na mesma.

Foto: Fernando Dinis

Um livro é escrito e depois é publicado. São dois momentos diferentes, um privado e outro público, e assim devem ser entendidos. Se me perguntassem o que se deve exigir de um livro, diria que, num primeiro momento, deve ser escrito por necessidade. Pode não ser suficiente, mas é sem dúvida condição necessária para um bom livro. Um livro que não se escreve por necessidade muito dificilmente será um livro necessário. Num segundo momento, o da publicação, diria que esse livro deve ser capaz de mostrar algo de novo ao leitor. Porque, nas palavras do escritor Arturo Perez-Reverte, «um livro que não muda o olhar do leitor é uma merda de livro. E o mundo está cheio de merdas de livros que não mudam nada. São apenas fruto da vaidade onanista de autores que não têm nada para dizer».

Assim, tomemos por hipótese que um livro foi escrito e publicado, um livro escrito por necessidade que oferece ao leitor uma nova forma de ver o mundo. Mas será tal condição suficiente para que seja lido? Se o livro está escrito, pode ser lido. Pelo menos, pelos leitores da mesma língua. Porém é preciso que saibam que foi escrito e que esteja à disposição do leitor, e essa é, sem dúvida, outra história. Muitas razões poderiam ser invocadas, mas gostaria de salientar uma, que me parece bem portuguesa e que o filósofo José Gil bem apontava no seu livro «Portugal, Hoje – O Medo de Existir», e a que chama «não inscrição».

Nas palavras de José Gil, «pode-se continuar como se nada se tivesse passado. Os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece».

Brincando muito a sério com esta situação, adaptei em tempos a lei de Lavoisier à realidade portuguesa, transformando a conhecida fórmula «na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma», no meu próprio lamento doloroso. «Em Portugal, nada se cria, nada se perde, tudo fica na mesma».

Porque o que acontece em Portugal, e voltemos aos livros e à literatura, é que as obras literárias não se discutem verdadeiramente, nem mesmo nos meios literários. Por isso um livro é escrito, publicado e nada acontece. Pelo menos, na maior parte das vezes.

Quando falo em discutir um livro, falo em entrar em diálogo com esse livro, questioná-lo, afirmá-lo ou negá-lo, e não apenas soltar um lacónico «gostei» ou «não gostei».

Porque em Portugal normalmente critica-se, mas não se discute. Apenas se louva ou se denigre, quase sempre de forma lacónica. Espero caro leitor, não ter caído também eu nesse erro, porque, como diria um velho amigo, não sou pessimista nem otimista, antes pelo contrário.

De referir que os excertos citados foram retirados de entrevistas realizadas pelo jornalista Paulo Moura, que podem ser encontradas com facilidade na Internet.

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