Em Defesa de Olhão e dos Olhanenses

A propósito de um artigo de opinião de Filipe Monteiro (arquiteto) sob o título «Olhão, o jardim e a frente da Ria», publicado no jornal Barlavento, edição nº2074 de 7 de setembro. Inicia o seu texto com uma citação de Eurípedes: «Há uma espécie de pobreza espiritual na riqueza que a torna semelhante à mais negra miséria». Do mesmo dramaturgo grego, direi: «o tempo dirá tudo à posteridade. É um falador. Fala mesmo quando não se pergunta».

Filipe Monteiro omitiu a sua declaração de interesses sobre a zona histórica de Olhão. Desenvolveu e mantém negócios no imobiliário, recuperando velhas casas que coloca no mercado internacional, para arrendar («White Terraces– 9 casas»). Outras intervenções, como são divulgadas na imprensa, tornaram-no numa referência nesta requalificação dos bairros consolidados da baixa de Olhão (Barreta e Levante).

Nestas, introduz alterações substantivas no seu interior, conferindo padrões de conforto atuais, onde nada é esquecido. Das açoteias e mirantes, outrora com funções distintas para secagem de pescado ou de produtos agrícolas, acrescenta jacuzzis e solários em deck .

Nas fachadas, introduz o branco como cor única, em paredes, janelas, cantarias, portais e portas. Nunca Olhão foi assim!

Não se lhe devem retirar os méritos do sucesso comercial conseguido. As recuperações têm qualidade e são reconhecidas nos circuitos destes segmentos de mercado, médio/alto.

Impulsionou um mercado que havia surgido com o primeiro hotel de cinco estrelas do Sotavento (Grupo Real).

Habitualmente invoca os materiais tradicionais adequados nas recuperações das casas, o que nem sempre ocorre na realidade, quer nas paredes exteriores com recurso a técnicas e materiais contemporâneos (redes, esferovite e massas cimentadas), como para suportar os «jacúzis» recorre ao ferro e ao betão armado.

No período de discussão pública destes projetos, particularmente no Plano de Pormenor da Zona Histórica de Olhão (PPZHO) mobilizou a comunidade estrangeira residente no concelho para um debate promovido pela APOS realizado na Recreativa Progresso Olhanense. Convidou homens de cátedra e cerziu no projeto e seus autores. Nesta sessão pública apenas uma família portuguesa residente na zona histórica, no lado da Barreta (ver notícia aqui).

Durante a sessão promovida pela Câmara Municipal, com a presença dos autores do projeto, foi politicamente correto e muito soft nas suas críticas. Lidou bem com o contraditório.
Voltando ao texto de opinião, em sua (dele) opinião as intervenções previstas na avenida 5 de Outubro e jardins não atingiram a humildade de intervir na zona com um certificado de excelência. Fere a sua identidade e ameaça o maior produto de oferta turística.

No nosso entender revela uma opinião redutora, fundada em emoções e interesses recentes.

Ignora as intervenções públicas ao longo das últimas décadas na zona ribeirinha. Onde hoje estão jardins foram rampas para barcos e a linha de muralha que protegia a cidade entrava nesta. Na zona poente das praças serviu de cemitério a antigas barcaças que transportaram durante muitos anos as caixas de conserva para os navios cargueiros ao largo.

Onde atualmente está o Hotel Real Marina & SPA foi uma lixeira. A maior parte da Avenida 5 de Outubro tinha armazéns, estivas, fábricas de conservas e produção de gelo. Tabernas muitas. Circulavam carros de tração animal para o transporte do pescado para as unidades industriais.

Na década de sessenta teve lugar o aterro e conquista ao mar do espaço do atual Jardim Patrão Joaquim Lopes. Enquanto terra batida, o Mestre Cassiano, organizou torneios populares e ensinou centenas de jovens na prática do futebol.

De toda esta cronologia resumida ressaltam funções e evoluções. O «espírito do lugar» (Genius loci) não desaparece, como não desapareceu noutras intervenções. Pelo contrário, coloca as pessoas no primeiro plano do espaço público.

O maior risco de perda dessa «patine» e dessa identidade, vem do capital destes novos investidores ao adquirirem casas na zona histórica a valores que os olhanenses não podem atingir e são expulsos do seu habitat. Na mesma linha outros investidores e operadores foram atraídos por esta singularidade da zona histórica de Olhão. Segundas habitações, investimento e hostels. A pressão exercida sobre o edificado da baixa pelo mercado imobiliário está a excluir os olhanenses desta zona da cidade.

Este é um tema em debate nos países e cidades que cresceram exponencialmente nesta oferta imobiliária e de alojamento local.

Também não será o possível crescimento da marina para nascente, antes do mercado do peixe, que vai descaracterizar toda a frente ribeirinha. A expansão para poente continua de pé.

Esquece, Filipe Monteiro, que a náutica de recreio cria um conjunto de serviços qualificados e de elevado valor acrescentado, empregabilidade em novos sectores tecnológicos e impacto positivo na economia local. Deseja que tudo fique na mesma, daí a opção de «salvaguarda» deste espaço. Na sua ótica não podemos aspirar a melhorar a nossa qualidade ambiental e de vida.

O PPZH de Olhão, aprovado em 2011, tem como primeiro objetivo «Assegurar a reabilitação dos edifícios que se encontram degradados ou funcionalmente inadequados, melhorando as respetivas condições de habitabilidade e de funcionalidade». Segue-se a «habitação condigna»; «modernizar as infraestruturas urbanas»; «mobilidade e espaço público». Subordina-se aos planos: PROTAL e PDM, em vigor.

A visão oculta de Filipe Monteiro, parece indiciar que os olhanenses devem fazer de figurantes na zona histórica para estrangeiros endinheirados apreciarem. Deve ter uma referência de Universal Studios (USA). Não estamos longe, porque este arquiteto já sugeriu que as pessoas de Olhão usassem vestes de pescadores.

No que toca à marina, não reconhece a necessidade de ampliação sem tentar perceber se existe procura ou não. Será que ignora a existência de cerca de 400 embarcações em lista de espera?

Diz que se está apenas a promover um parque de estacionamento aquático que apenas irá favorecer os seus investidores e embarcações estranhos ao lugar à cidade. Mais diz: com os novos preços previstos, os ainda pescadores locais de fracos recursos serão definitivamente forçados ou a abandonar a atividade ou procurar outros lugares fora do seu habitat.

Ignora um concurso lançado pela Docapesca com caderno de encargos que estabelece a progressão de preços. Não é do livre arbítrio da empresa concessionária introduzir aumento de preços.

O que é curioso é que a grande procura sobre o património edificado na zona baixa não inflaciona preços, estes sim regulados apenas pelo mercado, como expulsa residentes «indígenas». O que é um racional económico com condicionantes administrativas é válido no plano de água, mas já não se aplica em terra. Demagogia ou manipulação?

Estou cansado de ouvir e ler referências de estranhos ou recentes chegados à identidade – à mística das gentes de Olhão. Capturam-nos

a nossa alma olhanense, violam-nos a alma com os seu interesses económicos, entram de pantufas, de mansinho, conquistam algumas relações no meio local. Querem alterar o genius loci à sua maneira, ao seu jeito. Esquecem que nem todos os olhanenses se vergam!

Cito agora parte de uma das canções / baladas do Zeca Afonso:

«Ò vila de Olhão / Da Restauração / Madrinha do povo / Madrasta é que não / Quem te pôs assim/ Mar feito num cão / Foi o tubarão / Foi o tubarão / Foi o tubarão».

Nota: Este artigo resposta não se trata de uma critica à decisão política de quem entendeu dar apoio a uma das candidaturas (Coligação PSD-CDS-PT-PPM) no exercício dos seus direitos constitucionais, que concorrem nas Eleições Autárquicas 2017, em Olhão. O autor apenas coloca o debate sobre este espaço da cidade no plano técnico-científico (Desenvolvimento Local, Social, Económico) e disponibiliza informação para uma correta apreciação das diversas visões.

Artigo de Eduardo Cruz | Cidadão de Olhão e vereador da Câmara Municipal de Olhão

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